doze passas… cada sultana, um desejo

Das doze passas da Ardósia Azul ao antever das doze sultanas de mais logo…Não vou plagiá-la  – vontade não me falta, mas ainda tenho presente o post de JNA sobre plágio e inspiração 🙂

Subscrevo os seus 12 desejos para o mundo. Acrescentaria 12 para Portugal,  numa escala mais «à volta dos pés». Os votos do Eu, ou do Si, são sempre tão singulares, e, ao mesmo tempo, como disse Carl Rogers, o mais singular pode ser o mais universal. Vou fazer-me(vos) o desafio de a seguir(mos)… ordenar(mos) desordenadamente 12 desejos para 2009, deixá-los registados algures e voltar(mos) a eles daqui a um ano. ‘Bora!?

(imagem aqui)

a chegar ao fim

foi (ainda está a ser…) um ano tremendo, cheio de desafios e de excessos, pleno de labores e pré-ocupações, de ganhos e perdas, de lançamentos e devoluções. De Vida, se assim o quisermos ver. Com tudo o que a Vida aponta e nos cabe escolher, melhor ou pior, conforme queremos, podemos e sabemos, até porque os resultados são sempre depois.

Provavelmente, os horizontes que traçámos no seu início, modificaram-se, ineludivelmente. E nós mesmos, também. Nos contornos do tempo, a mudança flui. Mesmo que nem demos por ela, até que se torne visivel. Já Heraclito  (um dos meus amigos mortos)  afirmara que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Ainda que persistemos em tentar ver o mesmo rio de há pouco…Neste sentido, pode valer a pena recuperar o tom nietzscheano, de irmos sendo, de nos irmos tornando, porque nós mesmos também estamos em devir.

Uma pausa perto do final permite re-olhar e, num relanceio, decidir-se para diante.

É que um Novo Ano está quase a surgir, à nossa frente, amanhã.  Além de cronológico, pode ser simbólico e, aqui, depende da forma como o queremos olhar.

O findar de um ano é um tempo de fim e de recomeço. Momento de “morte” e “nascimento”, dizem.

Portanto, pode ser um momento de (não, não é de «decisões de reveillon») criar novas expectativas. De se propôr encarar 2009 com ânimo e alegria, festejar porque a própria vida é uma festa, mesmo que nem demos conta disso muitas vezes. Momento de desejar desenvolvimento e realização de Si, que só é possível com os Outros;  de orientar-se para uma vida boa, ou seja,  feliz, e consciente da fragilidade dos assuntos humanos, como diria Arendt.

Votos de que 2009 seja Excelente, nas dimensões do que verdadeiramente importa a cada um.

(imagem aqui)

poesia, sempre…

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão Ferreira

trazido de empréstimo de Saber Ver.

“dói quanto diz que dói”

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An estimated 6.6 million people from around the world die from cancer each year. Pain can occur at any point during the course of the illness. Many individuals with cancer will visit their health care professional because of pain, which may be the first sign of malignancy. The interventions used to diagnose cancer, including biopsies and other tests, can be painful. The treatment of cancer can be associated with both acute and chronic pain. Finally, advancing disease can lead to pain. Although pain is a greatly feared symptom associated with all phases of cancer, in most cases it can be adequately managed (epidemiology of cancer pain)

International Association for the Study of Pain

Associação Portuguesa para o Estudo da Dor

Programa Nacional de Controlo da Dor

Dor, um estudo multidisciplinar (on line)

Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor

O título pretende ser um lembrete de que a dor é um sintoma, logo, subjectivo, ou seja, avaliado pelo próprio, e que é o que o próprio diz que é.  Não se desvaloriza a dor que o Outro diz sentir. Dói tanto quanto e como o próprio diz que dói.

Livros e leituras

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“escolhi um período de três meses da minha vida – de finais de Fevereiro a inícios de Maio de 1996 – e tentei encontrar as raízes históricas de acontecimentos e de objectos do dia-a-dia, desde um gesto tão banal como comprar um termómetro, a algo tão único e íntimo como assistir ao velório do meu irmão”.
De certa forma, dois livros num: a evocação de um irmão descobrindo o outro e o relato de coisas (e suas origens) do quotidiano, com raízes na física, biologia, matemática, filosofia, enfim, onde calha…

E “eis um livro de razões. (..) As razões, tal como o caos, podem ser múltiplas e difusas, disseminadas pelo espaço e pelo tempo, a menos que uma busca deslinde a confusão e lhe dê uma forma. Descobri, assim, que o acto da procura se torna uma tomada de responsabilidade.” (p.12)

Tomar conta das coisas do irmão aparece como o fundamento para o diálogo consigo, as coisas e a vida.

A fotografia cria imobilidade a partir do movimento e tranquilidade a partir da violência; rouba a memória à amnésia do tempo e conserva em luz o que apodrece e se desfaz e mergulha na escuridão da terra. As suas soluções, como as do embalsamador, são químicas e, tal como o embalsamador, fazem dos corpos efígies. De facto, os mortos foram os modelos ideais dos primeiros fotógrafos, que assim evitavam ter de dizer constantemente: «Não se mexa, esteja quieto». As fotografias não são apenas representações, ou espelhos, ou o apogeu do realismo científico; são efígies, fabricadas para duplicar os mortos e preservá-los para os vivos” (p.173).

Terá a vida de Paul sido um desperdício de vida? (..) Se foi vida, não foi desperdício; se foi desperdício, não foi vida. Foi? Cuidado. Vai com calma.  Algumas perguntas explodem na cara do inquiridor.  Não desperdiçaremos, todos nós, até certo ponto, as nossas vidas? Deixemos esta pergunta de lado. Deixemo-la atada e com dois laços, diz a voz interior, a mesma voz interior que mascara as suas tentações com uma calma de gelo. Será que ele desperdiçou a sua vida? O mais seguro seria dizer que ninguém sabe ao certo. Algumas perguntas não podem ser respondidas. Mas as perguntas sem resposta espalham-se como guloseimas envenenadas, interrogam-se vezes sem conta, atingindo inesperadamente o ponto de ebulição num milhar de bolhas secas, como açúcar caramelizado.(…) E o Paul era meu irmão. Foi a sorte ou o acaso que lhe deu a vida que eu não levei, a vida de que fugi? Uma necessidade da história, um defeito nos circuitos cerebrais, um capricho dos deuses? Partilháramos os mesmos pais, éramos sangue do mesmo sangue. O que tornara a vida dele tão diferente da minha? Então, pensei: Não era diferente, e entrei em queda livre através do espaço. Faço parte da vida dele, pensei, ele faz parte da minha.” (p. 252 e 288)

Um texto leve e rico, humano, entremeado de história pessoal e universal, das descobertas da ciência e de um ser humano.

John Vernon
Livro de Razões