# 47 – Das palavras: ter interesse e agir por interesse

“A mais que banal, mas não menos verdadeira, etimologia ensina-nos que o interesse é “inter esse”, estar entre, ou mais profundamente existir entre. O interesse é assim uma integração e uma limitação, uma pertença e um constrangimento. Quando fisicamente um país está entre dois outros, esses outros fazem parte do seu interesse, definem-no. Mas as fontes e as modalidades de interesses podem ter a mais variada origem. Os interesses associam-se a situações de vida, dos quais o espaço físico é apenas uma delas. Algumas vezes diz-se dos místicos, ou de quejandas pessoas, por razões caracteriais ou outras, que são desinteressados. Em boa verdade não é esse o caso. Muitas vezes são bem mais interessados que os outros, estão bem mais integrados e delimitados pelo que lhes interessa que o comum dos mortais. Desinteressado significa apenas o que não está entre as coisas comuns. A ligação entre alguém e um interesse tem sempre elementos de inevitabilidade e de escolha. Portugal não pode decidir ser africano. Mas pode decidir dar mais ou menos ênfase às suas relações africanas.

Questão diversa é a da percepção dos interesses. A História tem demonstrado que sendo os interesses muito diversos, consoante as pessoas e o longo ou curto prazo, também as percepções dos interesses podem estar profundamente erradas. Mas, definidos os interesses, é perfeitamente legítimo defendê-los.”

Trago o texto da vizinhança, e não resisto a evocar Kant🙂

“A vontade humana pode também tomar interesse por qualquer coisa sem por isso agir por interesse. O primeiro significa o interesse prático na acção, o segundo o interesse patológico no objecto da ação. O primeiro mostra apenas dependência da vontade em face dos princípios da razão em si mesmos, o segundo em face dos princípios da razão em proveito da inclinação, pois aqui a razão dá apenas a regra prática para socorrer a necessidade da inclinação. No primeiro caso interessa-me a acção, no segundo o objecto da acção” (Fundamentação da Metafísica dos Costumes, 49).

Estar interessado e agir por interesse são diversas, diz Kant.  Notemos porém, que este interessado pode ser desinteressado, no sentido que vulgarmente lhe atribuímos. O desinteresse da apreciação estética, do belo, é, ao mesmo tempo, interessado… ou fica estranho?!

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