A quem interesse: “Human bodies: donation for medicine and research”

O mais recente Parecer do Nuffield Council on Bioethics, em matéria de transplantes e doação de órgãos.

O texto completo do Parecer, bem como documentação conexa, AQUI

This report sets out guidance to help people consider the ethical acceptibility of various ways of encouraging people to donate, both for treatment of others and for scientific research.

 

 

 

seis ideias em torno de Foucault

1.“Para Foucault, as instituições que nos governam ou que nos assistem, sejam as dedicadas à saúde pública (hospitais, manicómios ou asilos), ao sistema prisional (casas de correção, reformatórios, presídios e cadeias), na recuperação de viciados (clinicas especializadas, ambulatórios de desintoxicação, etc.), ou voltadas para a educação (orfanatórios, seminários, escolas, universidades, centros técnicos, etc.) nada mais são do que “espaços de opressão” controlados por equipas dirigentes.”

2. O objectivo principal dessas instituições é  criar mecanismos que permitam exercícios do poder – o poder de humilhar, de reduzir e oprimir o próximo que por uma desdita qualquer é obrigado a ficar confinado ou constrangido numa das edificações (o asilo, a prisão, clínica ou ginásio).   Escreveu: “os tribunais, as prisões, os hospitais psiquiátricos, a medicina do trabalho, as universidades, os órgãos de imprensa e de informação: através de todas estas instituições e sob diferentes máscaras se exprime uma opressão que no fundo é política”.

3. Foucault considera que os séculos XVII a XIX perseguem principalmente uma ideia construtiva de conversão do homem em máquina – algo com a intenção de tornar o indivíduo útil, dócil e disciplinado através do trabalho. Esse tipo específico de poder que se expande por toda a sociedade, investindo sobre as instituições e tomando forma em técnicas de dominação, possui uma tecnologia e história específica, pois atinge o corpo do indivíduo, realizando um controle detalhado e minucioso sobre seus gestos, hábitos, atitudes, comportamento, etc.

4. Segundo Foucault, a anatomia política desenvolve os seus efeitos segundo três direções privilegiadas: o poder, o corpo e o saber. Essas direções não são isoladas uma das outras, pois, correlacionam-se. Ensina Foucault que toda uma tradição falou do poder procurando a sua origem, as suas condições, as suas causas, reduzindo ou aplicando-o a outra coisa, quando afirmou: …foi preciso esperar o século XIX para saber o que era a exploração; mas talvez ainda não se saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível, presente e oculta, investida em toda parte, que se chama poder.

5. O poder não tem essência, porque é operatório. Não é atributo mas relação de forças que passam tanto pelos dominados quanto pelos dominadores, ambos constituindo singularidades. O poder incita, suscita, combina, reparte, coloca em série, compõe, normaliza. A sua imagem é a luta, a batalha, a guerra. Desta forma, a  repressão e a ideologia são apenas a poeira levantada pelo combate.

6. Em  “Vigiar e punir”, Foucault demarca o nascimento da prisão no século XIX, surgindo sem uma justificação teórica, aparecendo num determinado momento como necessária na construção da rede do poder para controlar todas as formas de ilegalismos, dividindo e opondo uns aos outros Ao longo desse estudo sobre a prisão, Foucault promove um deslocamento essencial sobre os motivos aparentemente circunstanciais do surgimento da prisão e acentua que desde o começo ela deveria ser um instrumento tão aperfeiçoado de transformação e ação sobre os indivíduos como a escola, o exército ou o hospital. É a estas instituições que Foucault chama  instituições de sequestro, em razão de que a reclusão submetida, não pretende propriamente “excluir” o indivíduo recluso, mas, sobretudo,  “incluí-lo”  num sistema normalizador.

Poema do dia: M. Rosário Pedreira

Trouxe as palavras e colocou-as sobre a mesa.
Trouxe-as dentro das mãos fechadas (…)
Pousou-as na mesa e começou a abri-las devagar,
tão devagar como passa o tempo quando o tempo não passa.
E depois distribui-as pelos outros,
multiplicou-se em dedos, em palavras (alguém disse
que chegariam a todos, ultrapassariam os séculos e
teriam a duração do tempo quando o tempo perdura).(…)
Quando se ergueu, havia ainda palavras sobre a mesa,
coisas por dizer no resto do pão que alguém deixara (…)

Maria do Rosário Pedreira,

A última Ceia, “A casa e o cheiro dos livros”, 1996