puramente posicional… e vem nos livros…

“(…) Estamos num tempo de não-pensamento, mas de obediência e ordem (…). Como o debate escasseia e é puramente posicional – quem não é por nós é contra nós, ou se é da situação ou se é da oposição, ou se é do Sócrates ou do Passos Coelho -, tudo é simples, tudo é a preto e branco e que ninguém pie. E depois há toda uma violência verbal incontida que jorra logo por todo o lado, quando aparece qualquer dissenso, qualquer objecção e dúvida. (…)

O não-pensamento acompanha muitas vezes a raiva, vem nos livros para quem os costuma ler, esse hábito demasiado subversivo em tempos de miséria intelectual.”

José Pacheco Pereira, no Público de sábado, 26 Novembro 2011

Foto: Emaranhados, Eurico Lima

Cit in Cachimbo de Magritte

Poesia, sempre: À espera dos bárbaros, Konstantinos Kaváfis


O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis
Os senadores aguardam no Senado e não fazem leis, o Imperador senta-se no trono para receber os inimigos, os cidadãos ansiosos juntam-se no forum, toda a cidade pára porque “vêm aí os bárbaros”. Mas o dia passa e os bárbaros nunca aparecem.
À noite, alguns viandantes chegados da fronteira dizem que os bárbaros afinal não vêm porque já não existem. E os romanos voltam a suas casas, desiludidos, murmurando que os bárbaros “sempre eram uma solução”.
…. sem os bárbaros, o que será de nós??….

 

Segue o teu destino: Ricardo Reis

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.

 

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te.

 

A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

 

Ricardo Reis

Poesia, sempre: Ítaca, KK

ÍTACA
Konstantinos Kaváfis
(Trad. José Paulo Paes)

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

………………….

Ítaca em várias línguas

“mental fitness”

Mudar, assim de repente, pode ser um apelo radical – por isso, em equilíbrio e harmonia, mudem-se algumas coisas: renove-se dentro de cada dia.

Coisas simples…

Sente-se noutra cadeira, à mesa do costume ou mude de mesa.

Vá por um caminho diferente do de ontem, que vá ter ao mesmo sítio.

Abra a porta com a mão esquerda (ou a direita, se fôr canhoto).

Leia um autor que não conhece.

Escolha uma comida diferente no menu.

Vá dormir mais cedo (ou mais tarde).

Compre algo de uma cor que não costuma usar.

Sorria a alguém desconhecido.

Almoce ou jante num lugar a que nunca foi.

Experimente um pão diferente.

Espere pelo vizinho com a porta do elevador aberta.

Estacione no quarteirão adiante e passeie até onde vai.

Use outra marca de gel de banho ou de perfume.

Visite um museu ou uma exposição inhabitual.

Atravesse para o lado da rua por onde não costuma ir.

Altere a sua hora do banho.

Rode os sofás da sala.

Experimente fazer de formas diversas. Vai ver que a possibilidade de mudança é o que não falta!!! Muitas vezes é uma questão de fitness mental.