Pensamento do dia

“Literature presents you with alternate mappings of the human experience.

You see that the experiences of other people and other cultures are as rich, coherent, and troubled as your own experiences. They are as beset with suffering as yours.

Literature is a kind of legitimate voyeurism through the keyhole of language where you really come to know other people’s lives—their anguish, their loves, their passions. Often you discover that once you dive into those lives and get below the surface, the veneer, there is a real closeness.”

Chaim Potok

Paul Ricoeur: “Vivo até à morte”

” E é contudo esta interrogação sobre o fim dos mortos que eu quero exorcizar, em relação à qual quero fazer o luto para mim mesmo.

Porquê?
Porque a minha relação com a morte que ainda não teve lugar está obscurecida, obliterada, alterada pela antecipação e interiorização da questão do que acontecerá aos mortos já mortos. É o morto de amanhã, no futuro anterior, por assim dizer, que eu imagino.

E é esta imagem do morto que eu seria para os outros que quer ocupar todo o espaço, com a sua carga de questões: o que são, como são os mortos?

A minha batalha é com e contra esta imagem do morto de amanhã, desse morto que serei para os sobreviventes. Com e contra este imaginário onde a morte é, por assim dizer, desejada pelo morto e pelos mortos. (…)

Outros seres vivos sobrevivem à morte dos seus. Da mesma forma, outros sobreviver-me-ão. A questão da sobrevivência é, assim, antes de mais, uma questão de sobreviventes que se perguntam se também os mortos continuam a existir, no mesmo tempo cronológico ou pelo menos num registo temporal paralelo ao dos vivos, mesmo se essa modalidade temporal é tida como imperceptível. Todas as respostas dadas pelas culturas relativamente à sobrevivência dos mortos  inserem-se nessa questão não posta em causa: passagem a outro estado de ser, expectativa de ressureição, reencarnação, ou para espíritos mais filosóficos, alteração de estatuto temporal, elevação a uma eternidade imortal. Mas essas respostas são-no a uma questõ posta pelos sobreviventes, relativamente ao que será dos mortos já mortos.” pp. 35-36