Arendt: O julgamento de Eichmann


Um texto que é uma preciosidade.

Malomil: Arendt em Jerusalém

excerto:
“5. Hannah Arendt, repórter. O processo de Eichmann representava para Hannah Arendt (1906-1975) uma forma de ajustar contas com o passado [22]. É ela que oferece os seus serviços a William Shawn, redactor-chefe da New Yorker, que aceita com entusiasmo a proposta [23]. Hannah Arendt, como é sabido, fora uma refugiada judia, que escapara do campo de Gurs, nos Pirinéus franceses, e, fugindo por Hendaia, chegou a Lisboa, onde permaneceu durante três meses [24]. Daí embarca rumo aos Estados Unidos.
Para Arendt, era fundamental presenciar o julgamento de Adolf Eichmann. Ao pedir uma bolsa de investigação à Fundação Rockfeller, em Dezembro de 1960, escreve: “(…) tenho que fazer a cobertura deste processo, falhei Nuremberga, nunca vi esta gente em carne e osso e será provavelmente a única ocasião que terei para o fazer” [25]. E, em Janeiro de 1961, anula uma conferência em Vassar com o argumento de que “assistir a este processo é, de certo modo, uma forma de me libertar de uma dívida que tenho em relação ao meu passado” [26]. Sentir-se-ia Hannah Arendt “culpada” por ter fugido ao destino que levou à matança de milhões dos seus compatriotas? Porque necessitaria daquilo que qualificou, usando a expressão latina, como uma cura posterior?
Não adianta penetrar nos meandros da alma humana nem ceder a indagações psicológicas pouco ou nada consequentes. O importante é notar o entusiasmo – talvez mesmo, a alegria – com que Hannah Arendt comparece em Jerusalém. Ela própria o confessa à sua amiga Mary McCarthy, em Junho de 1964, no auge da controvérsia provocada pelo seu texto, dizendo que tinha escrito o livro “num curioso estado de euforia”.
Em 7 de Abril de 1961, Hannah Arendt parte de Nova Iorque e faz uma curta paragem em Paris; a 9, encontra-se em Tel-Avive e, no dia seguinte, em Jerusalém. Regressa no dia 7 de Maio, com direcção a Basileia, onde visita o seu mestre e amigo Karl Jaspers, um céptico em relação a este projecto [27]. Permanece, pois, cerca de um mês em Israel: assiste ao início do interrogatório de Eichmann pelo procurador Gideon Hausner e aos depoimentos das primeiras testemunhas. Aqui pode entrever-se um motivo para criticar a sua obra: na realidade, Arendt assistiu apenas a cerca de um quarto do processo de Eichmann. Enquanto permaneceu em Israel, visitou familiares (designadamente, o primo Ernst Fürst) e encontrou-se com personalidades como o ministro da Justiça, Felix Rosenblüth, e Golda Meier, com quem manteve uma extenuante discussão pela noite dentro [28]. As suas impressões de Israel – que confia em privado ao marido, Heinrich Blücher, e a Karl Jaspers – são francamente negativas. O retrato que traça dos diversos protagonistas do julgamento, do “homem na cela de vidro” ao procurador, passando pelo advogado de defesa, é, também ele, bastante negativo [29]; mesmo algumas testemunhas não escapam ao seu olhar crítico e até sarcástico. A única excepção é o Presidente do Tribunal, Moshe Landau, que Hannah Arendt, numa carta ao seu marido, qualifica como “um homem extraordinário! Modesto, inteligente, muito aberto… do melhor judaísmo alemão” [30].

6. O livro e a sua circunstância. Tendo entregue cinco artigos para a revista New Yorker (“A Reporter at Large: Eichmann in Jerusalem”, Fevereiro e Março de 1963), Arendt decide editá-los em livro. A obra é escrita entre o Verão e o Inverno de 1962, sendo concluída em Novembro desse ano. Assim que foi publicado, em Maio de 1963, o livro deu azo a uma intensa polémica[31]. A controvérsia começou, aliás, com a publicação nos artigos na New Yorker, havendo quem questionasse, desde logo, o facto de se abordar um tema tão dramático no meio de anúncios publicitários[32]. Esse não era, todavia, o ponto mais delicado. Uma das questões que suscitou maior reacção foi, sem dúvida, o relevo que Hannah Arendt deu à “colaboração” dos conselhos judaicos na logística da Shoah, um tema que retomou, por exemplo, numa entrevista que concedeu à televisão, em Nova Iorque, em 24 de Janeiro de 1964[33]; já antes, ainda no tempo da guerra, Arendt procurara ir “mais além” na explicação da perseguição aos judeus, designadamente quando analisou, no periódico Aufbau, os verdadeiros motivos da instituição do “campo modelo” de Theresienstadt[34].

O tema é retomado em Eichmann em Jerusalém, mas o relevo agora dado à intervenção dos judeus não podia, obviamente, deixar de provocar uma intensa polémica. Já se disse – e não é exagero – que o livro trouxe um “novo idioma” ao discurso sobre o Holocausto[35]. Dois historiadores britânicos, Hugh Trevor-Roper e Walter Laqueur, analisaram a questão com algum distanciamento. No Sunday Times de 13 de Outubro de 1963, Trevor-Roper escrevia que “a Sr.ª Arendt não afirma expressis verbis que os judeus foram mais culpados do que Eichmann mas, como tende a menorizar a responsabilidade deste e a destacar a responsabilidade daqueles, dá por vezes essa impressão” [36]. Em 1966, Laqueur concluiu que Hannah Arendt “foi atacada não tanto pelo que disse mas pela maneira como o disse, ainda que os que a atacam estão, em contrapartida, demasiado inclinados a deitar fora o bebé com a água do banho” [37]. Na polémica intervieram outros nomes de destaque nos meios intelectuais, como Daniel Bell[38], Bruno Bettelheim[39] ou Gershom Scholem[40]. É com este último que Hannah Arendt mantém uma interessante troca de correspondência. Mas, além dele, muitos outros escreveram textos em torno de Eichmann em Jerusalém: Michael Musmanno, antigo procurador em Nuremberga e testemunha de acusação em Jerusalém (“Man with an unspotted conscience”, New York Times, de 19-V-1963) [41], Norman Podhoretz (“Hannah Arendt on Eichmann. A study in the perversity of brilliance”, Commentary, Septembro de 1963), L. Abel (“The aesthetics of evil”, Partisan Review, Verão de 1963), M. Syrkin (“Hannah Arendt: the clothes of the empress”, Dissent, Outono de 1963), entre outros, participaram naquilo que Hannah Arendt considerava ser praticamente uma campanha contra a sua pessoa. Na verdade, organizações como a Anti-Defamation League do B’nai B’rith emitiram circulares para todos os rabinos dos Estados Unidos incitando-os a pregarem contra Arendt [42] e alguns dos seus amigos – como Gershom Scholem e Hans Jonas – vão ao ponto de cortar relações com ela; outros apoiam-na, como sucede com Daniel Bell e Mary McCarthy[43]. Mesmo o seu grande amigo Kurt Blumenfeld, que tanto a apoiara no seu trabalho em Jerusalém [44], se encontrava indignado por aquilo que tinha ouvido sobre o escrito de Hannah Arendt; esta tenta, no entanto, esclarecê-lo numa curta viagem que realiza a Israel, em Maio de 1963, pouco tempo antes de Blumenfeld falecer[45]. O próprio procurador Gideon Hausner não se absteve de intervir na polémica: ao deslocar-se a Nova Iorque para discursar perante a Associação dos Sobreviventes de Bergen-Belsen, disse que o seu objectivo era “responder à bizarra defesa que Hannah Arendt fez de Eichmann”[46]. Tudo isto pode revelar, talvez, que o mal é, no fim de contas, tão banal como Hannah Arendt sustentava.”

continuar a ler

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s