Leituras: Madrugada Suja, MST

mst«Estas coisas eu sei porque conversei-as muitas vezes com a minha avó Filomena. Aliás, eu cresci com ela, vivi com ela a minha infância e adolescência, enquanto ela vivia, sob o meu olhar, o seu único e maravilhoso romance de amor com o meu avô Tomás. Como já não se vivem mais, como já ninguém sabe mais viver. Se hoje, a alguma mulher – ou homem, vá – fosse proposto um amor assim, feito de um amontoado de dias sempre iguais, de hábitos, rituais incompreensíveis, manias estabelecidas, feito de tantos e tantos silêncios, de olhares mudos, mãos que às vezes se tocam disfarçadamente sobre a mesa quando ninguém mais estava a ver, feito de tantos e tantos trabalhos esforçados, canseiras, cansaços, desilusões e embaraços, quem, que mulher, que homem, chamaria a isso amor? Quem de nós, hoje, quereria viver um romance assim, fechados numa aldeia fechada para o mundo, entre ovelhas, porcos, galinhas, Invernos gélidos e Verões de um calor impiedoso, toda uma vida sem tréguas nem disfarce, nem sequer um aparelho de televisão que trouxesse a essa vida uma dose miníma de ilusão e mentira? Quem de nós conseguiria amar sem ilusão, amar sem televisão?

Mas eles amaram-se. Assim mesmo, sem saída nem regresso. Sem nunca partir, para nunca terem de regressar. Eu sei que parece absurdo, que é inexplicável: mas foram felizes. Tão felizes que me dói ainda pensar que ela morreu e, com ela, morreu esse amor que ambos viveram como ninguém mais. Depois deles não conheci ninguém mais que se amasse assim, ninguém mais que tivesse conseguido tornar tão simples o que sabemos ser tão complicado. Ah se eu soubesse o segredo deles, o da minha avó Filomena e do meu avo Tomaz, também eu poderia ter sido feliz! Mas também sei que vivemos apenas para o que nos acontece, não o que sonhámos. Somos resultado das circunstâncias: onde estamos, quando estamos, com quem estamos. E, hoje, temos demasiadas circunstâncias para que tudo se torne simples ou evidente por si mesmo. Muitas vezes podemos escolher e a escolha é-nos quase sempre fatal.

Talvez eles não tenham podido escolher. Talvez as suas circunstâncias fossem aquelas e apenas aquelas e não houvesse mais escolha. Talvez. Mas, mesmo assim, é preciso saber reconhecê-las e vivê-las. É preciso saber reconhecer a possibilidade de ser feliz quando ela surge: esse foi o seu mérito e por isso foram tão felizes.» (p.61-62)

Madrugada Suja, Miguel Sousa Tavares

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