“Elogio da Ingenuidade ou as Desventuras da esperteza saloia” (Almada Negreiros)

Almada Negreiros

(…) A vós, poetas, única e exclusivamente me dirijo; e aos outros, que nos escutem ou que se vão embora.

Antes de mais nada é necessário dizê-lo bem alto para que bem o oiça cada qual isoladamente: Não é o bastante frequentar os poetas ou a poesia para se ficar poeta. Não. Nós bem sabemos onde hão-de ir buscar simulado prestígio aqueles que não o saibam encontrar nos seus lugares pessoais ou que não se satisfaçam com o que tenham encontrado. Não, a poesia não concorre com minguém nem com outra nehuma expressão da vida. Não concorre porque vive. Ou vive ou morre, não lhe cabe nunca a vez de concorrer.

Dentro da Poesia, cada poeta que se realiza é tão completo representante da poesia como aquele que ainda vai longe de se realizar. Isto é, dentro da Poesia, cabem todos os valores, realizados e a realizar, desde o momento que sejam valores. A Poesia nutre-se com os seus próprios valores, e não se adianta nem atrasa com amigos e inimigos da Poesia, nem com pseudo-concorrências entre valores, os quais se concorrem entre si é porque precisamente não representam valores, inconfundíveis e inteiros.

Não há criatura humana que neste mundonão tenha nas suas reservas pessoais as probabilidades de realizar em si o próprio poeta; simplesmente, estas probabilidades são geralmente afogadas pelo próprio, único culpado da morte do seu poeta morto pelo desgosto de o ver fazer coroas de louros que não são da sua propriedade legítima.
É tão fácil deixar morrer o poeta como substituí-lo por um filisteu. (…)

Pela vida fora, constantemente me foi dado observar que a ignorância é portadora de uma intenção que ultrapassa a da sabedoria. Ora esta veemência característica da ignorância, isto é, do estado imediatamente anterior às primícias do conhecimento, perde sensivelmente parte da sua potência à paroximação do conhecimento, e chega a desaparecer completamente depois do conhecimento, donde resulta que o conhecimento foi, afinal, tadio, ineficaz e estéril. Contudo é conhecimento.

Todo o saber é descontado no viver. Pelo conhecimento pode-se quando muito orientar-se a vida, mas nenhum conhecimento serve para viver.

Já outro tanto não acontece com as forças contidas na ignorância. Estas forças contidas na ignorância são verdadeiros luzeiros dos caminhos individuais. A ignorância de cada um é incomparavelmente mais respeitável do que todo o conhecimento que lhe possa ser fornecido. Porque o conhecimento é fornecido e a ignorância tem como limites o próprio mistério individual. Na passagem da ignorância para o conhecimento pode perder-se, afinal, o principal, o próprio.
Bem o ouvides, eu não faço a apologia da ignorância nem o desprestígio da sabedoria, tão-somente me refiro que nas idades da ignorância existe uma força vital que não parece trespassável para as da sabedoria. (…)

Até aqui nada mais tenho feito do que chamar a atenção dos poetas para o momento em que é possível a poesia. Provavelmente terão reparado exactamente em que suponho o estado de ignorância mais propício para a poesia do que o estado de conhecimento. Mas não é assim perfeitamente exacto. O conhecimento só impede o estado de poesia durante o período de recepção que cada um faz para esse conhecimento. Uma vez ciente de um conhecimento, isto é, uma vez esquecido todo o estragema intelectual indispensável á recepção ou entendimento de qualquer conhecimento, este pode ser remetido em sua essência para aquela força vital que em nós agia antes, no estado de ignorância. O importante é não perdermos nunca de vista o nosso próprio élan inicial. E não só não perdermos de vista como sustê-lo constantemente por meio do conhecimento; conhecimento não em período de recepção, mas já dispensado de todo o processo técnico e intelectual indispensável para a recepção. É como quem diz: de facto, um conhecimento só nos serve depois de ter passado há bastante tempo por nós.

É este precisamente o fenómeno que se dá com a Poesia e a Arte. O que se deseja dizer é Poesia; a maneira que se emprega para dizer é a Arte.

A Arte é um processo intelectual; é um conhecimento em estado de recepção; mas só na Poesia é que se encontra o élan de cada qual.

Se o único modo de expressão da Poesia é de facto a Arte, não quer isto dizer que a Arte alguma vez se sobreponha á Poesia. Quem fala são sempre as pessoas e nunca a voz que as pessoas têm. (…)

A posição do poeta é a de reaver-se consecutivamente. A sua ignorância é sua, a sua ingenuidade é sua, todas ascondições em que foi gerado são suas, e após toda a experiência e conhecimento, a posição do poeta é ainda a de reaver-se, reaver a sua ignorância, reaver a sua ingenuidade, reaver todas as condições em que foi gerado. Só assim, só por este autêntico egoísmo é que cada qual pode encontrar em si o poeta, isto é, aquele que perde para sempre todo o sentido imediato do imediato. Porque o poeta não tem nunca nada a dizer que seja imediato. Não é imediato porque é para sempre, para qualquer moemnto em que o ouçam, para todo o instante em que o escutem. (…)

Chegou finalmente a altura de irmos ao dicionário para ver o que quer dizer ingénuo. (…) A história da palavra ingénuo faz aparecer pela primeira vez esta palavra no direito romano para designar a condição de quem não tinha sido nunca escravo. Foi buscar-se no latim a palavra que formasse o sentido exacto desta condição e nasceu então a palavra ingenuus que quer dizer nascido livre.

Claro está que estávamos então nos tempos da escravidão. Terminada esta, a palavra ingénuo ainda se mantém no seu sentido original nos feudos da Idade Média, mas adaptado às novas condições sociais. Depois, terminada a escravidão e o feudalismo, a palavra ingénuo foi perdendo sucessivamente o seu significado original até ficar reduzido a sinónimo de natural, de simplicidade, de naíveté. Em todo o caso esta naturalidade, esta simplicidade, esta naíveté do ingénuo estão ainda hoje estreitamente relacionadas com um sentido social. Isto é, o ingénuo deixa ver livremente os seus sentimentos, a sua naturalidade, a sua simplicidade a sua naíveté porque ignora os preconceitos e o seu funcionamento. Ele está livre de preconceitos e por isso é ingénuo. Exactamente paralelo aos ingénuos primitivos que estavam livres por nascimento das duras leis da escravidão.

Antigamente quem nascia livre, livre morria, e quem nascia escravo podia ganhar ou merecer a sua liberdade. Hoje todos nascemos ingénuos e quase todos morremos envenenados. (…)
A esperteza saloia representa bem a lição que sofre aquele que não confiou afinal em si mesmo, que desconfiou de si próprio, que se permitiu servir-se de malícia, a qual, como toda a espécie de malícia, não perdoa exactamente ao próprio que a foi buscar. Em português a malícia diz-se exactamente por estas palavras: esperteza saloia.

Parecendo tão insignificante, a malícia contudo fere a individualidade humana no mais profundo da integridade do próprio que a usa, porque o distrai da dignidade e da atenção que ele se deve a si mesmo, distria-o do seu prórpio caso pessoal, da sua simpatia ou repulsa, da sua bondade ou da sua maldade, legítimas ambas no seu segredo emocional.

Porque na ingenuidade tudo é de ordem emocional. Tudo. O que não acontece com as outras espécies de conhecimento onde tudo é de ordem intelectual.

Na ordem intelectual é possível reatar um caminho que se rompeu. Na ordem emocional, uma vez roto o caminho, já nunca mais se encontrará sequer aquela ponta por onde se rompeu.
O conhecimento é exclusivamente de ordem emocional, embora lhe sirvam também todas as pontas da meada intelectual.

Ora o essencial no emocional é o expressar-se. É então quando vem a Arte para servir o seu único fim: o Homem. E se a Arte deixasse de perder de vista o seu único fim, era impossível a Poesia.

Temos pois que o intelectual está exclusivamente ao serviço do emocional. E é neste serviço feito pelo intelectual ao emocional que nasce a Graça, palavra latina por excelência e que tem tanto de poético mo de sagrada. Se não é nos ingénuos que a Graça se encontra é sem dúvida na ingenuidade que ela está.

A Graça é pura essência emocional sem nenhuma cicatriz intelectual.

A Graça é a chegada triunfal do conhecimento ao Homem determinado. É o prémio de esperar. É a transfiguração do indivíduo em pessoa.

A graça é a luz e o vértice da Poesia. A Graça é o ritmo dos poetas!

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Almada Negreiros

[ Palestra proferida na exposição dos Artistas Modernos Independentes, em Maio de 1936. Publicada no nº 6 da Revista de Portugal. ]

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