[ecos fárpicos] 9 – António Sérgio

“Em meu juizo, a ideia de que dissociar educação e filosofia so pode ocorrer aos individuos, ou pouco atentos, ou que consideram esta última sob um aspecto demasiado abstracto, nao na sua parte mais humana, onde a actividade filosófica — da mais viva origem e do mais largo interesse— implica as necessidades sociais e e uma teoria da educação.”
António Sérgio, Ensaios I
Creio que a principal censura que devemos fazer ao actual governo em matéria de ensino público é a seguinte. Pode ter-se como princípio fundamental da pedagogia moderna a ideia da máxima autonomia possível dos educandos, tanto na actividade estritamente discente, como nas relações do aluno com a sociedade escolar, ao passo que o que inspira fundamentalmente o Governo é o conceito diametralmente oposto, ou seja, o da heteronímia, ou o do autoritarismo, não só naquilo que aos escolares respeita mas até no que toca aos cidadãos adultos. Disse por sinal um sacerdote católico que a educaçãoé a arte de emancipar os homens, definição que me parece excelente: ao passo que o objectivo do actual Governo é o de manter os homens na tutela, educando a maioria para tutelados e seleccionando alguns para tutores dos demais. E por isso mesmo, como todos os Governos de orientação despótica, faz consistir sobretudo o progresso no número e importância das obras pública, em prejuízo do intuito de dignificar os homens, de elevar o espírito (o que pressupõe, claríssimo está, um mínimo de elevação do nível económico).
Quando pretende alardear que alguma coisa faz a favor do nosso pobre povo, alega a construção de edifícios para as escolas: o pedagogista, todavia, tem de considerar como questão basilar a da qualidade do ensino que aí se ministra, sendo que a traça do edifício da escola há-de ser estudada na dependência prévia da determinação dos métodos de um bom ensino. Na educação como nós desejamos, os laboratórios, os hortos escolares, as salas-bibliotecas das diferentes disciplinas, substituem as aulas de pedagogia antiga. De maneira que se justifica a afirmação liminar de que todos os edifícios que o Governo ergueu são impróprios para o ensino como nós queremos.

António Sérgio: Notas biográficas

Revista Lusófona de Educação, 2008,12, 13-28

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