Hannah Arendt – três meses e meio em Lisboa

rua sociedade farmaceutica 6

Hannah Arendt viveu em Lisboa, na Rua Sociedade Farmacêutica, n.º 6, entre janeiro e maio de 1941, de caminho para Nova Iorque, onde chegou (com Heinrich Blücher) a 22 de maio de 1941.

Tinha 27 anos, quando deixou a Alemanha, em 1933, depois de ter sido presa, em Berlim,  e interrogada durante 8 dias – com a mãe, atravessou, sem documentos, a pé, a fronteira da Checoslováquia. Passaram por Praga e chegaram a Genebra, onde ela trabalhou durante um tempo para a Liga das Nações e depois para a Agência Judaica. De lá, seguiu para Paris, onde colaborou com organizações sionistas no período do seu exílio francês, convivendo com Walter Benjamin, Bertold Brecht, Kurt Blumenfeld e Heinrich Blucher.  Acompanhou um grupo de  jovens judeus à Palestina, visitou Petra e Siracusa.

A situação em França complicou-se, dá-se a anexação da Áustria, e em 39 os judeus em solo francês são internados em campos separados (homens e mulheres). Passou cinco semanas no campo de Gurs, nos Pirinéus. Viveu o confronto da escolha colocada aos judeus e opositores políticos alemães: “serem presos pelos inimigos em campos de concentração ou pelos amigos em campos de internamento”.

Por esta altura, Walter Benjamin (que lhe tinha confiado o último manuscrito) suicidou-se na fronteira. Hannah e a mãe fugiram do campo e encontrou-se com o Heinrich em Montauban – ficaram uns tempos na cidade, até que a ordem de recensear todos os judeus nas prefeituras foi promulgada.  Ajudados por amigos, com destaque para Günther Ster, saíram de França e apanharam o comboio via Port Bou, Barcelona e Madrid, para Lisboa. Cidade que era, nessa altura, símbolo de esperança e liberdade.

Notemos que, depois da ocupação de Paris, em Junho de 1940, muitos  refugiados chegaram a Portugal, sendo a sua principal preocupação arranjar um visto de trânsito português. Imagine-se que alguém saía de França – precisava de um visto de trânsito espanhol e de outro português do qual dependia a concessão do anterior e que só era dado em função da prévia obtenção de um visto de entrada num país de destino e de uma passagem num navio. O Ministério dos Estrangeiros português enviou uma circular, a 15 de Junho de 1940, segundo a qual os vistos de trânsito por trinta dias só podiam ser concedidos aos refugiados com bilhetes de passagem, tempo planeado de estadia em Portugal e com o visto de entrada num país de destino. Muitos intelectuais, atores, cineastas, realizadores, ex-governantes e nobres de toda a Europa, passaram por Lisboa, em fuga, nesses anos.

hannah-arendt by Fred Stein_1944

Em Janeiro de 1941, munida de um visto de emergência, americano  (devido ao apoio do diplomata Hiram Bingham IV, que ilegalmente lho concedeu – a Arendt e a cerca de 2500 outros judeus – e à ajuda de Varian Fry, que custeou as passagens e os vistos),  Hannah chegou a Lisboa. Dos três meses da sua estadia na capital portuguesa conhece-se uma referência à leitura conjunta, com Heinrich Blücher e outros refugiados, do manuscrito «Uber den Begriff der Geschichte» que Walter Benjamin lhe entregara em Marseille.  Aguardaram até maio pela viagem para os Estados Unidos. A batalha pelo visto e pelos lugares navio foi cansativa, muitas vezes humilhante. Blucher já tinha as passagens mas teve de repetir testes no Consulado Americano para os vistos de entrada.

Hannah Arendt escreveu, no dia 17 de Fevereiro 1941, de Lisboa a Salomon Adler- Rudel, que estava em Londres : “[ …] Até quando vamos ficar aqui, eu não sei. Temos provisoriamente passagens e vou ter que lidar com a HICEM”. No início de abril, escreveu: ” [ …] Nós temos uma ténue esperança de sair ainda este mês. As nossas passagens foram  pagas – para nós, pelo Rescue Committtee, para minha mãe pelo Hicem -, mas pelos lugares encontra-se uma verdadeira batalha”. Realmente, viajariam separados. Chegaram aos EUA a 22 de maio de 1941, sem dinheiro, sem trabalho, sem documentos e sem falar a língua  – recorreram às organizações judaicas de ajuda para sobreviverem. Ocupou dois quartos a oeste da Ninety-fifth Street e algumas semanas mais tarde chegou Martha Arendt. Curioso que, dada a sua determinação de fazer ouvir a sua voz em público, aprendeu inglês rapidamente e tornou-se colunista do Aufbau, para ser depois colaboradora na Partisan Review, The New Yorker, e The New York Review of Books. Depois de quase 20 anos como apátrida (a cidadania alemã foi-lhe retirada),  Hannah recebeu a cidadania americana em dezembro de 1951.

A senhoria da casa em que Arendt esteve morreu logo após o final da guerra – por isso, mesmo quem procurou, não encontrou mais detalhes da sua estadia em Lisboa.

 

Passei vezes sem conta nesta rua, para entrar no Hospital de Santa Marta. Ao fundo, antes do portão, o Escondidinho medeia duas portas da antiga morada de Hannah Arendt. Incrível, pensei, quando li o facto. Quase quatro meses em Lisboa, a descer a avenida, a frequentar a pastelaria Suiça e a escrever (cartas e textos), de passagens compradas em abril, à espera do navio. Em 1941.

vale a pena ler:

We refugees, Hanah Arendt

Hannah Arendt, l’amour du monde

Arendt à Paris et en France : 1933 -1941

Wartesaal Lissabon 1941: Hannah Arendt und Heinrich Blücher

Assumir l’humanité. Hannah Arendt: la responsibilité face à la pluralité

Beware of Pity

A foto, de Fred Stein, é datada de 1944.

tempo de Zagmuk e a caminho do ano novo

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Esta semana tem uma particularidade: começa num ano e acaba noutro. Assim, tem o «tom» da meia semana de ano velho e meia semana do Novo Ano.

Em termos macro, do colectivo, 2013 foi um ano difícil, do que pode considerar-se dificuldades e retrocessos (em direitos, em liberdades, em qualidade de vida) ou, noutra perspetiva, de percebermos que o que nos afeta, afeta todos, por isso, um potencial criador de solidariedade e um estar mais fraterno. Em termos pessoais, 2013 andou veloz. Dizem que é assim o tempo que vivemos e ocupamos 🙂

De 2013 levo umas quantas marcas existenciais relevantes, acontecimentos interessantes, gentes com outros usos e línguas. Longas caminhadas, no hemisfério norte.  O prazer de passear e fotografar. De preparar aulas, ler e entreter-me para lá do razoável.   Ano de passadas leves, com um ou dois virar de mesa e alguns encolher de ombros. Levei mais a sério que não vale valorar o que não vale a pena – dentro do limite do (in)tolerável e da recusa necessária, quando importa ou como o povo diz, quando a mostarda sobe…

Vivi momentos de grande júbilo e de tristeza, ganhos e perdas especialmente das inevitáveis, que a Vida se encarrega de nos pôr no caminho.  Por isso, das finitudes e improbabilidades.

Estudos e debates enriquecedores, tarefas que abracei ou inventei e abracei, com horizontes de pluralidade e aprendizagens. Claramente melhor que o anterior, ainda que esse já tivesse sido melhor que o precedente (alguns compreenderão que desde janeiro de 2012 só tenha vindo a melhorar, em termos de qualidade de vida). Tempo de um conjunto de dias que se somam quase insensivelmente, a ver os meus filhos crescer, a aprender e rir junto e a reconhecer o redimensionamento que eles, quais mágicos, podem fazer das coisas que me ocupam e pre-ocupam.

Gosto de olhar o ano que caminha para se findar e decidir o que recuso levar na passagem mágica que muda dia, mês e ano. Não é tomar resoluções de Novo Ano – mantenho que se fossem relevantes, já deviam ter sido tomadas e se não são, esperam uns dias. Gosto desta acalmia de preparar-se para o Ano Novo e do potencial de sermos capazes de o fazer pródigo em paz e em alegria, saúde e amor.