As 12 esculturas alegóricas na fachada do Museu do Prado

A fachada  principal do Museo de El Prado neobarroca, tem 12 esculturas – apreciei-as, fotografei-as e fui tentar saber mais sobre elas. Os planos e a fachada aparecem em documentos datados de 1790. Foi um edificio de construção lenta, que serviu de quarte em 1808 na Invasão das tropas francesas. Depois da guerra, em 1814, o edifício estava muito deteriorado e várias figuras, entre as quais, Isabel de Bragança, defenderam a criação do Real Museo de Pinturas y Esculturas.

En 1829,foram contratados escultores para a decoração exterior do edifício, entre os quais  Pedro Hermoso, Ramón Barba e Valeriano Salvatierra (autores das esculturas da Puerta de Toledo). Salvatierra recebeu, em 1830, um contrato para fazer 16 estátuas alegóricas para decorar o primeiro corpo da fachada principal do Museu Real. No entanto, o projeto foi reduzido a 14 e, depois, a 12.

Em maio 1836 Salvatierra morreu, deixando o projeto inacabado. Foi substituído por Francisco Elías como o primeiro escultor e José de Tomás como restaurador de Museu de Esculturas.EM 1847, José Piquer y Duart não menciona nenhuma escultura inacabada, mas que seis se encontravam em diferentes graus de execução, e que, daí, se levantou a dúvida de ser Salvatierra o autor de todas. Quando Charles Clifford fotografou o Prado entre 1852 e 1863, todas as esculturas tinham sido colocadas nas aberturas, tal como estão hoje. Das doze, oito terão sido concluídas pelo próprio Valeriano Salvatierra que deixou, também, inacabada a estátua de Apolo.

As doze figuras alegóricas são da:

Fortaleza, parece empunhar uma arma, possivelmente uma espada, hoje perdida; a mão esquerda apoia-se numa clava. Aos pés, uma esfera coberta por uma leonté (que reforça a alusão a Hercules);  veste uma túnica larga sobre a couraça e um manto poreso no ombro esquerdo; na cabeça um capacete com crista. Toda a escultura faz lembrar a iconografia de Athena.

Paz, em alegoria à concórdia que os reis conseguiram para a sua construção e restauração. Coroada com a grinalda oliva, tem na mão direita um ramo de louro e na mão esquerda um rolo de dobrar, talvez referindo-se a um tratado de paz. Pisa com o pé direito uma tocha acesa, símbolo do fogo da guerra. Veste um manto bem como uma túnica curta, cingida com cinto. É uma das oito esculturas concluídas por Salvatierra.

Fertilidade tem o braço direito apoiado numa estipe com algumas ferramentas agrícolas; na mão e braço esquerdo segura uma cornucópia cheia de flores, frutas e espigas. Tem uma espécie de manto comprido,  sustentado por dois fechos nos ombros – não segue qualquer modelo antigo nem corresponde a qualquer costume grego de vestir. É uma das oito esculturas concluídas por Salvatierra.

Simetria, realizada para representar que se cumprem as máximas de Vitruvio, é a única que tem a cabeça esculpida independentemente do corpo (o que sugere ter sido começada por Salvatierra e depois talvez por Piquer e Perez Valle). Está reclinada sobre um pilar de apoio, com a perna direita cruzada sobre a esquerda, tem na mão direita um compasso fechado e na esquerda uma régua.  

Magnificência tem na mão direita un objeto cilíndrico, talvez um cetro, e na mão esquerda uma caixa de jóias de onde saem  medalhas e moedas. Veste uma túnica longa com franjas na parte inferior e um manto que vai do toucado aos pés. Como tocado usa uma tiara. Parece mais típica de uma figura bizantina e, nesse sentido, pode ser uma reminiscência da figura da Religião com que Antonio Canova adornou o monumento funerário de Clemente XIII (e de quem Salvatierra tinha sido discípulo).

Constancia segura o manto com a mão esquerda fechada e com a direita, um martelo sobre uma vazilha (semelhante aos vasos de pórfiro vermelho que estão no Prado)  num pedestal alto, de onde sai uma chama. Tem uma túnica larga e um manto, que também cobre a cabeça. A postura remete para a da Vitória.

Admiração, dirige o olhar para a direita e para baixo, onde está um capitel jónico num pedestal, visivel porque a mão direita levanta a peça de pano que o cobria. Na mão esquerda tem uma barra troncopiramidal de oito lados. A túnica larga e o manto são convencionais, respeitando os costumes de indumentária antiga. Na Real Orden de creación de las esculturas, o objeto da Admiración seria: que por convencimiento del tiempo pasado y presente está asegurada en el monumento, y nadie puede dudar que lo estará en el futuro, aun en sus propias ruinas.

Imortalidade está de frente, trás na mão direita o que parece uma ferramenta (irreconhecível) e na mão esquerda  um ramalhete de semprevivas.  A postura é partilhada pela Vitória. Note-se o pormenor do tronco de palmeira como suporte (atrás do lado direito), também utilizada na iconografia de Ísis e adeptos. Representaria a alegoria de eternidade do edifício.

Fama, com ligeiro contrapposto, estende o braço direito para baixo, com a mão dobrada, parecendo levar algo (que se perdeu no tempo) e o braço esquerdo repousa sobre um busto lateralizado (habitualmente, o de Hermes). O manto é muito pregueado à frente e quebra a tradição de segurar com um alfinete em cada ombro.

Arquitectura tem uma rotação acentuada da parte superior do corpo para a direita e da cabeça para a esquerda.  Veste uma túnica longa com dobras no tronco, e em cima tem um manto dobrado sobre o ombro esquerdo. Tem um compasso na mão direita enquanto a esquerda segura um pergaminho aberto.

Vitoria levanta o braço esquerdo onde a mão teria tido uma palma; a mão direita segura o manto e uma folha de palma. A túnica está presa apenas num ombro, com um alfinete. A obra parece-se com a Fortuna, com alguns elementos alegóricos da Vitória antiga, mas (como moutras estátuas) sem cumprir as normas mais elementares como a alça de ombro.

A Euritmia olha para baixo e para a frente; a perna esquerda está colocada num plano ligeiramente superior. Nas mãos tem duas pequenas tochas. De túnica longa aberta e uma capa que cai para trás, cobrindo o joelho esquerdo. O facto desta figura apresentar uma terminação muito abrupta sugere que foi, possivelmente, a última figura esculpida do todo (1836).

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