A não ler. Ou um «flop total»

Factos Escondidos da História de Portugal - José Gomes Ferreira - Compra  Livros ou ebook na Fnac.pt

Recomendo a leitura do artigo da Comcept, de 8 de junho.

Embustes e Pseudo-História – Breaking News!

José Gomes Ferreira publicou um livro que, segundo a entrevista ao Expresso, é uma provocação aos “historiadores oficiais”. Lançámos, por isso, o desafio ao historiador Paulo Jorge de Sousa Pinto, do CHAM – Centro de Humanidades, NOVA FCSH – para ler e comentar Os factos escondidos da História de Portugal. Esta é a primeira parte.

O artigo é relativamente extenso mas vale a pena (assim como ficar atento à saída da 2ª parte). Deixo os últimos dois parágrafos, anotando que o sublinhado é meu.

“O 4º capítulo (pp. 199-244) é dedicado à alegada descoberta “secreta” da Austrália pelos portugueses. O começo não podia ser mais auspicioso: Uma estrofe d’Os Lusíadas que JGF enche de [ ], como habitualmente, dizendo que se refere à Austrália: “olha a Sunda tão larga que uma banda / Esconde pera o sul dificultoso / A gente do sertão que a terras anda /Um rio diz que tem miraculoso (…)”. Como JGF acha que Sunda é um “conjunto de ilhas a sul da China”, não é difícil imaginar o cenário australiano que monta, com o modo inquisitório habitual: “como é que, em 1570, Camões sabia que para sul das ilhas de Sunda havia um extenso território com um sertão ou território agreste, inculto e semiárido (…)?” (p. 200). Percebesse JGF alguma coisa de geografia asiática – básica – do século XVI e saberia que Sunda não era nenhum “conjunto de ilhas a sul da China”, mas sim a designação da região ocidental de Java, com sertão inóspito, sim, e uma costa meridional tormentosa e de difícil acesso à navegação. 

Daqui passa para a “descoberta portuguesa da Austrália” que “tem tudo para ser escrita em letras de ouro na História do Mundo”, seguindo fielmente a obra do jornalista australiano Peter Trickett, Beyond Capricorn. Abstenho-me de comentar este assunto. Já está mais do que provado de que a tese “Cristóvão de Mendonça” é inverosímil e que o livro de Trickett está cheio de disparates, falácias e erros. Como fiz a recensão do mesmo há uns tempos, permito-me a remissão. JGF junta outras alegadas “provas”, novas e velhas, nomeadamente os chamados “mapas da Escola de Dieppe”, não faltando, sequer, a gravura de um alegado canguru num livro de orações do século XVI (p. 227). Só um pormenor; nas pp. 202-204, JGF transcreve parte de um texto laudatório das teses de Trickett, que apresenta assim: “escrevia o semanário Sol,de 10 de maio de 2013,num artigo da revista Vida”. O que JGF não diz (mas sabe-o) é que o autor da peça é o próprio Peter Trickett. Lapidar. Por fim, JGF não compreende porque é que os “historiadores oficiais” continuam a recusar-se a aceitar “tanta abundância de provas diretas e indiretas”. Já para os políticos, o cenário é diferente: o Ministério da Educação teria que “mudar todos os programas escolares e alterar todos os manuais de História” e emergiriam “problemas diplomáticos” para o Presidente da República, o ministro dos Negócios Estrangeiros, membros do governo e embaixadores se tivessem, subitamente, que “passar a defender oficialmente que não foram os ingleses nem sequer os holandeses que descobriram a Austrália na Era Moderna” (p. 243). Inesperadamente, no capítulo 5, chamado de “Se mais mundo houvera, o Lusitano lá chegara!”, dedicado à Antártida e outras paragens, JGF evoca um autor que, no essencial, contradiz tudo o que esta obra defende (nomeadamente na questão da “descoberta portuguesa da Austrália): Luís Filipe Thomaz. Evoca-o, mas não o cita. Deduzo que também não o tenha lido ou, se sim, que o considere mais um “historiador oficial” apostado em “negar as evidências”. 

Na referida entrevista, José Gomes Ferreira, licenciado em Comunicação Social, afirma que “Foram dois anos e meio de muito estudo, pesquisa e trabalho intenso, roubado ao escasso tempo livre”. Nem é preciso comentar!

As fontes identificadas por terceiros são de chorar e a análise pode ouvir-se no Spotify

Autor: LN

LN é sigla de Lucília Nunes. Este blog nasceu no Sapo em 2001. Esteve no Blogspot desde 01.01.2005. Importado para Wordpress a 21.10.2007. Ligado ao FaceBook desde 13.12.2010.

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