Citação do dia

Sócrates – […] [N]ão te parece que se torna necessário que o orador se encontre bem instruído e informado acerca do tema sobre que vai discorrer?

Fedro – A esse respeito, presta atenção ao que ouvi dizer: ouvi dizer que para quem deseja tornar-se um orador consumado, não se torna necessário um conhecimento perfeito do que é realmente justo, mas sim do que parece justo aos olhos da maioria, que é quem decide, em última instância. Tão-pouco precisa de saber realmente o que é bom ou belo, bastando-lhe saber o que parece sê-lo, pois a persuasão se consegue, não com a verdade, mas com o que aparenta ser verdade.

SócratesEis uma opinião difícil de rejeitar… impossível mesmo de rejeitar, Fedro, quando tal opinião é a das pessoas importantes; mas a nós compete analisar o seu significado, e muito particularmente o que acabas de dizer-me merece toda a atenção!

Fedro – Perfeitamente.

Sócrates – Vejamos então como examinar esse tema…

Fedro – Como o examinaremos?

Sócrates – Supõe por momentos que tento persuadir-te a comprar um cavalo para ires combater os teus inimigos mas que, tanto tu como eu, ignoramos o que seja um cavalo e que, entretanto, eu chegava à conclusão de que, no entender de Fedro, o cavalo é o animal doméstico com as orelhas mais compridas….

Fedro – Mas isso seria rídiculo, Sócrates!

Sócrates – Um momento, por enquanto! Ou que eu tentava seriamente persuadir-te a que escrevesses um panegírico do burro, chamando-o de cavalo e declarando que é muito prático adquirir essa besta, tanto para fins domésticos como para a guerra, que é tão útil na refrega das batalhas como no transporte de carga, como em qualquer outra coisa…

Fedro – Isso seria ainda mais ridículo!

Sócrates – Mas diz-me, não é verdade que o ridículo de um amigo é preferível à irredutível prepotência de um inimigo?

Fedro – Sem dúvida!

Sócrates – Por isso, quando um orador, ignorando a natureza do bem e do mal, se dirige aos seus concidadãos, que sofrem da mesma ignorância, para os tentar persuadir a tomarem a sombra de um burro por um cavalo, ou o mal pelo bem; quando, depois de ter ouvido as opiniões da maioria, a impele para o mau caminho, em casos como este, quais são, a teu ver, os frutos que a arte oratória pode colher daquilo que semeou?

Fedro – Um fruto que não pode ser nada bom.

(Platão, Fedro, trad. Pinharanda Gomes, Guimarães, 2000)

Citação do dia

“Com a cabeça encostada na janela do vagão, vejo essas casas passarem como num filme. Ninguém mais as vê como eu; nem os seus donos a vêm deste ângulo. Duas vezes por dia, tenho a oportunidade de espiar outras vidas por um breve momento. Observar desconhecidos na segurança dos seus lares, por algum motivo, traz-me uma sensação de tranquilidade.”

“As pessoas com quem partilhamos um passado não nos deixam seguir em frente, e por muito que tentemos não conseguimos desembaraçar-nos delas, não conseguimos libertarmo-nos. Talvez ao fim de algum tempo acabemos por desistir.”

Paula Hawkins

 

Excertos de “Nunca lutes com um porco”

Artigo de Fernanda Câncio:

“Nunca lutes com um porco; ficas todo sujo, e ainda por cima o porco gosta. Esta frase, do dramaturgo irlandês Bernard Shaw, encerra em si mais do que o sarcasmo em que ele era exímio: é uma lição de sabedoria política. Mas tem limitações, como todas. Às vezes somos mesmo forçados a lutar com porcos, quando algo muito importante depende disso, quando tem mesmo de ser. A questão é a de saber se chegou a altura de o fazer. Porque o risco é sempre enorme, e não tem nada que ver com coragem, ou falta dela: é que o porco leva-nos uma incomensurável vantagem na porcaria, e é muito difícil terçar, com seriedade, argumentos com alguém apostado em sacar de todos os truques baixos do cardápio, de todas as cartadas do populismo, da demagogia e das falsidades mais abjetas, usar todos os maus sentimentos e toda a ignorância e ingenuidade dos que assistem à refrega no sentido de fazer valer a sua posição.

(…)

O que lembra outra frase famosa atribuída a outro famoso ironista, Mark Twain: “Uma mentira pode dar meia volta ao mundo antes de a verdade ter tempo de calçar os sapatos.” Porque a verdade – aqui também no sentido de decência e de complexidade do mundo – é chata e comprida, empalidece e gagueja ante o descaramento da falsidade e da demagogia. Porque a verdade necessita de tempo para desmontar as mentiras, para se demonstrar. Porque ser sério e fundamentado dá muito mais trabalho do que mandar bocas e dizer coisas que vão ao encontro dos estereótipos, dos preconceitos, dos ódios. E agora, ainda por cima, temos o estribilho da “censura do politicamente correto” de cada vez que nos indignamos contra afirmações e posições que põem em causa valores basilares da civilização europeia que julgávamos (et pour cause) inquestionáveis para sempre, como a igualdade e o princípio da não discriminação.

O problema é portanto o de saber quando entrar na liça, se alguma vez.”

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As cidades invisíveis

As cidades e o desejo.

Da cidade de Doroteia pode-se falar de duas maneiras: dizer que se elevam das suas muralhas quatro torres de alumínio ladeando sete portas de ponte levadiça sobe o fosso cuja água alimenta quatro verdes canais que atravessam a cidade e a dividem em nove bairros, cada um deles com trezentas casas e setecentas chaminés; e tendo em conta que as raparigas solteiras de cada bairro se casam com jovens de outros bairros e que as suas famílias trocam os bens que cada uma tem: bergamotas, ovos de esturjão, astrolábios e ametistas, fazer cálculos com base nestes dados até saber tudo o que se deseja da cidade no passado no presente e no futuro; ou dizer como o condutor de camelos que me leva até lá: “Cheguei ali muito jovem, uma manhã, muita gente a acorrer pelas ruas a caminho do mercado, as mulheres tinham belos dentes e olhavam-nos bem nos olhos, três soldados em cima de um palco tocavam cornetim, por toda a parte giravam rodas e ondulavam letreiros coloridos. Até então eu só tinha conhecido o deserto e as pistas das caravanas. Nessa manhã em Doroteia senti que não havia nenhum bem na vida a que eu não pudesse aspirar. Com o passar dos anos os meus olhos voltaram a contemplar as imensidões do deserto e as pistas das caravanas; mas agora sei que este é só um dos muitos caminhos que se abriam à minha frente nessa manhã em Doroteia.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis. Lisboa, Teorema, 2000, p. 13

Citação do dia

A humanidade nasceu nómada. A agricultura sedentarizou-a, é certo, mas a transumância fica-lhe nos genes. (…)

Ler e viajar (em certo sentido sinónimos) são as melhores formas que temos de sair da nossa zona de conforto, confrontando-nos com o desconhecido. Por vezes, até com aquilo que desconhecemos a respeito de nós próprios.

C. Vaz Marques (Prefácio Revista Estante, nº 14, verão 2017)

Imagem: John Singer Sargent, Open Doorway, Moroco

Citação d’outros blogues – “Mandamentos da blogoesfera”

Encontrei no Abrigo de Pastora e, mesmo tendo alguns anos, mantêm-se muito actuais…

Mandamento número – 29 da blogosfera

 Jamais expor a intimidade. Freud situou a apropriação da noção de pudor na mais tenra infância, mas parece que há adultos que não entendem que, quer a sua vida íntima seja “feliz” ou “infeliz”, a sua exposição não poderá deixar de ser sórdida para quem dela toma conhecimento.
 (Foto: Olho de Boi, Cacilhas)