Michael Polanyi : conhecimento tácito

Em Personal Knowledge, Towards a Post-Critical Epistemology[1] apresentou uma teoria sobre o conhecimento, defendendo que (a) a verdadeira descoberta não pode ser explicada por um conjunto de regras ou algoritmos; (b) o conhecimento é também pessoal, no sentido em que é construído pelos indivíduos e engloba as suas emoções e paixões (daí Personal Knowledge, enfatizando que mesmo na ciência, o intelecto se encontra ligado ao contributo do conhecimento pessoal, sendo as emoções um dos seus componentes essenciais); e (c) o conhecimento subjacente ao conhecimento explícito é mais primário e fundamental, dado que todo o conhecimento é tácito ou nele fundado.

Escreveu depois The Tacit Dimension e foi um dos primeiros a discutir e desenvolver o conceito de conhecimento tácito, identificando-o como o princípio dominante de todo o conhecimento. Na origem latina, tacitus de silencioso, expressa, por definição, uma compreensão implícita – algo que não é preciso ser dito para ser reconhecido. Nas suas palavras,,

I shall reconsider human knowledge by starting from the fact that we can know more than we can tell. This fact seems obvious enough; but it is not easy to say exactly what it means.[2](1966/1997, p. 136).

Para Polanyi, o conhecimento tácito comporta duas dimensões distintas:

(a) a técnica, inclui as competências pessoais vulgarmente designadas por know-how, relaciona-se com um tipo de conhecimento profundamente enraizado na acção e no empenhamento num contexto específico – uma arte ou profissão, uma determinada tecnologia ou um determinado mercado, ou mesmo as actividades de um grupo ou equipa de trabalho; e a

(b) cognitiva que inclui elementos como modelos mentais, emoções, valores, crenças. Estes elementos – que podemos designar por estruturas cognitivas –encontram-se incorporados em nós, de tal modo que os encaramos como dados adquiridos, definindo a forma como agimos e nos comportamos e constituindo o filtro através do qual percepcionamos a realidade. Difícil de articular por palavras, a dimensão cognitiva do conhecimento tácito molda a forma como percepcionamos o mundo.

Como será fácil de calcular, o trabalho de Polanyi (nos finais de 50 e nos anos 60) é dissonante em relação face à concepção de ciência, que visa a obtenção de conhecimento impessoal e universal e a objectividade e rigor absolutos. Defendeu que o trabalho do cientista é altamente influenciado pelos valores e emoções, facto a que se refere como coeficiente pessoal.

Desta forma, se a dimensão tácita é parte indispensável de todo e qualquer conhecimento, a ideia de eliminar os aspectos pessoais do conhecimento equivale à destruição do conhecimento em si mesmo, pois ao dizer respeito à descoberta, o conhecimento tácito constitui a base para o conhecimento explícito, e nele reside o potencial para encontrar a referida alternativa estável à objectividade absoluta. Quando procuramos explicitar o conhecimento, ou seja, converter o conhecimento tácito em explícito, fazemo-lo através da linguagem e ele passa a poder ser discutido, refletido.

“tacit coefficient of knowing”

“The tracing of personal knowledge to its roots in the subsidiary awareness of our body as merged in our focal awareness of external objects, reveals not only the logical structure of personal knowledge but also its dynamic sources.” (Personal Knowledge, p. 63)

“We must now recognize belief once more as the source of all knowledge. Tacit assent and intellectual passions, the sharing of an idiom and of a cultural heritage, affiliation to a like-minded community: such are the impulses which shape our vision of the nature of things on which we rely for our mastery of things. No intelligence, however critical or original, can operate outside such a fiduciary framework.”(p.280-281)

“in all our thoughts—whether tacit or articulate—we rely jointly on two faculties, namely (1) on the power of our conceptual framework, based on reality, to assimilate new experiences and (2) on our capacity to adapt this framework in the very act of applying it, so that it may increase its hold on reality.” (p. 334)

“complete objectivity as usually attributed to the exact sciences is a delusion and is in fact a false ideal.” (p.28)

……………………………….

[1] Polanyi, M. (1958). Personal Knowledge: Towards a post-critical philosophy. London: Routdedge & Kegan Paul.

[2] Polanyi, M. (1966). The tacit dimension. London: Routdedge & Kegan Paul.(1966/1997, p. 136).

Anúncios

efeméride: nascimento de Karl Popper

karl-popperpopper

Não importa quantos cisnes brancos vejas ao longo da vida, isso nunca te dará a certeza de que os cisnes negros não existam.”

Karl Raimund Popper nasceu em Viena, a 28 de Julho de 1902 (e morreu em Londres, 17 de Setembro de 1994). Doutorou-se em Filosofia na Universidade de Viena (em 1929) e com a ascensão do nazismo, emigrou para a Nova Zelândia em 1937, tendo sido Professor de Filosofia na Canterbury University College. No fim da segunda guerra mundial, tornou-se assistente na London School of The Economics em método científico e professor em 1949.

Sir Karl Popper, em 1965, reformou-se da vida académica em 1969, mas permaneceu sempre ativo até à morte, aos 92 anos.

Filósofo da ciência, social e político, defensor da democracia liberal e um oponente do totalitarismo. É, talvez, mais conhecido pela sua defesa do falsificacionismo como um critério da demarcação entre a ciência e a não-ciência, e pela sua defesa da sociedade aberta.

Karl Popper Stanford Encyclopedia of Philosophy

Karl Popper – os anos de formação

Contra a verdade, em favor da razão

Notas sobre as relações entre o positivismo lógico e a filosofia da ciência da Karl Popper

Sobre a (não) fundamentação do saber

De Filosofia da Ciência: Revista Kairos

O número 1 da Kairos saíu em Novembro/Dezembro de 2010.

Kairos: coincidência da acção humana e do tempo que faz com que o tempo seja propício e a acção boa…

Aristóteles identifica-o como o ponto médio entre dois extremos do tempo humano: o demasiado cedo e o demasiado tarde. O equilíbrio instável, e ponto de tensão, entre os dois é o Kairos.

Aguardo o nº2, prometido para Abril de 2011….

De epistemologia: Thomas Kuhn

Foi considerado pelo New York Times como um dos 100 livros mais influentes do século: A Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn. A primeira publicação data de 1962 e constitui um marco incontornável na história e filosofia da ciência.

Costumo afirmar que deve ser possível, para cada autor, reter um conjunto de ideas-chave que o caracteriza.

Quanto a Kuhn, nem há como hesitar: a ideia de paradigma, de ciência normal (e extraordinária) e revolução científica. O paradigma representa um conjunto de teorias, regras e métodos (ou dispositivos metodológicos)  comummente aceites pela comunidade científica. Cada paradigma tem subjacente uma dada visão do mundo, correspondendo a mudança de paradigma a uma alteração radical dessa visão. A ciência normal traduz a vigência de um paradigma. A ciência decorre da procura de reoslução de enigmas, que têm duas características: ser passíveis de ser resolvidos e utilizando as regras e o dispositivo instrumental do paradigma. Quando tal não acontece,  podem surgir anomalias, que se revelam quando os esquemas explicativos dominantes já não se adequam à realidade. Surge, então, uma nova fase que se materializa numa revolução científica. Um dos traços do paradigma é a sua incomensurabilidade, ou seja, a não co-exist~encia de dois paradigmas: mesmo que o paradigma esteja em crise, mantem-se até que outro se torne dominante, não podendo existir um período sem paradigma vigente, senão não existiria ciência. Finalmente, para uma leitura mais tardia, Kuhn trocaria a expressão paradigma por matriz disciplinar… mas isso, é outra história.

Se tiver pouco tempo, passe pelo artigo de Manuel Maria Carrilho,  que proporciona uma espécie de entrada ou de síntese dos aspectos centrais da teoria e das argumentações relativas – “Kuhn e as revoluções científicas“.

EE’s – Epistemologia e Enfermagem: convicções

cyrus_cilinder.jpg

em Fundamental Patterns of Knowing, Carper identificou quatro componentes fundamentais do conhecimento em Enfermagem – no decurso do texto, identifica-os: científico, ético, estético e de conhecimento pessoal, que se tornaram muito lidos e comentados.

os estudos de Jacobs Kramer e Chin, na operacionalização de um modelo, clarificaram a expressão de um contexto social e político, pelo que, mais de uma década depois de Carper, na revisão e update, introduz-se uma quinta dimensão aos padrões de conhecimento.

Hoje, na configuração da disciplinariedade de o paradigma epistemológico, sou pelo ecletismo e pluralismo metodológico.

É minha convicção que o princípio que hoje se apresenta para uma análise epistemológica é o da heterogeneidade, ou seja, a pluralidade metológica que nega algum monismo ainda vigente. Não existe um único método que não deva ser seguido nem um método rigoroso de comparação entre os diferentes programas de investigação (alguém atento perceberá alguma adesão a Imre Lakatos, pelo uso da expressão «programas de investigação»).

A Enfermagem não pode fundar-se senão sobre uma determinação crítica do seu objecto, irredutível a uma simples fenomenologia do existente. Esta é uma questão polémica que liga o projecto epistémico da enfermagem ao programa de uma filosofia crítica da enfermagem – definimos a finalidade da acção, estabelecemos standards de cuidados, entendemos intuitivamente o sentido de ser «disciplina científica» mas é preciso ir mais além, e um dos desafios passa por aqui: pela ligação necessária de um projecto epistémico a uma filosofia crítica de ciência.

Nem sempre acontece, mas está de leitura livre na Questia:
E P I S T E M O L O G Y OR THE THEORY OF KNOWLEDGE

imagem: Cyrus Cilinder