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Nascido do dia: Alfred North Whitehead

Alfred North Whitehead nasceu a 15 de fevereiro de 1861, em Ramsgate, e morreu em Cambridge, a 30 de dezembro de 1947. Filósofo, lógico e matemático britânico, fundador da escola filosófica conhecida como a filosofia do processo, atualmente aplicada em vários campos da ciência, como na ecologia, teologia, pedagogia, física, biologia, economia e psicologia.

No início da carreira dedicou-se à matemática, à lógica e à física. O primeiro grande trabalho foi O Tratado sobre a Álgebra Universal (1898), onde se propôs a unificar a álgebra, ainda que o seu trabalho mais notável sobre o assunto seja o Principia mathematica (1910–1913), escrito com a colaboração do antigo aluno Bertrand Russell.

Entre fins da década de 1910 e o início dos anos 1920, enveredou pela filosofia da ciência, dedicando-se à filosofia da natureza – Os Princípios do Conhecimento Natural (1919) e O Conceito da Natureza (1920). Em Os Princípios da Relatividade (1922) fez uma abordagem crítica à teoria da relatividade de Albert Einstein.

A sua Magnum Opus, Processo e Realidade (1929) é considerada a fundadora da filosofia do processo. Whitehead não procura explicar a teoria do conhecimento mas antes a experiência em si, distinguindo-se da metafísica de Immanuel Kant.

A filosofia do processo de Whitehead pressupõe que “é urgente ver o mundo como uma rede de processos interdependentes da qual fazemos parte, e todas as nossas escolhas e nossas ações têm consequências onde vivemos“. Por essa razão muito influenciou os estudos da ecologia, sobretudo na ética ambiental de John B. Cobb.

Alfred North Whitehead (Stanford Encyclopedia)

Alfred North Whitehead

Thus nature is a structure of evolving processes. The reality is the process. It is nonsense to ask if the colour red is real. The colour red is ingredient in the process of realisation. The realities of nature are the prehensions in nature, that is to say, the events in nature…

An event has contemporaries. This means that an event mirrors within itself the modes of its contemporaries as a display of immediate achievement. An event has a past. This means that an event mirrors within itself the modes of its predecessors, as memories which are fused into its own content. An event has a future. This means that an event mirrors within itself such aspects as the future throws back onto the present, or, in other words, as the present has determined concerning the future. Thus an event has anticipation…

These conclusions are essential for any form of realism. For there is in the world for our cognizance, memory of the past, immediacy of realisation, and indication of things to come.

I propose in the first place to consider how the concrete educated thought of men has viewed this opposition of mechanism and organism. It is in literature that the concrete outlook of humanity receives its expression. Accordingly it is to literature that we must look, particularly in its more concrete forms, namely in poetry and in drama, if we hope to discover the inward thoughts of a generation…A scientific realism, based on mechanism, is conjoined with an unwavering belief in the world of men and of the higher animals as being composed of self-determining organisms. This radical inconsistency at the basis of modern thought accounts for much that is half-hearted and wavering in our civilisation…

Of course, we find in the eighteenth century Paley’s famous argument, that mechanism presupposes a God who is the author of nature. But even before Paley put the argument into its final form, Hume had written the retort, that the God whom you will find will be the sort of God who makes that mechanism. In other words, that mechanism can, at most, presuppose a mechanic, and not merely a mechanic but its mechanic. The only way of mitigating mechanism is by the discovery that it is not mechanism.

When we leave apologetic theology, and come to ordinary literature, we find, as we might expect, that the scientific outlook is in general simply ignored.

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Nascido do dia: Hans-Georg Gadamer

 

Hans-Georg Gadamer nasceu a 11 de fevereiro de 1900, em Marburgo e morreu em Heidelberg, a 13 de março de 2002. Não tenho ideia se se lembram dos obituários, como do The Guardian, do Telegraph ou Independent.

The life of Hans-Georg Gadamer is synonymous with a century of German philosophy, from Neo- Kantian origins to his apprenticeship with his brilliant but flawed mentor Martin Heidegger and to the formulation of an influential new approach to a philosophy of understanding (hermeneutics), from moderate German nationalism to socialism and a critical stance towards globalisation.

His life is also distinguished not only by his own magnum opus, Wahrheit und Methode (Truth and Method, 1960), but also by his facility in practising the personal and philosophical dialogue he had preached in his relations with his many pupils, many of whom, Jürgen Habermas among them, came to great prominence themselves.(aqui)

Gadamer é considerado um dos maiores expoentes da hermenêutica e a sua obra de maior impacto parece ser Verdade e Método (Wahrheit und Methode), de 1960, onde elabora uma filosofia propriamente hermenêutica, que trata da natureza do fenómeno da compreensão.

Not until the age of 60 did his magnum opus appear: Truth and Method, a vindication of hermeneutics, or the study of interpretation, a classic of 20th-century philosophy. Gadamer traced his intellectual lineage back to Plato and Aristotle, but even as a centenarian he was alive to the challenges of modernity.

At the heart of Truth and Method lies Gadamer’s defence of the concept of prejudice. Only the Enlightenment, he argues, with its “prejudice against prejudice” gave the concept its present negative connotation. Romanticism, especially in Germany, reversed the Anglo-French Enlightenment’s priority of reason over myth, but perpetuated the same dualism.

For Gadamer, by contrast, “the prejudices of the individual, far more than his judgments, constitute the historical reality of his being”. It is impossible to understand the world we live in, let alone our place in it, without authority and tradition. “History,” he declared, “does not belong to us; we belong to it.”

Gadamer’s philosophy passes seamlessly into classical philology and the history of ideas. “Our historical consciousness is always filled with a variety of voices in which the echo of the past is heard,” he wrote. “Only in the multifariousness of such voices does it exist.” (aqui)

Um dos mais importantes pensadores do século XX, teria sido sempre reticente a falar de si próprio. Gadamer cresceu em Breslávia, onde o pai foi professor de farmácia na Universidade, assumindo posteriormente a cadeira de Química Farmacêutica. A mãe morreu de diabetes quando ele tinha quatro anos e não teve irmãos ou irmãs sobreviventes. Começou os estudos universitários em Breslau em 1918 (com Richard Hoenigswald), mudando-se para Marburgo com o pai em 1919. Completou estudos de doutoramento em Marburgo em 1922, com uma dissertação sobre Platão. Nesse mesmo ano, contraiu poliomielite, da qual recuperou lentamente, sendo os efeitos posteriores da doença permanentes para o resto da vida.

Os primeiros professores de Gadamer em Marburgo foram Paul Natorp e Nicolai Hartmann. No entanto, foi Martin Heidegger (em Marburgo de 1923-1928) que exerceu o efeito mais importante e duradouro no desenvolvimento filosófico de Gadamer. Foi assistente não remunerado de Heidegger em 1925 mas Heidegger teria sido muito crítico quanto às capacidades e contribuições filosóficas de Gadamer. Assim, decidiu abandonar a filosofia e mudar-se para a filologia clássica. Apresentou-se ao Exame de Estado nesta área, em 1928,  com  ‘Ética Dialética de Platão’.

Gadamer ocupou um cargo de professor temporário em Kiel, entre 1934 e 1939, tornando-se Diretor do Instituto Filosófico da Universidade de Leipzig, Decano da Faculdade em 1945, e Reitor em 1946, antes de se dedicar ao ensino e pesquisa em Frankfurt  em 1947. Em 1949, sucedeu Karl Jaspers em Heidelberg, tornando-se Professor Emérito em 1968.

Over the next half century Gadamer became as much of an institution in Heidelberg as Kant had once been in Konigsberg: a familiar figure on the cobbled streets, walking and talking, always in his corduroy jacket, always convivial, fixing his interlocutor with a penetrating gaze. Having survived the Nazis and the Communists, Gadamer found no difficulty surviving the 1960s, during which he engaged the thinkers of the Frankfurt school, especially Jurgen Habermas.

The revival of Heidegger’s popularity in the 1950s owed much to Gadamer; it inevitably led to the rediscovery of his Nazi past in the late 1980s. Heidegger’s death in 1976 left Gadamer pre-eminent. (aqui)

Já aposentado, viajou extensivamente, foi visitante em várias instituições e desenvolveu uma associação especialmente próxima com o Boston College em Massachusetts. Permanecendo intelectualmente ativo até ao final de sua vida (ocupava o horário regular de trabalho aos noventa anos), Gadamer morreu aos 102 anos de idade, um dos pensadores mais longevos da historia da filosofia ocidental.

Gadamer books

Gadamer’s Century: Essays in Honor of Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer’s philosophical hermeneutics: Concepts of reading, understanding and interpretation, Paul Regan

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Nascido do dia: Emmanuel Lévinas

Emmanuel Levinas nasceu em Kaunas, na Lituânia, a 30 de dezembro de 1905 / 12 janeiro de 1906 (conforme os calendários juliano ou gregoriano) e morreu, em Paris, a 25 de dezembro de 1995. Nascido no seio de uma família judaica, o pai era livreiro, e Lévinas cedo teve contato com os clássicos da literatura russa, como Dostoiévski, que é muito citado nas suas obras.  Aos doze anos, na Ucrânia, assistiu à revolução de Outubro (1917). Mais tarde, estabeleceu-se em França e em 1923 estudou Filosofia na Universidade de Estrasburgo e contactou com Charles Blondel, Maurice Halbwachs, Maurice Pradines e Henri Carteron.  Em 1928 foi para Freiburg e prosseguiu estudos com Husserl, encontrando Heidegger. Em 1929, apresenta sua tese de doutoramento sobre La Théorie de l’Intuition dans la Phénoménologie de Husserl (1930).  Bastante influenciado pela fenomenologia de Husserl, assim como pelas obras de Martin Heidegger, Franz Rosenzweig e Monsieur Chouchani, o pensamento de Lévinas parte da ideia de que a Ética, e não a Ontologia, é a Filosofia primeira. É no face-a-face humano que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável e lhe vem à ideia o Infinito.

Regressou a Paris até que, tendo eclodido a II Guerra Mundial (1939), foi capturado e feito prisioneiro pelos alemães. Exilado cinco anos, escreve grande parte de sua obra De l’Existence à l’Existant (1947), publicada dois anos após o fim da guerra. Durante dezoito anos (1946-1964), dedicou-se à direção da Escola Normal Israelita Oriental de Paris. Nesse período, publicou a grande obra Totalité et Infini (1961). Difficile Liberté (1963) apareceu dois anos depois, com foco em questões sobre o judaísmo. Lecionou depois na universidade de Poitiers (1964-1967), na de Paris-Nanterre (1967-1973) e na de Paris-Sorbone (1973-1984). Faleceu em Paris em dezembro de 1995.

Podemos mostrar-nos escandalizados por esta concepção utópica e, para um eu, inumana. Mas a humanidade do humano — a verdadeira vida — está ausente. A humanidade no ser histórico e objetivo, a própria aberta do subjetivo, do psiquismo humano, na sua original vigilância ou acalmia, é o ser que se desfaz da sua condição de ser: o des-inter-esse. É o que quer dizer o título do livro: ‘de outro modo que ser’. A condição ontológica desfaz-se, ou é desfeita, na condição ou incondição humana. Ser humano significa: viver como se não se fosse um ser entre os seres. Como se, pela espiritualidade humana, se invertessem as categorias do ser, num ‘de outro modo que ser’. Não apenas num ‘ser de modo diferente’; ser diferente é ainda ser. O ‘de outro modo que ser’, na verdade, não tem verbo que designe o acontecimento da sua in-quietude, do seu des-inter-esse, da impugnação deste ser — ou do esse — do ente. (…) De fato, trata-se de afirmar a própria identidade do eu humano a partir da responsabilidade, isto é, a partir da posição ou da de-posição do eu soberano na consciência de si, deposição que é precisamente a sua responsabilidade por outrem. (…) Tal é a minha identidade inalienável de sujeito .” LEVINAS, E. Ética e Infinito: diálogos com Philippe Nemo. Trad. João Gama. Lisboa: Edições 70, 1988, p.92-93

Cf.

Emmanuel Levinas e a Obsessão do Outro

Lévinas e a sensibilidade como comunicação originária

Lévinas e Derrida

O problema do humano em Emmanuel Lévinas

Thinking about Death II: Lévinas

Emmanuel Levinas© Photographed by Bracha Ettinger

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em época de reflexão, um saltinho ao retiro de Wittgenstein

Ludwig Wittgenstein in SkjoldenThe sociocultural ecology of a way of doing philosophy

«I can’t imagine that I could have worked anywhere as I do here. It’s the quiet and, perhaps, the wonderful scenery; I mean its quiet seriousness.» (LW, 1936)

The immediate context of these famous sentences:  The philosopher Ludwig Wittgenstein are writing these words in a letter while staying in his mountain cabin in Skjolden the autumn of the year 1936. The enigmatic 47-year-old philosopher, grown up in wealthy family surroundings in the cultural center of Austria’s Vienna, has once more withdrawn geographically to a tiny western norwegian village among steep mountains in the bottom of an almost endless fjord. Janik and Toulmin, in their pioneering work about ‘Wittgenstein’s Vienna’ (1973), are sketching a basic formula for most approaches to this philosopher ;

» Wittgenstein was also a remarkable man who grew up in a remarkable milieu.»

«When I was in Norway during the year 1913–1914 I had some thoughts of my own, or so at least it seems to me now. I mean I have the impression that at the time I brought to life new movements in thinking (but perhaps I am mistaken). Whereas now I seem just to apply old ones.» (Wittgenstein, 1980, Culture and Value).

Ou, nouto texto, de Alberto Ruiz de Samaniego

Pero, en la cabaña – ese otro castillo encantado- , hablamos de alguien al fin redimido, apartado, en la visión, por la visión misma. Alguien milagrosamente librado antes que nada de sí. En la medida en que, como ya sugirió Merleau-Ponty, “la visión no es cierto modo del pensamiento o presencia a sí mismo: es el medio que me es dado para estar ausente de mí mismo” (El ojo y el espíritu). Y hablamos de milagro porque ese individuo des-personalizado, alguien que ha perdido felizmente el rostro, habrá de ser entonces capaz de atender y hasta fundirse con el proceso mismo de salvaje inmanencia en que la vida se hace y deshace continuamente, en su fondo y lejanía primordiales. En lo que es simple y plenamente, como en una universal y fiable visibilidad.

Y entonces, cuando las palabras ya no explican nada, o allí donde no pueden decir nada, los ojos adquieren una penetración singularísima. Quizás no se haya pensado suficientemente la importancia de la visualidad en las meditaciones de Wittgenstein. Por ejemplo, el 11 de junio de 1916, todavía en el frente de guerra, se plantea la siguiente cuestión: “¿Qué sé de Dios y del propósito de la vida?”, y él mismo se responde con una serie de tanteos, de los que seleccionamos algunos muy significativos: “Sé que este mundo existe. Que estoy emplazado en él al igual que mi ojo en su campo visual. Algo acerca de su problemática, que llamo su sentido. Que su sentido no reside en él sino fuera de él. (…) Sólo puedo volverme independiente del mundo – y en cierto sentido dominarlo- renunciando a cualquier influencia en los acontecimientos.” Toda esta preocupación por la visualidad se trasladará al Tractatus. De hecho, he ahí lo que Wittgenstein considera la visión mística del mundo: su visión como totalidad delimitada (Tractatus, 6.45)

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Nascido do dia: Friedrich W. Nietzsche

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 e morreu a 25 de agosto de 1900. Filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor, criticou a religião, a moral, a cultura contemporânea. As suas ideias de superação individual e transcendência são, até hoje, francamente desafiadoras. Nietzsche pretendeu ser o grande “desmascarador” de todos os preconceitos e ilusões do género humano, aquele que ousa olhar, sem temor, o que se esconde por trás de valores universalmente aceites. E, assim, a moral tradicional, a religião e a política não são, para ele, nada mais que máscaras que escondem uma realidade inquietante e ameaçadora, cuja visão é difícil de suportar.

Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade… Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo… O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo…” F. W. Nietzsche, O Anti-Cristo. p. 1-2

Eu sou dinamite, de Sue Prideau

A longa história do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II

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Nascida do dia: Hannah Arendt

 

“Parece pouco dizer de Hannah Arendt que foi uma das mulheres mais carismáticas do século XX , num tempo em que personalidades como Virginia Woolf, Gertrude Stein, Simone Weil, Simone Beauvoir e tantas outras fizeram da emancipação feminina e da afirmação da liberdade do pensamento o seu estandarte fundamental.

Hannah Arendt nasceu em Linden, nos arredores de Hanôver,  a 14 de outubro de 1906, numa família de imigrantes judeus provenientes da Rússia, filha única de Paul e Martha Arendt. Ficou orfã de pai aos seis anos. Em 1910 mudou-se para Könisberg, vivendo com a mãe, o padrasto e duas filhas deste, de um casamento anterior. Por problemas disciplinares, foi expulsa da escola (por ter liderado um boicote contra um professor que a teria insultado) – foi então para Berlim, com 17 anos, tendo frequentado aulas de latim, grego e estudado teologia e Kierkegaard. Regressou a Königsberg em 1924 e foi admitida na Universidade de Marburg.

Os anos que passou na universidade foram marcados pela companhia dos antigos amigos, o percurso na filosofia e a relação com Heidegger. Passou um semestre em Freiburg e depois foi para Heidelberg, onde concluiu o doutoramento em Filosofia, sob a direcção de Jaspers, com a tese “O conceito de Amor em Santo Agostinho”, em 1928.

No ano seguinte, mudou-se para Berlim, reencontrou Günther Stern, com quem casou em 1929. Viveram um ano em Frankfurt e regressaram a Berlim. Arendt interessou-se por questões políticas – leu Marx e Trotsky, discutiu a questão judaica. Ficou na Alemanha quando o marido emigrou para Paris, em março de 1933. Por recomendação de Kurt Blumenfeld, trabalhou para a organização sionista e a sua casa serviu de poiso em trânsito para refugiados.

Em julho de 1933, foi presa pela Gestapo e depois de passar oito dias na prisão, deixou a Alemanha – tinha 27 anos e, com a mãe, atravessou, sem documentos, a pé, a fronteira da Checoslováquia. Passaram por Praga e chegaram a Genebra, onde ela trabalhou durante um tempo para a Liga das Nações e depois para a Agência Judaica. De lá, seguiu para Paris, onde colaborou com organizações sionistas no período do seu exílio francês, convivendo com Walter Benjamin, Bertold Brecht, Kurt Blumenfeld e Heinrich Blucher. Acompanhou um grupo de  jovens judeus à Palestina, visitou Petra e Siracusa.

regime nazi retirou-lhe a nacionalidade em 1937. A situação em França complicou-se, deu-se a anexação da Áustria, e em 1939 os judeus em solo francês foram internados em campos separados (homens e mulheres). Passou cinco semanas no campo de Gurs, nos Pirinéus. Viveu o confronto da escolha colocada aos judeus e opositores políticos alemães: “serem presos pelos inimigos em campos de concentração ou pelos amigos em campos de internamento”.

Hannah e a mãe fugiram do campo e encontrou-se com Heinrich Blücher em Montauban – ficaram uns tempos na cidade, até que a ordem de recensear todos os judeus nas prefeituras foi promulgada. Ajudados por amigos,  saíram de França e apanharam o comboio via Port Bou, Barcelona e Madrid, para Lisboa. Em Janeiro de 1941, munida de um visto de emergência, americano  (devido ao apoio do diplomata Hiram Bingham IV, que ilegalmente lho concedeu – a Arendt e a cerca de 2500 outros judeus – e à ajuda de Varian Fry, que custeou as passagens e os vistos),  Hannah chegou a Lisboa.

Viveu na Rua Sociedade Farmacêutica, n.º 6, entre janeiro e maio de 1941, de caminho para Nova Iorque, onde chegou (com Heinrich Blücher) a 22 de maio de 1941 – sem dinheiro, sem trabalho, sem documentos e sem falar a língua. Recorreram às organizações judaicas de ajuda para sobreviverem. Ocuparam dois quartos a oeste da Ninety-fifth Street e algumas semanas mais tarde chegou Martha Arendt. Curioso que aprendeu inglês rapidamente e tornou-se colunista do Aufbau, para ser depois colaboradora na Partisan Review, The New Yorker, e The New York Review of Books.

Ligando-se às organizações sionistas e lutando pelo nascimento e independência de Israel, Hannah Arendt tornou-se, em 1941, secretária-geral no quadro da Aliyah da juventude, facilitando a imigração de crianças judias para a Palestina. Entre 1941 e 1945, colaborou com o  jornal Aufbau, contratada como editora – esta colaboração terminou com a publicação do artigo intitulado A Crise do Sionismo, que marcou a sua posição relativamente às facções mais radicais do sionismo.

Em 1944 começou a coordenar ao trabalho de pesquisa da Comissão para a Reconstrução da Cultura Judaica Europeia, criada no quadro dos trabalhos da Conferência sobre os Estudos Sociais Judaicos. Entre 1946 e 1948 e antes de se tornar directora da organização para a Reconstrução da Cultura Judaica, Arendt aceitou um lugar de direcção nas edições Schoken Books, dirigidas por Salman Shocken, que conhecera em Berlim. Conheceu T.S. Eliot e R. Jarrel de quem se tornou amiga. Em 1948, ano da morte da mãe, assumiu a direção da organização para a Reconstrução da Cultura Judaica.

Depois de mais de 19 anos como apátrida,  obteve a cidadania americana em dezembro de 1951.

Nesse mesmo ano, 1951, publicou o 1º livro: As Origens do Totalitarismo. Entre 1953 e 1958 inaugurou o magistério feminino da Filosofia – leccionou Filosofia e Ciências Políticas nas universidades de Berkeley, Princeton e Columbia.

Em 1958, ano em que publicou a A Condição Humana, pediu ao semanário New Yorker para cobrir o processo de julgamento de Adolf Eichmann. Os cinco artigos em que expôs as minutas do processo Eichmann em Jerusalém suscitaram uma campanha contra ela, que durou mais de três anos.

Em 1963 publicou “Eichmann em Jerusalém – um ensaio sobre a banalidade do mal“- a reação ao livro foi fortíssima. Young-Bruehl conta que, nessa época, Arendt sentava-se sozinha no refeitório do clube dos professores da Universidade de Chicago, onde dava um curso. “A maioria dos docentes a evitava.”

Sobre este episódio, vale a pena ver o filme «Hannah Arendt», dirigido por Margarethe Von Trotta, com Barbara Sukowa a interpretar Hannah Arendt. Na primeira parte do filme, Arendt está em Israel a cobrir o julgamento, e algumas cenas a preto e branco do julgamento real conferem força à reconstituição ficcional. Na segunda parte, depois da publicação do primeiro dos cinco artigos que seriam reunidos no livro Eichmann em Jerusalém, o confronto é entre a consciência de Arendt e aquilo que os outros esperavam dela.

Permaneceu na Universidade de Chicago até 1967, ano em que se mudou para Nova Iorque, tendo lecionado Filosofia Política na New School for Social Research, de 1968 até à sua morte, a 4 de dezembro de 1975.

A ler:

Hannah Arendt – três meses e meio em Lisboa

Cem anos de Hannah Arendt

Dias de sombra e de luz

Hannah Arendt (Stanford Encyclopedia of Philosophy)

We refugees, Hanah Arendt

Hannah Arendt, l’amour du monde

Arendt à Paris et en France : 1933 -1941

Wartesaal Lissabon 1941: Hannah Arendt und Heinrich Blücher

Assumir l’humanité. Hannah Arendt: la responsibilité face à la pluralité

Beware of Pity

 

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Nascido do dia: Theodor W. Adorno

Adorno 1967

Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno nasceu em Frankfurt am Main, a 11 de setembro de 1903. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas. Estudou filosofia, sociologia, psicologia e música na Universidade de Frankfurt, mudando-se para Viena aos 22 anos para prosseguir estudos em composição com Alban Berg. Foi professor em Frankfurt, universidade onde se doutorou e participou, em 1924, na fundação do Instituto de Pesquisa Social, juntamente com Max Horkheimer. Com a subida de Adolf Hitler ao poder, viu-se forçado ao exílio, deixando a Alemanha e emigrando para a Inglaterra em 1933 e mais tarde para os Estados Unidos, em 1937.

Regressou a Frankfurt em 1949, onde lecionou na Universidade de Frankfurt e reorganizou o Instituto de Pesquisa Social, chegando a tornar-se diretor, em 1958. Foi um dos mais importantes críticos e intelectuais marxistas do século XX. Abordou questões sobre a sociedade de consumo, formulando o conceito de “Indústria Cultural” e tentou reinterpretar a psicanálise na perspetiva da Teoria Crítica. Interessou-se ainda pelos aspetos sociais da arte, especialmente a Sociologia da Música. Dialética Negativa, Teoria Estética, Teoria Crítica,   e Dialética do Esclarecimento, foram algumas das suas obras mais importantes. Faleceu a 6 de Agosto de 1969.

Adorno analisou os fenómenos sociais como manifestações de dominação e reconheceu o potencial do poder político, social e económico da indústria do entretenimento. Para ele, desde as revistas, filmes, música, televisão, etc, fazem parte da “indústria cultural”, termo que definiu juntamente com Horkheimer em “Dialética do Esclarecimento”, 1947.

A indústria cultural é o constituinte principal para a dominação a que o Homem sofre na sociedade capitalista e, para Adorno, é um mecanismo-chave e integrado para fundir os indivíduos como ambos consumidores e produtores na tal sociedade. Apesar da indústria cultural apresentar diversas opções culturais, funciona com vista um sistema uniforme, em que todos nós nos devemos conformar. “A indústria cultural produz para o consumo de massa e contribui significativamente para a determinação desse consumo. As pessoas estão agora a ser tratadas como objectos, máquinas, dentro e fora dos locais de trabalho. Os consumistas, assim como os produtores não têm soberania. (…)” (Held, D. 1981)

Adorno argumentou que a integração dos indivíduos na indústria cultural tem um efeito fundamental no atrofiamento da consciência crítica das condições sociais com que todos nós somos confrontados. Esta indústria promove a dominação da população ao arruinar o desenvolvimento psicológico da mesma. Através do aumento da quantidade de formas de entretenimento e o alcance de tal, os indivíduos estão, de forma crescente, a ser  submetidos às mesmas condições subjacentes a que o capitalismo é mantido e reproduzido, por isso, são violados os limites de trabalho e entretenimento.

De Mínima Moralia:

Peixe na água. – Desde que o amplo aparelho de distribuição da indústria altamente concentrada substitui a esfera da circulação, inicia esta uma estranha pós-existência. Enquanto para as profissões intermediárias se desvanece a base económica, a vida privada de incontáveis pessoas transforma-se na dos agentes e intermediários, mais ainda, o âmbito do privado é totalmente engolido por uma misteriosa actividade que apresenta todos os rasgos da actividade comercial sem que nela haja, em rigor, algo para comercializar. Os angustiados, desde o desempregado até ao proeminente que, no instante seguinte, pode atrair a cólera daqueles cujo investimento ele representa, crêem que só pela empatia, pela dedicação, pela disponibilidade, graças a truques e à perfídia do poder executivo, olhado como omnipresente, se podem fazer recomendar pelas suas qualidades de comerciantes, e depressa deixa de haver relação alguma que não tenha posto a sua mira em relações, e impulso algum que não se tenha submetido a uma censura prévia, não vá ele desviar-se do aceite. O conceito das relações, uma categoria da mediação e da circulação, nunca deu bons resultados na genuína esfera da circulação, no mercado, mas em hierarquias fechadas, monopolistas. A sociedade inteira torna-se assim hierárquica, as relações turvas infiltram-se onde quer que exista ainda a aparência de liberdade. A irracionalidade do sistema dificilmente se expressa melhor no destino económico do indivíduo do que na sua psicologia parasitária. Antes, quando ainda havia algo como a desacreditada separação burguesa entre a profissão e a vida privada, pela qual já quase se quer pôr luto, apontava-se com desconfiança como intrometido descortês quem perseguia fins na esfera privada. Hoje, quem se imiscui no privado surge como um arrogante, estranho e impertinente, sem necessidade de se lhe assinalar propósito algum. Quase é suspeito quem nada “quer”: não se confia que ele seja capaz de ajudar alguém a ganhar a sua vida, sem se legitimar mediante exigências recíprocas. São inumeráveis os que transformam em profissão sua uma situação que é consequência da liquidação da profissão. Esses tais são a gente de bem, os estimados, os amigos de todos, os honrados, os que humanamente desculpam toda a vulgaridade e, incorruptíveis, repudiam como sentimental todo o impulso fora das normas. São imprescindíveis, graças ao conhecimento de todos os canais e válvulas de escape do poder, traem as suas mais secretas opiniões e vivem da sua hábil comunicação. Encontram-se em todas as situações políticas, inclusive onde surge como patente a recusa do sistema; e deste modo se desenvolveu um conformismo frouxo e insidioso de índole particular. Muitas vezes, subornam com uma certa benignidade, pela sua participação empática na vida dos outros: altruísmo assente na especulação. São espertos, engenhosos, sensíveis e capazes de reacção: poliram o antigo espírito mercantil com as conquistas da mais recente psicologia. De tudo são capazes, inclusive do amor, mas sempre de modo infiel. Não enganam por impulso, mas por princípio: até a si mesmos se valorizam em termos de lucro, que a mais ninguém concedem. Une-os no espírito a afinidade electiva e o ódio: são uma tentação para os meditativos, mas também os seus piores inimigos. Pois eles são os que, de modo subtil, se apoderam, profanando-o, do último esconderijo da resistência, as horas que ficam livres das requisições da maquinaria. O seu individualismo serôdio envenena o que ainda resta do indivíduo. (p 11-13)

Deitar fora a criança com a água. – Entre os motivos da crítica da cultura, ocupa um lugar central, desde os tempos antigos, o da mentira: que a cultura cria a ficção de uma sociedade humanamente digna que não existe; que oculta as condições materiais sobre as quais se erige todo o humano; e que, com a consolação e o sossego, serve para manter com vida a perniciosa determinidade económica da existência. Tal é a concepção da cultura como ideologia que, à primeira vista, têm em comum a doutrina burguesa do poder e a sua contrária: Nietzsche e Marx. Mas esta noção, de modo análogo a todo o trovejar contra a mentira, tem uma suspeita propensão para ela própria se tornar ideologia. Isso patenteia-se no privado. A obsessão do dinheiro e todo o conflito que ela traz consigo imiscuem-se nas relações eróticas mais ternas e nas relações espirituais mais sublimes. Por isso, a crítica cultural podia exigir, com a lógica da consequência e com o pathos da verdade, que as situações se reduzissem de todo à sua origem material e se configurassem sem reservas e às claras sobre a base dos interesses dos implicados. O sentido não é, decerto, independente da sua génese; e em tudo o que se erige sobre o material ou o mediatiza é fácil encontrar o vestígio da insinceridade, do sentimentalismo, portanto, o interesse disfarçado e duplamente venenoso. Mas, se se quisesse agir de forma radical, então com o inverdadeiro extirpar-se-ia também todo o verdadeiro, tudo o que, embora de um modo impotente, se esforça por fugir ao âmbito da praxis universal, toda a quimérica antecipação de um estado mais nobre, e transitar-se-ia directamente para a barbárie que se censura à cultura como seu fruto. Nos críticos burgueses da cultura, após Nietszche, esta inversão foi sempre patente: Spengler subscreveu-a inspiradamente. Mas os marxistas também não são imunes. Uma vez curados da crença socialdemocrata no progresso cultural e confrontados com a crescente barbárie, vivem na permanente tentação de, por mor da “tendência objectiva”, defenderem aquela e, num acto de desespero, esperarem a salvação do mortal inimigo que, como “antítese”, deve ajudar de forma cega e misteriosa a preparar o desfecho feliz. A acentuação do elemento material perante o espírito como mentira desenvolve, contudo, uma espécie de precária afinidade electiva com a economia política, cuja crítica imanente se pratica, comparável à conivência entre a polícia e o submundo. Desde que se eliminou a utopia e se exige a unidade de teoria e praxis, tornámo-nos demasiado práticos. A angústia frente à impotência da teoria proporciona o pretexto para se render ao omnipotente processo da produção e admitir assim plenamente a impotência da teoria. Os rasgos malévolos já não são estranhos à linguagem marxista autêntica, e hoje está a romper uma semelhança entre o espírito comercial e a sóbria crítica apreciativa, entre o materialismo vulgar e o outro, em que por vezes é difícil manter separado o sujeito e o objecto.” p. 33-34

Zuidervaart,L. (2011), “Theodor W. Adorno”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy Edward N. Zalta

A Conversation with Theodor W. Adorno (Spiegel, 1969)