Nascido do dia: Viktor Frankl

Viktor Emil Frankl nasceu a 26 de março de 1905, em Viena, numa família austríaca judia, tendo duas irmãs mais velhas. Cedo (aos 15 anos) começou a corresponder-se  com Sigmund Freud mais ao menos ao tempo em que se tornou membro ativo de organizações de trabalhadores socialistas. Aos dezasseis anos fez a sua primeira palestra, Sobre o Sentido da Vida, para o partido socialista.

Em 1925, estudante de Medicina, encontrou-se pessoalmente com Freud e aproximou-se do círculo liderado por Alfred Adler, um dos primeiros grandes dissidentes de Freud, chegando a publicar, nesse intervalo, dois trabalhos no Internationale Zeitschrift für Individual psychologie. O nome “logoterapia” foi utilizado por Frankl, pela primeira vez, numa conferência realizada em 1926. Não concordando com o que entendia pelo “psicologismo” da proposta de Adler, em 1927 foi expulso da Associação.

Frankl passou a organizar os chamados postos de aconselhamento para a juventude, a fim de oferecer uma alternativa de enfrentamento ao considerável número de suicídios entre os jovens estudantes da época. A experiência de Viena teve muito sucesso e espalhou-se por várias cidades, como Zurique, Berlim, Frankfurt e Budapeste, chamando a atenção de alguns nomes importantes da época, como o de Wilhelm Reich, que convidou Frankl a conversar sobre o tema em Berlim.

Paralelamente aos estudos em medicina, Frankl foi um leitor voraz de obras filosóficas – na sua biografia intelectual, citou, entre outros, Kant, Heidegger, Fechner, Kierkegaard, Nietzsche, Schopenhauer, Gabriel Marcel e Buber. Contudo, foi a leitura da obra de Max Scheler que, definitivamente, influenciou os contornos que a logoterapia viria a ter – Frankl chegou a afirmar que foi Scheler quem “o despertou do sono psicologista”.

Fez o estágio em psiquiatria e neurologia,sob a direção de Otto Pötzl, tendo a liberdade para pesquisar experimentalmente novas formas de abordagem de psicoterapia na Clínica Universitária de Viena.

Já formado, em 1933, ingressou no Hospital Steinhof, onde dirigiu o pavilhão 3, conhecido como o corredor das suicidas, lá desenvolvendo uma ampla visão diagnóstica sobre o tema.

Em 1937, iniciou atividade em clínica particular, mas não pode exercê-la por muito tempo, pelo que aceitou, em 1940, o cargo de diretor do setor neurológico do Hospital Rotschild, posição que o protegeu, por algum tempo, da deportação aos campos. Com Pötzl, organizou várias manobras para sabotar a eutanásia de doentes mentais ordenada pelas autoridades nacional-socialistas. Mesmo tendo visto para viver nos Estados Unidos, Frankl decidiu ficar no país, não abandonando os seus pais.

Em 1942, foi deportado para o gueto de Theresienstadt juntamente com a família. Esse local era considerado a porta de entrada para os campos de extermínio e permaneceu lá durante vinte e cinco meses até ser transferido, em outubro de 1944, para Auschwitz-Birkenau (prisioneiro nº 119.104).

No final da guerra, tinha perdido a mulher, os pais e o irmão nos campos. A outra irmã sobreviveu em Itália e depois imigrou para a Australia. Viktor passou três anos sob condições terríveis e trabalho forçado, tendo sido transferido para 4 campos, incluindo Auschwitz (onde o irmão e a mãe foram mortos) e dependências de Dachau (Kaufering e Turkhein) onde permaneceu até 27 de abril de 1945, quando foi libertado.

Conseguiu roubar alguns papéis e escrever as ideias principais da sua obra-prima, escrita depois em nove dias e lançada em 1946 – Em Busca de Sentido.

Nos anos seguintes, Frankl casou-se, teve uma filha, conseguiu o título de doutor em filosofia (em 1948, com a tese  “O Deus inconsciente”), tornou-se professor de neurologia da Universidade de Viena (em 1955), fundador e presidente da Sociedade Austríaca de Medicina Psicoterapêutica. A logoterapia tornou-se um método de tratamento estudado e respeitado pela comunidade científica e académica e, sendo considerada a terceira escola da terapia vienense, sucedendo-se a Sigmund Freud e Alfred Adler.

Titular da Universidade de Viena (onde encerrou atividade docente em 1996), foi professor visitante de diversas universidades americanas, entre as quais Harvard, San Diego e Pittsburgh. Em 1979, foi indicado para o Prémio Nobel da Paz, o qual, na ocasião, foi atribuído a Madre Teresa de Calcutá (que escreveu ao comité sueco renegando o prémio em favor de Frankl, pedido que, obviamente, não foi acolhido).

Morreu em Viena, a 2 de setembro de 1997.  Obituary

Biography of Viktor Frankl, the Father of Logotherapy

Biography

Viktor Frankl and the Reasons to Choose Life

What Viktor Frankl’s logotherapy can offer in the Anthropocene

A vontade de sentido na obra de Viktor Frankl

 

Nascida do dia: Elizabeth Anscombe

Elizabeth Anscombe (de seu nome completo, Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe) nasceu na Irlanda, em Limerick, dia 19 de março de 1919 e morreu em Cambridge, a 5 de janeiro de 2001. Regeu a cátedra de Filosofia da Universidade de Cambridge entre 1970 e 1986. O seu trabalho filosófico, muito do qual “contra a corrente” como se diz, abrange a ética, a filosofia da mente, a filosofia da religião. É reconhecida pelo pendor analítico, uma posição anti-utilitarista e cristã. Foi pioneira na teoria da ação contemporânea, como se pode ler em «Intention»(1957) e divulgou Wittgenstein ao conhecimento público (aliás, Wittgenstein  morreu em 1951, tendo-a nomeado como uma dos seus três executores literários).

Como a própria defende,“A filosofia analítica é mais caracterizada por estilos de argumentação e investigação do que por conteúdo doutrinal” –  e Elizabeth Anscombe é um dos expoentes da filosofia analítica no século passado. Tendo traduzido a obra de Wittgenstein para inglês, segue o trilho do mestre em alguns aspectos mas a força argumentativa e o rigor do seu trabalho e a pertinência das suas ideias evidenciaram-se mais.

Anscombe foi uma polemista, em artigos de opinião e intervenções radiofónicas e conferências. Em “Twenty Opinions Common among Modern Anglo-American Philosophers”(1986) afirmou que, uma vez que o nome ‘filosofia analítica’ corresponde a um estilo e não a uma doutrina, não deve ser surpreendente que os praticantes deste tipo de actividade tenham as mais diversas crenças a respeito de todo o tipo de assuntos.

Em “Does Oxford Moral Philosophy Corrupt the Youth?”(1957), um artigo publicado no The Listener, defendeu que a filosofia moral de Oxford está em perfeita harmonia com as ideias mais comuns na sociedade sobre moral, e é, de resto, uma versão académica dessas mesmas ideias –e portanto, não corrompe ninguém, quando muito, sofistica. À provocação em forma de pergunta, Anscombe responde com um rotundo “não”. Não, a Filosofia Moral de Oxford não corrompe os jovens mas não porque seja especialmente meritória – apenas porque é tão má como a mentalidade da sociedade em que os jovens já estão inseridos. Começou por mostrar que esta “escola” de filosofia teria as características necessárias para serum agente de corrupção através da propagação directa de ideias –(1) um certo ar de “seriedade moral”, (2) manter-se afastado dos factos, considera-los irrelevantes e (3) concentrar-se em exemplos ou completamente banais ou totalmente fantásticos. De seguida, as ideias centrais da dita “filosofia moral de Oxford” são comparadas com as ideias e os valores mais característicos da sociedade a visão da justiça, a noção de responsabilidade, a importância dada à sensibilidade e ao sofrimento, a noção de fim último e/ou forma de vida escolhidas e a sua natureza subjectiva, e a relação entre a educação das crianças e autoridade parental. A respeito de cada um destes assuntos, Anscombe mostra como não há diferenças significativas entre as ideias dos professores de Oxford e do resto do mundo – e deixa patente como isso é um problema tanto para a filosofia como para o mundo, porque essas ideias são, do seu ponto de vista, completamente erradas. Note-se, contudo, que as naturezas destes problemas são diferentes –se, para a filosofia, o problema com o erro é, em primeira análise,de carácter intelectual, para o mundo, o erro assume uma configuração ética. O facto de as pessoas andarem enganadas a respeito do que é uma boa acção, ou uma boa vida, pode impedi-las de a concretizarem ou viverem.

G. E. M. Anscombe (1919—2001) – by Duncan Richter for the Internet Encyclopedia of Philosophy

Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe – by Julia Driver for The Stanford Encyclopedia of Philosophy

Elizabeth Anscombe – A BBC Programme Woman’s Hour episode in which Sarah Woolman speaks to Dr Rosalinde Hursthouse and Professor Philippa Foot

The Golden Age of Female Philosophy – A recent episode of Philosopher’s Zone which discusses Anscombe’s work along with the work of other great contemporary women philosophers

Anscombe Bioethics Centre – ‘a Roman Catholic academic institute that engages with the moral questions arising in clinical practice and biomedical research’

G.E.M. Anscombe Bibliography – by José M. Torralba for Universidad de Navarra

[foto aqui]

Nascido do dia: Maurice Merleau-Ponty

Maurice Merleau-Ponty nasceu a 14 de março, em Rochefort-sur-Mer e morreu a 3 de maio de 1961, em Paris. Formou-se em filosofia em 1930, tendo sido  colaborador da Revista Espirit. Foi mobilizado para a 2ª Guerra Mundial entre 1939 e 1940. Depois, ensinou quatro anos no Liceu Carnot e participou da resistência contra a ocupação nazi. Lecionou no Liceu de Beauvais de 1931 a 1933, no Liceu de Chartres de 1934 a 1935 e na Escola Normal Superior de 1935 a 1939. Em 1945, quando se doutorou, foi nomeado diretor de cursos e conferências da Universidade de Lyon (da qual se tornou professor titular em 1948). Nessa época, fundou, com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, a revista Les Temps Modernes, da qual foi assíduo colaborador. A partir de 1949 ingressou na Universidade de Paris. Depois na Sorbonne, de 1949 a 1952, e em 1952 ficou com a cadeira de filosofia no Collège de France. Morreu com 53 anos, vítima de embolia.

A principal obra de Merleau-Ponty, La phénoménologie de la perception, tese de doutoramento publicada em 1945, no mesmo ano em que, a 13 de Março, proferiu a conferência “Le cinéma et la nouvelle psychologie” (posteriormente publicada em Sens et Non-Sens, 1966).

o cinema está particularmente apto a manifestar a união do espírito e do corpo, do espírito e do mundo e a expressão de um no outro. Eis porque não é surpreendente que a crítica possa evocar a filosofia a propósito de um filme”(1966: 105). No entanto, a reflexão sobre as artes em Merleau-Ponty está imediatamente associada à pintura, principalmente a Le doute de Cézanne e a L’œil et l’esprit, textos dedicados exclusivamente à pintura.  (fonte aqui)

“A mais importante aquisição da Fenomenologia é, sem dúvida, a de ter juntado o extremo subjectivismo e o extremo objectivismo na sua noção do mundo ou da racionalidade.”(Merleau-Ponty, 1945: XV) O retorno às coisas abandonadas pela modernidade filosófica supõe uma consciência capaz de ir ao fundo de si mesma, reconhecendo-se,em primeiro lugar,como uma entidade viva, como um eu posso antes de ser um eu penso.

Merleau-Ponty (1908-2008)

Nascido do dia: Arthur Schopenhauer

Arthur Schopenhauer nasceu a 22 de fevereiro de 1788 em Gdansk e morreu a 21 de setembro de 1860, em Frankfurt.

Filósofo alemão do século XIX, conhecido pela obra principal “O mundo como vontade e representação” (1818), em que caracteriza o mundo fenoménico como produto de uma vontade metafísica, cega, insaciável e maligna. A partir do idealismo transcendental de Imannuel Kant, Schopenhauer desenvolveu um sistema metafísico ateu e ético, descrito como pessimismo filosófico. Introduziu conceitos budistas na metafísica alemã, tendo sido fortemente influenciado pela leitura das Upanishads. Acreditava no amor como meta na vida, mas não acreditava que tivesse algo a ver com a felicidade.

Apesar de ser mais conhecido, atualmente, pela obra O Mundo como Vontade e Representação, foi com a publicação de Parerga e Paralipomena, no final de 1851, que ficou amplamente conhecido e famoso ainda em vida. Nesta obra discorreu sobre uma multitude de assuntos, desde temas relacionados com o ensino universitário, a escrita, a sociedade em que vive, reviu conceitos que outrora defendera e providenciou conselhos aos leitores sobre como levar uma vida o mais isenta de sofrimento possível.

Schopenhauer’s influence on later nineteenth-century and early twentieth-century artists has been greater than that of any other philosopher: Tolstoy, Turgenev, Zola, Maupassant, Proust, Hardy, Conrad, Mann, Joyce and Beckett all admired and were influenced by his work. Subservient to the Christian doctrine of a wholly powerful, benevolent world-creator, the Western philosophical tradition has been compelled to conclude that we live in the best of all possible worlds. In Schopenhauer, the artists found a philosopher who, for the first time, revealed how far this was from the truth. The artist who engaged most deeply with Schopenhauer was Richard Wagner (himself a philosopher of genuine ability). Originally a socialist-anarchist who narrowly escaped execution for his role in the 1848 Revolution, Wagner discovered Schopenhauer in the middle of writing the Ring cycle. The result was a work that begins as an argument in favour of utopian anarchism, and ends by advocating, as Wagner wrote to a friend, “the final negation of the desire for life”. This, he wrote, is “the only salvation possible . . . freedom from all dreams is the only final salvation”. Wagner’s ardent disciple, the youthful Friedrich Nietzsche, dedicated his first book, The Birth of Tragedy, to Wagner and wrote it “in Schopenhauer’s spirit and to his honour”. The mature Nietzsche’s turn against Schopenhauer and towards “life-affirmation” terminated his friendship with Wagner.

Schopenhauer was, I believe, the first European Buddhist (the first translations of the Hindu and Buddhist texts began to appear as he was writing the main work). To live, he tells us, is to will, and to will is to participate in the anxious, exhausting and endless Darwinian struggle that only the fittest survive. The pleasures of achieving a goal are either fleeting or non-existent. And once achieved, we must rush on to the next goal in order to escape the ever-present threat of boredom. Life is a treadmill; the “wheel of Ixion” never stands still. But this, Schopenhauer tells us, is a game we do not have to play. We can withdraw from the life of willing into a life of contemplation – “mindfulness”, in current jargon – a withdrawal which, for the enlightened, will complete itself in easeful death. At its deepest level, says Schopenhauer, his philosophy, like Socrates’, is a “preparation for death”.

Julian Young, Arthur Schopenhauer: The first European Buddhist

Cf. Internet Encyclopedia of Philosophy

   

Nascido do dia: Alfred North Whitehead

Alfred North Whitehead nasceu a 15 de fevereiro de 1861, em Ramsgate, e morreu em Cambridge, a 30 de dezembro de 1947. Filósofo, lógico e matemático britânico, fundador da escola filosófica conhecida como a filosofia do processo, atualmente aplicada em vários campos da ciência, como na ecologia, teologia, pedagogia, física, biologia, economia e psicologia.

No início da carreira dedicou-se à matemática, à lógica e à física. O primeiro grande trabalho foi O Tratado sobre a Álgebra Universal (1898), onde se propôs a unificar a álgebra, ainda que o seu trabalho mais notável sobre o assunto seja o Principia mathematica (1910–1913), escrito com a colaboração do antigo aluno Bertrand Russell.

Entre fins da década de 1910 e o início dos anos 1920, enveredou pela filosofia da ciência, dedicando-se à filosofia da natureza – Os Princípios do Conhecimento Natural (1919) e O Conceito da Natureza (1920). Em Os Princípios da Relatividade (1922) fez uma abordagem crítica à teoria da relatividade de Albert Einstein.

A sua Magnum Opus, Processo e Realidade (1929) é considerada a fundadora da filosofia do processo. Whitehead não procura explicar a teoria do conhecimento mas antes a experiência em si, distinguindo-se da metafísica de Immanuel Kant.

A filosofia do processo de Whitehead pressupõe que “é urgente ver o mundo como uma rede de processos interdependentes da qual fazemos parte, e todas as nossas escolhas e nossas ações têm consequências onde vivemos“. Por essa razão muito influenciou os estudos da ecologia, sobretudo na ética ambiental de John B. Cobb.

Alfred North Whitehead (Stanford Encyclopedia)

Alfred North Whitehead

Thus nature is a structure of evolving processes. The reality is the process. It is nonsense to ask if the colour red is real. The colour red is ingredient in the process of realisation. The realities of nature are the prehensions in nature, that is to say, the events in nature…

An event has contemporaries. This means that an event mirrors within itself the modes of its contemporaries as a display of immediate achievement. An event has a past. This means that an event mirrors within itself the modes of its predecessors, as memories which are fused into its own content. An event has a future. This means that an event mirrors within itself such aspects as the future throws back onto the present, or, in other words, as the present has determined concerning the future. Thus an event has anticipation…

These conclusions are essential for any form of realism. For there is in the world for our cognizance, memory of the past, immediacy of realisation, and indication of things to come.

I propose in the first place to consider how the concrete educated thought of men has viewed this opposition of mechanism and organism. It is in literature that the concrete outlook of humanity receives its expression. Accordingly it is to literature that we must look, particularly in its more concrete forms, namely in poetry and in drama, if we hope to discover the inward thoughts of a generation…A scientific realism, based on mechanism, is conjoined with an unwavering belief in the world of men and of the higher animals as being composed of self-determining organisms. This radical inconsistency at the basis of modern thought accounts for much that is half-hearted and wavering in our civilisation…

Of course, we find in the eighteenth century Paley’s famous argument, that mechanism presupposes a God who is the author of nature. But even before Paley put the argument into its final form, Hume had written the retort, that the God whom you will find will be the sort of God who makes that mechanism. In other words, that mechanism can, at most, presuppose a mechanic, and not merely a mechanic but its mechanic. The only way of mitigating mechanism is by the discovery that it is not mechanism.

When we leave apologetic theology, and come to ordinary literature, we find, as we might expect, that the scientific outlook is in general simply ignored.

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Nascido do dia: Hans-Georg Gadamer

 

Hans-Georg Gadamer nasceu a 11 de fevereiro de 1900, em Marburgo e morreu em Heidelberg, a 13 de março de 2002. Não tenho ideia se se lembram dos obituários, como do The Guardian, do Telegraph ou Independent.

The life of Hans-Georg Gadamer is synonymous with a century of German philosophy, from Neo- Kantian origins to his apprenticeship with his brilliant but flawed mentor Martin Heidegger and to the formulation of an influential new approach to a philosophy of understanding (hermeneutics), from moderate German nationalism to socialism and a critical stance towards globalisation.

His life is also distinguished not only by his own magnum opus, Wahrheit und Methode (Truth and Method, 1960), but also by his facility in practising the personal and philosophical dialogue he had preached in his relations with his many pupils, many of whom, Jürgen Habermas among them, came to great prominence themselves.(aqui)

Gadamer é considerado um dos maiores expoentes da hermenêutica e a sua obra de maior impacto parece ser Verdade e Método (Wahrheit und Methode), de 1960, onde elabora uma filosofia propriamente hermenêutica, que trata da natureza do fenómeno da compreensão.

Not until the age of 60 did his magnum opus appear: Truth and Method, a vindication of hermeneutics, or the study of interpretation, a classic of 20th-century philosophy. Gadamer traced his intellectual lineage back to Plato and Aristotle, but even as a centenarian he was alive to the challenges of modernity.

At the heart of Truth and Method lies Gadamer’s defence of the concept of prejudice. Only the Enlightenment, he argues, with its “prejudice against prejudice” gave the concept its present negative connotation. Romanticism, especially in Germany, reversed the Anglo-French Enlightenment’s priority of reason over myth, but perpetuated the same dualism.

For Gadamer, by contrast, “the prejudices of the individual, far more than his judgments, constitute the historical reality of his being”. It is impossible to understand the world we live in, let alone our place in it, without authority and tradition. “History,” he declared, “does not belong to us; we belong to it.”

Gadamer’s philosophy passes seamlessly into classical philology and the history of ideas. “Our historical consciousness is always filled with a variety of voices in which the echo of the past is heard,” he wrote. “Only in the multifariousness of such voices does it exist.” (aqui)

Um dos mais importantes pensadores do século XX, teria sido sempre reticente a falar de si próprio. Gadamer cresceu em Breslávia, onde o pai foi professor de farmácia na Universidade, assumindo posteriormente a cadeira de Química Farmacêutica. A mãe morreu de diabetes quando ele tinha quatro anos e não teve irmãos ou irmãs sobreviventes. Começou os estudos universitários em Breslau em 1918 (com Richard Hoenigswald), mudando-se para Marburgo com o pai em 1919. Completou estudos de doutoramento em Marburgo em 1922, com uma dissertação sobre Platão. Nesse mesmo ano, contraiu poliomielite, da qual recuperou lentamente, sendo os efeitos posteriores da doença permanentes para o resto da vida.

Os primeiros professores de Gadamer em Marburgo foram Paul Natorp e Nicolai Hartmann. No entanto, foi Martin Heidegger (em Marburgo de 1923-1928) que exerceu o efeito mais importante e duradouro no desenvolvimento filosófico de Gadamer. Foi assistente não remunerado de Heidegger em 1925 mas Heidegger teria sido muito crítico quanto às capacidades e contribuições filosóficas de Gadamer. Assim, decidiu abandonar a filosofia e mudar-se para a filologia clássica. Apresentou-se ao Exame de Estado nesta área, em 1928,  com  ‘Ética Dialética de Platão’.

Gadamer ocupou um cargo de professor temporário em Kiel, entre 1934 e 1939, tornando-se Diretor do Instituto Filosófico da Universidade de Leipzig, Decano da Faculdade em 1945, e Reitor em 1946, antes de se dedicar ao ensino e pesquisa em Frankfurt  em 1947. Em 1949, sucedeu Karl Jaspers em Heidelberg, tornando-se Professor Emérito em 1968.

Over the next half century Gadamer became as much of an institution in Heidelberg as Kant had once been in Konigsberg: a familiar figure on the cobbled streets, walking and talking, always in his corduroy jacket, always convivial, fixing his interlocutor with a penetrating gaze. Having survived the Nazis and the Communists, Gadamer found no difficulty surviving the 1960s, during which he engaged the thinkers of the Frankfurt school, especially Jurgen Habermas.

The revival of Heidegger’s popularity in the 1950s owed much to Gadamer; it inevitably led to the rediscovery of his Nazi past in the late 1980s. Heidegger’s death in 1976 left Gadamer pre-eminent. (aqui)

Já aposentado, viajou extensivamente, foi visitante em várias instituições e desenvolveu uma associação especialmente próxima com o Boston College em Massachusetts. Permanecendo intelectualmente ativo até ao final de sua vida (ocupava o horário regular de trabalho aos noventa anos), Gadamer morreu aos 102 anos de idade, um dos pensadores mais longevos da historia da filosofia ocidental.

Gadamer books

Gadamer’s Century: Essays in Honor of Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer’s philosophical hermeneutics: Concepts of reading, understanding and interpretation, Paul Regan

Nascido do dia: Emmanuel Lévinas

Emmanuel Levinas nasceu em Kaunas, na Lituânia, a 30 de dezembro de 1905 / 12 janeiro de 1906 (conforme os calendários juliano ou gregoriano) e morreu, em Paris, a 25 de dezembro de 1995. Nascido no seio de uma família judaica, o pai era livreiro, e Lévinas cedo teve contato com os clássicos da literatura russa, como Dostoiévski, que é muito citado nas suas obras.  Aos doze anos, na Ucrânia, assistiu à revolução de Outubro (1917). Mais tarde, estabeleceu-se em França e em 1923 estudou Filosofia na Universidade de Estrasburgo e contactou com Charles Blondel, Maurice Halbwachs, Maurice Pradines e Henri Carteron.  Em 1928 foi para Freiburg e prosseguiu estudos com Husserl, encontrando Heidegger. Em 1929, apresenta sua tese de doutoramento sobre La Théorie de l’Intuition dans la Phénoménologie de Husserl (1930).  Bastante influenciado pela fenomenologia de Husserl, assim como pelas obras de Martin Heidegger, Franz Rosenzweig e Monsieur Chouchani, o pensamento de Lévinas parte da ideia de que a Ética, e não a Ontologia, é a Filosofia primeira. É no face-a-face humano que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável e lhe vem à ideia o Infinito.

Regressou a Paris até que, tendo eclodido a II Guerra Mundial (1939), foi capturado e feito prisioneiro pelos alemães. Exilado cinco anos, escreve grande parte de sua obra De l’Existence à l’Existant (1947), publicada dois anos após o fim da guerra. Durante dezoito anos (1946-1964), dedicou-se à direção da Escola Normal Israelita Oriental de Paris. Nesse período, publicou a grande obra Totalité et Infini (1961). Difficile Liberté (1963) apareceu dois anos depois, com foco em questões sobre o judaísmo. Lecionou depois na universidade de Poitiers (1964-1967), na de Paris-Nanterre (1967-1973) e na de Paris-Sorbone (1973-1984). Faleceu em Paris em dezembro de 1995.

Podemos mostrar-nos escandalizados por esta concepção utópica e, para um eu, inumana. Mas a humanidade do humano — a verdadeira vida — está ausente. A humanidade no ser histórico e objetivo, a própria aberta do subjetivo, do psiquismo humano, na sua original vigilância ou acalmia, é o ser que se desfaz da sua condição de ser: o des-inter-esse. É o que quer dizer o título do livro: ‘de outro modo que ser’. A condição ontológica desfaz-se, ou é desfeita, na condição ou incondição humana. Ser humano significa: viver como se não se fosse um ser entre os seres. Como se, pela espiritualidade humana, se invertessem as categorias do ser, num ‘de outro modo que ser’. Não apenas num ‘ser de modo diferente’; ser diferente é ainda ser. O ‘de outro modo que ser’, na verdade, não tem verbo que designe o acontecimento da sua in-quietude, do seu des-inter-esse, da impugnação deste ser — ou do esse — do ente. (…) De fato, trata-se de afirmar a própria identidade do eu humano a partir da responsabilidade, isto é, a partir da posição ou da de-posição do eu soberano na consciência de si, deposição que é precisamente a sua responsabilidade por outrem. (…) Tal é a minha identidade inalienável de sujeito .” LEVINAS, E. Ética e Infinito: diálogos com Philippe Nemo. Trad. João Gama. Lisboa: Edições 70, 1988, p.92-93

Cf.

Emmanuel Levinas e a Obsessão do Outro

Lévinas e a sensibilidade como comunicação originária

Lévinas e Derrida

O problema do humano em Emmanuel Lévinas

Thinking about Death II: Lévinas

Emmanuel Levinas© Photographed by Bracha Ettinger