“Memorial do Holocausto”

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Por muito que se tenha acompanhado a celeuma do Memorial,  vê-lo é outra coisa… Memorial aos Judeus Mortos da Europa (Denkmal für die ermordeten Juden Europas), também conhecido por Memorial do Holocausto (Holocaust-Mahnmal). Projeto do arquiteto Peter Eisenman- uma área de 19.000 metros quadrados coberta com 2.711 blocos de betão ou “estelas”, um campo ondulado de pedras erguidas com ângulos variados (54 na posição Norte-Sul e 87 em Leste-Oeste) e alturas diferentes (as mais baixas, com menos de um metro, e as mais altas, com 4,7 metros). Impressionante construção, cravada estrategicamente entre o Portão de Bradenburg e a Potsdamer Platz, no centro de Berlim, aberta ao público desde maio de 2005.

De acordo com o texto do projeto de Eisenman, os blocos são desenhados para produzir uma intranquilidade, um clima de confusão e a escultura toda ajuda a representar um sistema supostamente ordenado e que perdeu o contato com a razão humana. Um anexo subterrâneo “Local de Informação” (Ort der Information) guarda os nomes de todas as vítimas judias conhecidas do Holocausto.

Passando pelo meio das colunas, menos de um metro se nos oferece, e, conjugando com a ondulação do chão e o frio e escuro no meio do memorial, à medida que se avança o sentimento é desconcertante, um pouco entre o cemitério e o túmulo. Nenhum memorial com esta magnitude teria a forma certa e este, como outros memoriais, cumpre a sua função: guarda e relembra; uma espécie de não-lugar que em cima tem blocos de cimento sem nada escrito e em baixo memórias e registos.

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Aristides de Sousa Mendes e “Evocação do Holocausto”

“As razões de lembrarmos o Holocausto numa escola de direito são portanto e essencialmente duas. De um lado, a crueldade do curto século XX, da era dos extremos que levou à morte mais de 210 milhões de pessoas por decisão humana no espaço entre 1914 e 1989.

Crueldade inexplicável mas que sempre devemos lembrar a propósito do Holocausto – que nos interpela pelo seu carácter único e particular desta “era dos extremos”. De outro lado, lembramos que estas mortes são o resultado de decisões tomadas por homens. Ao mal absoluto acrescenta-se a banalização do mal, para utilizar expressões de Hannah Arendt.

O Holocausto é também a consequência de decisões de pessoas em concreto, de centenas de pessoas necessárias para operar a gigantesca máquina burocrática e industrial que levou à morte mais de 6 milhões de pessoas.

O silêncio, a cumplicidade, a actuação de juízes, de professores, de advogados, de funcionários, de carcereiros, de carrascos deve ser lembrada. É esta degradante situação humana que Camus encena em O Estrangeiro: levado a julgamento, Meursault, o protagonista, é examinado pelo procurador que conclui não haver nada de humano nele, nem uma alma. Estrangeiros da condição humana são assim aqueles que levam ao homicídio sem remorso nem culpa.

A advertência é portanto clara: o direito e os seus oficiais foram utilizados para o mal, o direito pode ser um instrumento do mal, algo que sempre devemos lembrar numa instituição de formação jurídica e judiciária.
Mas e ao lado destes, houve quem sentisse o dever de proteger e assumisse a responsabilidade de agir.
Evocar o holocausto tem assim estas duas faces: lembrar o inominável, ao recordar que foram homens que planearam e levaram a cabo o Holocausto. Mas, e de outro lado, que foram também homens, nomeadamente três diplomatas portugueses que contra as ordens do regime de Oliveira Salazar salvaram milhares de vidas durante a II Guerra Mundial. Homens como os diplomatas Aristides de Sousa Mendes, Carlos Sampaio Garrido e Alberto Teixeira Branquinho inspiram o nosso mundo e iluminam a nossa situação.
Ao recordarmos Aristides de Sousa Mendes lembramo-nos que a humanidade tem vindo a identificar um direito humanitário e um direito dos direitos do homem, que a dignidade humana se salva na face daqueles que não abdicam dos seus deveres.”
António Barbas Homem,
Assinale-se que a 1 de Agosto de 1940 foi instaurado procedimento disciplinar contra Aristides de Sousa Mendes.

efeméride do dia: Primo Levi

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Primo Levi nasceu em Turim, no dia 31 de julho de 1919 (e morreu na mesma cidade, a 11 de abril de 1987). Foi aluno de Norberto Bobbio e de Cesare Pavese, estudou química e formou-se em 1941. Foi feito prisioneiro pela milícia italiana e enviado, por ser judeu, para um campo de prisioneiros, em Fossoli.  Em fevereiro de 1944 foi transportado para Auschwitz-Birkenau e ficou lá onze mezes,  até à chegada do Exército Vermelho. Libertado a 27 de janeiro de 1945, regressou devagar a casa, tendo passado pela Polónia, Ucrânia, Roménia, Hungria, Áustria e Alemanha (ver livro A trégua).  É conhecido pelo seu trabalho sobre o Holocausto – o livro Se Isto É um Homem é considerado um dos mais importantes trabalhos autobiográficos e memorialísticos do século XX. Mas vale apontar O Sistema Periódico, uma coleção de pequenas histórias e dois contos ficcionais relacionados, de algum modo, com os elementos químicos. Realce também para Os Que Sucumbem e Os Que Se Salvam, uma análise do Holocausto.

A narrativa ética de Primo Levi

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Libertação de Auschwitz-Birkenau

Auschwitz
Com a chegada do exército da União Soviética, a 27 de janeiro de 1945, libertaram-se  sete mil prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz. Estima-se que de 1,1 milhões de pessoas foram mortas entre 1940 e 1945, no complexo perto de Cracóvia, no Sul da Polónia.
Nestas comemorações do 70.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, as atenções estarão focadas nos cerca de 300 sobreviventes que passarão pelos portões do antigo complexo de extermínio nazi.
“O 70.º aniversário não será igual aos anteriores grandes aniversários. Temos de dizer de forma clara: é o último grande aniversário que podemos comemorar com a presença de um grande grupo de sobreviventes. As suas vozes tornaram-se no mais importante aviso contra a capacidade humana para a extrema humilhação, desprezo e genocídio”, afirmou Piotr M.A. Cywinski, diretor do Memorial Auschwitz.
A grande maioria dos sobreviventes de Auschwitz-Birkenau tem mais de 90 anos.
Na terça-feira, quando se assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, um dos momentos mais emotivos será quando os sobreviventes passarem pelo denominado ‘Portão da Morte’ (o portão de entrada do complexo), depositarem flores e acenderem velas em frente ao muro do bloco 11 do campo de concentração, conhecido como o Muro da Morte, em memória das vítimas.

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Justiça e “serviço à educação e à memória”

Polónia reabre investigação sobre genocídio em Auschwitz

“O Instituto de Memória Nacional polaco recomeçou a investigar as mortes no campo de concentração de Auschwitz. A investigação tem como objectivo punir os responsáveis pelo extermínio por crimes contra o país.

Durante a Segunda Guerra Mundial foram mortas mais de 1,5 milhões de pessoas no campo de concentração de Auschwitz. Nos anos 60 a Polónia investigou alguns criminosos de guerra nazis, mas acabou por arquivar os processos nos anos 80 por dificuldades em interrogar todos os envolvidos. Não houve nenhuma acusação.

Agora, o Instituto de Memória Nacional (IPN) polaco quer retomar as investigações e punir os responsáveis por crimes contra o país. A decisão surgiu após a Alemanha ter reaberto os processos contra possíveis colaboradores nos campos de concentração.

O principal objectivo do organismo é investigar crimes da era nazi e levar ao banco dos réus os responsáveis pelo genocídio. Piotr Piatek, responsável pelo IPN, acredita que é possível encontrar vivos alguns dos culpados pelo extermínio de mais de um milhão de polacos – judeus e não judeus. Numa das fases da investigação, Piatek admite que o processo de responsabilização vai ser estendido a vários campos de concentração, entre os quais o de Treblinka e o de Sabibor.

Elan Steinberg, vice-presidente da Associação Americana de Sobreviventes do Holocausto e seus Descendentes, defende que “não se trata apenas de uma questão de justiça, mas também um serviço à educação e à memória”. Com a reabertura do processo espera-se “levar ao banco dos réus, embora tardiamente, os responsáveis por tão monstruosos crimes” que marcaram a vida de milhões de pessoas.”

… de efemérides e silêncios

Em cada dia, poderíamos recolher o que esse dia concreto teve de relevante e conhecido (assumindo que há relevantes não assinalados) na história do mundo. Assim, hoje, mas em

37, morreu Tibério, imperador romano.
1800, nasceu Ninko, imperador japonês.
1812, começou a Batalha de Badajoz (16 de Março até 6 de Abril), as forças britânicas e portuguesas cercam e derrotam a guarnição francesa durante a Guerra Peninsular.
1813, a Prússia declarou guerra ao império napoleónico
1877, nasceu Reza Pahlavi, xá do Irão.
1917, Kerenski proclamou a República na Rússia.
1926, Robert Hutchings Goddard lançou com sucesso o primeiro foguete propulsor de combustível líquido do mundo.
1935, Adolf Hitler ordenou o rearmamento da Alemanha, violando o Tratado de Versalhes. A obrigação do serviço militar foi introduzida para a formação da Wehrmacht.
1939, Hitler proclamou a Boémia e a Morávia como protectorados alemães.
1940, morreu Selma Lagerlöf, escritora sueca, Nobel de Literatura em 1909.
1945, terminou a Batalha de Iwo Jima, permanecendo alguns focos de resistência japonesa, durante a II Guerra Mundial; na Europa, 90% da cidade alemã de Würzburg é destruída, com 5.000 mortos, em 20 minutos de bombardeio britânico.
1962, a URSS lançou para o espaço o primeiro satélite da série “Cosmos”.
1966, é o lançamento da Gemini VIII, o 12º voo espacial tripulado dos Estados Unidos e o primeiro a realizar a acoplagem com o módulo Agena.
1978, o petroleiro “Almoco Cadiz” naufragou ao largo da Costa da Bretanha, provocando, com o derrame de 230 mil toneladas de nafta, a maior “maré negra” até então registada
1979, morreu Jean Monnet, considerado um dos pais espirituais da Europa, pelo seu papel na criação da CEE
1986, através de referendo, a maioria dos suíços rejeita a entrada do seu país na Organização das Nações Unidas.
1998, o Papa João Paulo II pede desculpas pela omissão e silêncio de alguns católicos romanos durante o Holocausto.
2001, o único dia entre 1993 e 2002 que ninguém se mata no Reino Unido, de acordo com dados estatísticos da saúde.

Destaco a efeméride do pedido de desculpas pela omissão durante o Holocausto.

Recebi, esta semana, um email sobre o Holocausto, que transcrevo aqui:

” É uma questão de História lembrar que, quando o Supremo Comandante das Forças Aliadas, General Dwight D. Eisenhower encontrou as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fosse feito o maior número possível de fotos, e fez com que os alemães das cidades vizinhas
fossem guiados até aqueles campos e enterrassem os mortos.
E o motivo, ele assim explanou: ‘ Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes – gravem testemunhos – porque, em algum
ponto ao longo da história, algum bastardo se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu’.

‘Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam’. (Edmund Burke)

Relembrando:
Esta semana, o Reino Unido removeu o Holocausto dos seus currículos escolares porque ‘ofendia’ a população muçulmana, que afirma que o
Holocausto nunca aconteceu…
Este é um presságio assustador sobre o medo que está atingindo o mundo, e o quão facilmente cada país está se deixando levar.

Estamos a mais de 60 anos do término da Segunda Guerra Mundial.
Este email está sendo enviado como uma corrente, em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, e 1900
padres católicos que foram assassinados, massacrados, violentados, queimados , mortos de fome e humilhados , enquanto Alemanha e a Rússia
olhavam noutras direcções.
Agora, mais do que nunca, com o Irão, entre outros, sustentando que o ‘Holocausto é um mito’, torna-se imperativo fazer com que o mundo
jamais esqueça.
A intenção em enviar este email, é que ele seja lido por 40 milhões de pessoas em todo o mundo.
Seja um elo desta corrente e ajude a enviar o email para o mundo todo.”

Não gosto particularmente de correntes. Mas este é um libelo pela memória…

Verifiquei a veracidade da afirmação, naturalmente. Daily Mail, notícia.

E como também há relutância em falar das Cruzadas, podemos pensar que qualquer dia se apague igualmente a Inquisição. Ou outros momentos, por alguma razão, politicamente «embaraçosos»….

(imagem: Memorial das Vítimas do Holocausto, Berlim)

vale a pena passar por aqui, Forget You Not