“Estratégias Promotoras da Integridade Académica e Científica: Instituições de Ensino Superior em Portugal”

As questões éticas emergem em todas as dimensões da vida e atividade humanas e cada um precisa “de pontos de orientação, que lhe permitam encontrar um rumo, dirigir a sua vida num dado sentido, dito de outro modo, precisa de critériosde escolha que lhe permitam optar pordeterminadas acções em detrimento de outras”1.

Quando dirigimos a nossa atenção para o Ensino Superior, nos cenários complexos de contextos e desafios da contemporaneidade, é relevante que atentemos a diversos planos de atividade -ensino, investigação, relação com a envolvente, transferência do conhecimento -e sejamos capazes de identificar princípios e valores, que guiem as nossas condutas.

Frequentemente, essa identificação conduz à materialização em documentos, comumente designados «códigos». E se, por vezes, se usa indiferentemente a expressão «Código de Ética» ou «Código de conduta», representam abordagens diferentes. Por Código de Ética entende-se a declaração de valores e princípios que orientam as tomadas de decisão; o Código de conduta aplica às ações, identificando comportamentos que são necessários ou interditos. Se ambos podem ser utilizados para a regulação da ação, os padrões éticos são amplos e inespecíficos, requerendo que cada um ajuíze sobre o que pode ser mais adequado na situação; os de conduta, genericamente, prescrevem ações e requerem pouco julgamento.

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Estabelecemos como objetivos proceder a uma recolha dos documentos existentes a nível nacional, analisá-los de forma a elencar as estratégias e procedimentos utilizados. Considerando a dimensão preventiva, optámos por identificar e analisar os Códigos de Ética e de Conduta Ética das Instituições de Ensino Superior em Portugal, no respeitante a estrutura, conteúdos sobre integridade e práticas ilícitas descritas; em sequência, a questão da violação do Código e a dimensão sancionatória, que nos remeteu para os regulamentos disciplinares. A estrutura deste relatório segue as etapas realizadas, sendo genericamente constituído por um enquadramento, a identificação e análise dos documentos relativos a integridade académica e científica das Instituições de Ensino Superior em Portugal, identificação das estratégias, com a respetiva caracterização, sistematização e discussão dos achados e aprodução de síntese sobre as estratégias promotoras da integridade académica e científica.Noapêndice1, colocamos o Caderno de recolha de dados relativos a códigos de Ética ou de Conduta nas Instituições de Ensino Superior, o modelo de recolha para cada instituição; no apêndice 2, a colheita de dados relativa a regulamentos disciplinares ou disposições disciplinares.

 

 

Artigo no “Expresso” : fraude académica

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“O maior inquérito alguma vez realizado em Portugal sobre esta matéria, que abrangeu 7292 alunos de 101 faculdades e institutos politécnicos, é revelador: dois em cada três deixam os colegas copiar e 52% admitem fazê-lo eles próprios.

“Há uma cultura de fraude que é permitida no ensino superior em Portugal. O grau de tolerância demonstrado em relação a este fenómeno é muito superior ao que existe noutros países europeus, nomeadamente os nórdicos, e aproxima-se dos valores obtidos na América Latina”, diz ao Expresso Filipe Almeida, coordenador do estudo “A Fraude Académica no Ensino Superior em Portugal”, concluído no ano passado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e esta terça-feira lançado em livro.

Apesar de estar muito disseminada, a predisposição para o plágio e para a fraude académica não é igual em todos. Os rapazes têm mais propensão para copiar do que as raparigas e, no geral, os mais cábulas são os estudantes oriundos de meios mais favorecidos, filhos de pais com maiores habilitações académicas e rendimentos mais elevados.

“Uma das explicações tem a ver com a pressão para o sucesso, que é um dos fatores mais apontados pelos estudantes como justificação para a fraude. O filho de um médico ou de um engenheiro, por exemplo, sente-se provavelmente mais pressionado a ter boas notas do que um aluno filho de pais com baixas habilitações, que se calhar é o primeiro da família a chegar à universidade. Acabar o curso, independentemente da média, pode já ser visto como suficiente pelos familiares desse aluno, o que diminui a pressão”, explica o investigador.

Além da exigência de conseguir boas médias, os estudantes apontam a carga excessiva de trabalho como desculpa para copiar num exame ou plagiar um trabalho académico na internet.

No estudo, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, foram inquiridos estudantes de 182 cursos diferentes, entre licenciaturas e mestrados. E não saem todos iguais na fotografia: por áreas, os alunos de Engenharias são os menos “fotogénicos”, ou seja os que revelaram maior predisposição para usar cábulas e copiar pelos colegas. Já os de Direito parecem ser os mais “compostinhos”, isto é os que apresentam valores mais baixos de propensão para a fraude.

Já a predisposição dos estudantes para denunciar colegas que copiam é praticamente inexistente em todas as áreas. Ainda assim, é também entre os alunos de Direito que é mais elevada.

Os diferentes tipos de fraude não são alvo do mesmo nível de censura. Comprar um trabalho académico a um colega é a prática que os estudantes consideram mais grave e inaceitável. Já apresentar o mesmo trabalho em várias disciplinas, sem avisar o professor, não é particularmente mal visto.

De acordo com os resultados do inquérito, a criação de uma relação de maior proximidade entre alunos e professores e o aumento da gravidade das penas associadas a estas práticas são apontados pelos estudantes como os fatores que mais poderão contribuir para diminuir o copianço e outras formas de fraude académica.

“Não é que as penas previstas no regulamento da maior parte das instituições sejam leves. Até podem levar à expulsão. A questão é que praticamente nunca são aplicadas”, critica Filipe Almeida.

O coordenador do estudo, que também inquiriu 2727 professores, considera que, nesta matéria, as faculdades e institutos politécnicos também têm muitas culpas no cartório. “As instituições não parecem muito comprometidas com o combate à fraude académica. Os docentes são sobretudo avaliados pela sua atividade como investigadores e não tanto pela sua atividade pedagógica, o que faz com que haja uma certa desvalorização do que se passa na sala de aula”, lamenta.

Números:
65,3%  dos alunos admitem que deixam colegas copiar
52,2% dos alunos admitem copiar por colegas
44% admitem usar cábulas nos exames
38,9% admitem copiar da internet, se precisarem de fazer um trabalho para o qual não sabem o suficiente ou têm pouco tempo

artigo Expresso

Os dados são preocupantes e alguns aspetos parecem realmente críticos (assinalei a negrito no texto do artigo).

 

integridade académica

copy paste

Este artigo (Ética e integridade na pesquisa: o plágio nas publicações científicas, Revista da AMRIGS, Porto Alegre, 57 (3): 240-245, jul.-set. 2013) é de âmbito geral, diria – pode ser que seja útil, pese embora se refira a entidades e ao percurso da preocupação da integridade académica no Brasil.  “Os Research Councils UK (20) definem plágio como “apropriação indevida ou uso das ideias, propriedade intelectual ou trabalho (escrito ou de outra forma expresso) de outrem, sem o seu conhecimento ou permissão”. Aqui, nesta definição, é curioso perceber que há referência tanto às ideias quanto à propriedade intelectual, de forma separada, como objeto passível de violação através do plágio. De todos os conceitos internacionais apresentados, verifica-se que a violação de ideias configura plágio.

Gosto partircularmente da explicitação de plágio no documento “Declaração de Princípios sobre Integridade Académica da Universidade do Porto“:

“Consideram-se incluídas no conceito de fraude académica e conduta académica imprópria as seguintes situações: (…)
2. Recorrer ao plágio, isto é, apropriar-se indevidamente da obra intelectual de outra pessoa, assumindo a autoria da mesma sem colocar os créditos para o autor original, incluindo:
• Copiar o trabalho de outrem, de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual, programa de computador, derivações matemáticas, etc.,) ainda que parcialmente, publicado ou não, incluindo apontamentos das aulas ou de outros trabalhos dos estudantes, sem referenciar o autor original;
• Transcrever literalmente o trabalho de outrem sem referenciar devidamente a fonte;
• Parafrasear o trabalho de outra pessoa, com pequenas mudanças de palavras ou frases, ou mudança da ordem do texto original, sem referenciar devidamente a fonte;
• Traduzir ou parafrasear textos de outra língua para a própria sem identificar com rigor esse facto;
• Utilizar ideias de outra pessoa sem referir a fonte;
• Copiar diretamente da lnternet, compondo um pasticho de fontes online, sem referenciar devidamente as fontes;
• Utilizar o trabalho produzido por outra pessoa como parte, parcial ou total, de trabalho por si submetido, sem identificar claramente o autor daquele trabalho (aqui inclui-se, por exemplo, a utilização de trabalhos encomendados a agências profissionais ou a não atribuição da autoria a outros que também contribuíram no âmbito de um projeto conjunto);” (p.1-2)

Por mais que um orientador reveja e corrija, é possível, ainda assim, que haja texto-de-copy-paste-sem-aspas, que lhe escape. O que tanto significa que há estudantes (de qualquer ciclo, seja 1º, 2º ou 3º) que persistem em fazer-se de pouca confiança como obriga a aumentar o leque dos meios de controle (e estou a pensar em software específico)  – se bem que pôr a confiança em causa talvez seja o maior dos danos.

Face ao princípio de integridade académica, importa distinguir: o papel do autor, a tarefa do professor e a aferição das consequências. O autor é de importância central e tudo depende do modo como age, como materializa o rigor, a fidelidade, a integridade. A tarefa do professor é reprovar o trabalho ou o exame, assim seja identificado plágio (aqui, coloca-se a interogação candente a todos os professores e orientadores de trabalhos: será que identificámos?) Finalmente, a questão das consequências, ou seja, das sanções associadas à violação dos princípios da integridade académica e científica. Eventualmente, serve de pouco definir uma regra se o seu incumprimento não tem consequências (deveria ser sancionado e não apenas sancionável). Ainda que seja imprescindível uma pedagogia precoce, pois será mais difícil apropriar-se do sentido de integridade académica quando o conceito não se desenvolveu desde o ensino básico e secundário, nem se requereram fontes e identificação de citações desde o início da escolaridade.

jornalista “out of the box”….

Muito interessante cruzar os dois artigos:

Who’s Afraid of Peer Review?

By the time Science went to press, 157 of the journals had accepted the paper and 98 had rejected it. Of the remaining 49 journals, 29 seem to be derelict: websites abandoned by their creators. Editors from the other 20 had e-mailed the fictitious corresponding authors stating that the paper was still under review; those, too, are excluded from this analysis. Acceptance took 40 days on average, compared to 24 days to elicit a rejection.

Of the 255 papers that underwent the entire editing process to acceptance or rejection, about 60% of the final decisions occurred with no sign of peer review. For rejections, that’s good news: It means that the journal’s quality control was high enough that the editor examined the paper and declined it rather than send it out for review. But for acceptances, it likely means that the paper was rubber-stamped without being read by anyone.

Of the 106 journals that discernibly performed any review, 70% ultimately accepted the paper. Most reviews focused exclusively on the paper’s layout, formatting, and language. This sting did not waste the time of many legitimate peer reviewers. Only 36 of the 304 submissions generated review comments recognizing any of the paper’s scientific problems. And 16 of those papers were accepted by the editors despite the damning reviews.

Falso artigo científico aceite para publicação por mais de 150 revistas de acesso livre,

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copy-paste com consequências

Farred Zakaria suspended for plagiarism: Time Editor,  CNN host apolofiges for “terrible mistake”

Time accepts Fareed’s apology, but what he did violates our own standards for our columnists, which is that their work must not only be factual but original; their views must not only be their own but their words as well. As a result, we are suspending Fareed’s column for a month, pending further review.

This is not the first time Zakaria has come under ethical fire. Columnist Jeffrey Goldberg accused him of lifting quotes without attribution in 2009. He also caused controversy for his series of off-the-record conversations with President Obama, though he said they were no different than those the president held with any other journalist.

aqui

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Por aqui, já várias vezes parei neste assunto. Quando as aspas caem ou há uns anos formas de fraude: cópia e plágio. Continua a ser um dos tópicos que me indigna (e inquieta?) e aborrece. É bem bom que haja uma suspensão internacionalmente falada e difundida… às vezes, também se vai pelo peso das consequências….

Vale ler o artigo pelo modo como foi redigido, apelando aos standards da Time, sem juízo de valor, sem subjetivação…

quando as aspas caem… ou da cópia e plágio

O assunto já andou por aqui, há uns anos, com “formas de fraude: cópia e plágio” e “pecados mortais dos estudantes: a desonestidade“. Voltemos a ele, porque renasce de vez em quando (uma espécide de fénix indesejável…).

Um destes dias estava a ler um trabalho e as frases, de repente, passaram a ler-se de outra forma, no concreto, mais eruditas, mais profundas. Voltei atrás, reli… Algo ali não parecia ser «do estilo», por isso, fiz copy de duas linhas  (pois, leio ficheiros), abri o Google, fiz paste e pesquisar… Et voilá, lá estava, lindinho um pdf e dois parágrafos integrais reproduzidos. Verifiquei as referências do trabalho que estava a ler – aquele texto nem constava. Portanto, as aspas caíram e a memória da consulta e do copiar-colar também. Umas folhas adiante, o episódio repetiu-se, inteiramente. Com outro pdf, parágrafos reproduzidos, autores não referidos.

Nesta alturas fico principalmente indignada – em primeiro, pela desonestidade e pela evidência de algo que considero inaceitável; depois, pela falta de confiança em si mesmo que assume estes contornos bacocos e, em terceiro, pela eventual ideia subjacente que o leitor (ao caso, professor) não detetará e há uma elevada probabilidade de passar incólume.  A repetição, no mesmo trabalho, deste estilo de comportamento, reforça esta ideia de passar despercebido e de se diluir ao longo do texto. A seguir, interrogo quantas vezes isto poderá ter acontecido, neste ou noutros casos, sem [eu] ter dado conta. A impunidade alimenta o crime?

Modos de alerta

O que pode ser novo, nas leituras recentes, não é o assunto. Mas os modos como se vai lidando com ele, em diferentes realidades. Folhetos, panfletos, brochuras, declarações…

Mitos comuns acerca da desonestidade académica

1. Everyone cheats, so it can’t be wrong.
2. In the real world, cheaters prosper and honest people lose.
3. If my teacher grades on a curve, I have to cheat to protect myself since it is certain that other
students will cheat.
4. I need to get good grades to please my parents and get into graduate school or get a good job.
5. My class is so large; I probably won’t get caught cheating.
6. UCSB is a laid-back school – no one really gets in trouble for cheating or plagiarizing here.
Academic Integrity is an important value at UCSB. In 2004-2005, 112 students were referred to the Office of Judicial Affairs for academic dishonesty (cheating or plagiarism). Of those 112 students, 33 were suspended from UCSB for one or more quarters. Many others received academic sanctions, such as an F in their course or on the assignment.

Academic integrity: student’s guide

O que é desonestidade académica?

Política de integridade académica
de onde destaco as oito regras cardinais:

1. Know Your Rights.
Do not let other students in your class diminish the value of your achievement by taking unfair advantage. Report any academic dishonesty you see.
2. Acknowledge Your Sources.
If you use words or ideas that are not your own when writing a paper, use quotation marks where appropriate and cite your source in a footnote, and back it up at the end with a list of sources consulted.
3. Protect Your Work.
In examinations, do not allow your neighbors to see what you have written. You are the only one who should receive credit for what you know.
4. Avoid Suspicion.
Do not put yourself in a position where you can be suspected of having copied another person’s work or of having used unauthorized notes in an examination. Even the appearance of dishonesty may undermine your instructor’s confidence in your work.
5. Do your own work.
The purpose of assignments is to develop your skills and measure your progress. Letting someone else do your work defeats the purpose of your education and may lead to serious charges against you.
6. Never falsify a record or permit another person to do so.
Academic records are regularly audited and students whose grades have been altered put their entire transcript at risk.
7. Never fabricate data, citations or experimental results.
Many professional careers have ended in disgrace, even years after the fabrication first took place.
8. Always tell the truth when discussing your work with your instructor.
Any attempt to deceive may destroy the relation of teacher and student.

dar conta de…

Informa o MJM:
O Observatório da Magna Charta Universitatum está a solicitar eventuais contribuições sobre integridade académica aos seus assinantes e simpatizantes.
Essas contribuições, formatadas segundo um modelo disponível em documento anexo, devem ser enviadas até 18 de Maio do corrente ano. O texto de apoio, em colaboração com a ESIB, é o seguinte: Observatório (2007). Academic Malpractice Threats and Temptations. BUP, Bologna, (pp. 106).

Deixo também aqui o link para Academic Malpractice Threats and Temptations
An Essay of the Magna Charta Observatory and The National Unions of Students in Europe (ESIB) Observatory for Fundamental University Values and Rights

VALE A PENA LER.. mesmo! Apesar ou por causa da extensão e das perspectivas apresentadas.

Statement of Concern
A document of the Observatory Collegium and ESIB Executive Board

Why?

Academic freedom and institutional autonomy are no gifts from heaven but rights enabling universities to
contribute responsibly to a changing and increasingly international society. Independence of thought, capacity of initiative and governance probity shape the institution’s credibility, and justify the trust the community puts in its education and research activities.

Respectability is the first victim of laxity, opportunism and partiality. And confidence lost is hard to regain. That is why the Magna Charta Observatory and the European Unions of Students feel particularly concerned by academic misconduct, a social cancer that jeopardises the university’s raison d’être – and makes nonsense of the Magna Charta principles solemnly endorsed by more than 500 universities, either in 1988, at the occasion of the 900th anniversary of the University of Bologna, or later.

The use of an official function to obtain personal advantages is a permanent temptation, in the universities as in any other institution. The consequences are greater in higher education, however, since the ‘products’ of a university are judged mainly on the credit of its services, courses, degrees or innovative projects and ideas. For social purposes, visibility is more important than content. Integrity thus becomes the touchstone of the university’s presence in society.

The integrity of university members – teachers,researchers, students and staff – is not a question of individual ethics only, since the institution as such can also be susceptible to shortcuts in order to obtain quick rewards, under the pretext of necessity; or because society encourages a system of exchanges – in kind or in repute – that mixes social positioning with intellectual recognition.

(continuar a ler)

egrcontributos para a integridade

Li no Que Universidade? do MJMatos, que

o

O Observatório da Magna Charta Universitatum está a solicitar eventuais contribuições sobre integridade académica aos seus assinantes e simpatizantes. Essas contribuições, formatadas segundo um modelo disponível em documento anexo, devem ser enviadas até 18 de Maio do corrente ano. O texto de apoio, em colaboração com a ESIB é o seguinte:

Observatório (2007). Academic Malpractice Threats and Temptations. BUP, Bologna, (pp. 106).

Ora aí está uma oportunidade de transformar conversas em actos 🙂

formas de fraude: cópia e plágio


















(R. Magritte: “Il plagio”)

Já andámos por este assunto, sob o título indignos, e volta à berlinda com o Diário de Notícias, hoje.

Um inquérito aplicado em dez universidades públicas portuguesas, a “cerca de 2700 alunos, dos cursos de Gestão e Economia de todo o País”, inquiridos entre Março e Dezembro de 2005, demonstra que:
1) mais de 60% dos estudantes universitários admitem copiar nos exames.
2) existem diferenças regionais acentuadas – os alunos do Alentejo são os que mais dizem cometer fraudes académicas, com 75% a admitirem que copiam algumas vezes, contra os dos Açores, com metade dos inquiridos a afirmar que nunca usa cábulas nas provas, e o Algarve, pois que “mais de 45% dos alunos provenientes do Sul do País dizem nunca copiar e os que afirmam fazê-lo sempre são inferiores a 1%”
3) “apenas 5% dos alunos admitiram que foram surpreendidos a cometer fraudes durante a realização de provas”.

O estudo enquadra-se numa tese de doutoramento cujo objectivo é “analisar a magnitude da fraude académica e as determinantes deste fenómeno, analisando especificamente a questão regional“.
A tendência para copiar é maior nos alunos com médias entre os 10 e 12 valores – em que 64,8% admitem copiar. A percentagem de cábulas desce para quase metade nos estudantes com médias superiores a 16 valores“.

Para além das diferenças regionais, as investigadoras assinalam que existe igualmente discrepância entre os anos do curso. Ou seja, são os “finalistas” que tendem a copiar mais. Quanto mais se aproxima o fim da licenciatura, mais cresce a tendência para usar meios fraudulentos para passar nos exames.”

Só 11,3% consideram que o tema é “sério” e cerca de um terço assinala que merece “alguma atenção”. As investigadoras defendem que “ser apanhado a copiar não acarreta sanções sérias, fora da sala de exame” e que as penalizações “não têm um efeito eficiente”. O exame é anulado e o aluno chumba, “o que aconteceria na mesma, caso não tivesse copiado, porque não tinha estudado”, explicam. O estudo demonstra ainda que existe um “ambiente favorável” à cópia e que isso favorece a prática entre os alunos.”

Olhar para o exame do colega do lado, levar um “auxiliar de memória” ou preparar antecipadamente respostas para o teste, substituindo depois a folha de exame – estas são algumas das práticas usadas por alunos que copiam.”

Vejo que o estudo foi realizado nos Cursos de Gestão e Economia.
Como será na Saúde? penso. Semelhante? ou porque as notas de acesso superiores a 16, isso faz diferença (e coloca-os nesse grupo)? ou… ? ou….

Posto isto, preocupa-me o ambiente favorável à cópia e a “banalização” do assunto.
Considero que, além da injustiça, do desrespeito e do autoengano, ainda me faltam epítetos para os faltosos. Socialmente, a esperteza até é bem vista, sobretudo quando engana sem ser apanhada. E se o clima é favorável, os fungos proliferam (na fraude académica como em outras?). Com os panoramas mais pessimistas do futuro, ser duro numa instituição de ensino superior pode vir a afastar «clientes»? Todavia, este género de “brandura” não o é mas antes corrupção de bons costumes – diria Antero, «causas de decadência».

Conversamos?!

Indignos


silhueta Posted by Hello

Andei lendo post’s e comentários acerca do copiar num exame.
Revista de imprensa in http://queuniversidade.weblog.com.pt/
Provocação in http://bioq.weblog.com.pt/
Um dos vícios que tem de mudar com Bolonha, in http://memoflu.blogspot.com
Banalmente, concordo com a generalidade das afirmações.
E fui pensando que a questão decorreu não de ter copiado mas de ter sido (eventualmente, sejamos prudentes) apanhado a copiar.

Ao passar há bocadinho pela “provocação” do MJM, lembrei-me de linkar a este assunto uma coisa que me parece tão ou mais (estarei a exagerar?!) comum.
A história do copy-paste, em situação integral de apropriação, é da mesma natureza do copiar?! Diria que sim…

Costuma acontecer-me sobretudo no primeiro ano: ao ler um trabalho, seja uma recensão ou uma revisão bibliográfica, dou de caras com um excerto conhecido.
Aliás, deverei dizer que quando que me aparece algo «meio estranho», seja um nome ou um parágrafo inteiro, faço uma pesquisa rápida… E depois, às vezes, lá está – parágrafos inteiros, excertos de sites (integrais, sim).
Interrogo «e a fonte?! esqueceu-se das aspas».
Ah, o aluno esqueceu-se, não era costume, sempre fez os trabalhos assim…
(estamos a falar de alunos entre 17 a 19 anos e ingresso ao ensino superior com notas superiores a 15,9).

De véspera, em corrida, foi uma forma de resolver o problema.
De responder ao prazo.
Lembro a cara de um aluno a quem perguntei se tinha assim tão pouco respeito por si próprio, que achasse que não era capaz de escrever aquelas ideias por si mesmo.

Suponho que tal coisa nunca lhe tinha cruzado o espírito!

Será difícil perceber que o respeito pelos outros passa por reconhecer o que é deles (e, naturalmente, não é nosso)?

Estou firmemente convencida que, em querendo, as suas capacidades os levarão a transformar ideias quando necessário (e a usar as referências) e a encontrar as aspas num teclado, quando a citação é ipsis verbis.
Também estou convicta que há professores pouco atentos a estas matérias… o que não deveria acontecer. E os alunos, bom, lá vão andando…

Cultura do fácil e do «à mão»? Do resultado sem esforço de processo?…
(pois, para quê mudar de estilo, se as notas são boas?)
Do cântaro que costuma ir à fonte?… Concordo com MJM, que é um comportamento aditivo. Porque é que não havia de ser? resulta, ainda por cima…

A seguir, interrogo:
e quando não são do primeiro ano? e quando são profissionais e enviam um artigo para publicação? e quando estão a escrever uma tese?
Indigno, na mesma? Pior, porque in-suposto? E já não se trata de, a curto prazo, tentar superar um obstáculo de forma im-peparada…
Será semelhante o que subjaz?