Of travel (F. Bacon, 1915)

TRAVEL, in the younger sort, is a part of education, in the elder, a part of experience. (…)  The things to be seen and observed are: the courts of princes, especially when they give audience to ambassadors; the courts of justice, while they sit and hear causes; and so of consistories ecclesiastic; the churches and monasteries, with the monuments which are therein extant; the walls and fortifications of cities, and towns, and so the heavens and harbors; antiquities and ruins; libraries; colleges, disputations, and lectures, where any are; shipping and navies; houses and gardens of state and pleasure, near great cities; armories; arsenals; magazines; exchanges; burses; warehouses; exercises of horsemanship, fencing, training of soldiers, and the like; comedies, such whereunto the better sort of persons do resort; treasuries of jewels and robes; cabinets and rarities; and, to conclude, whatsoever is memorable, in the places where they go. After all which, the tutors, or servants, ought to make diligent inquiry. As for triumphs, masks, feasts, weddings, funerals, capital executions, and such shows, men need not to be put in mind of them; yet are they not to be neglected. (…) When a traveller returneth home, let him not leave the countries, where he hath travelled, altogether behind him; but maintain a correspondence by letters, with those of his acquaintance, which are of most worth. And let his travel appear rather in his discourse, than his apparel or gesture; and in his discourse, let him be rather advised in his answers, than forward to tell stories; and let it appear that he doth not change his country manners, for those of foreign parts; but only prick in some flowers, of that he hath learned abroad, into the customs of his own country.

Francis Bacon, Of Travel, 1815

Citação do dia

“A ponte é uma escada entre duas margens, não a margem da esquerda e a margem da direita mas a margem de cima e a margem que fica em baixo (…) Uma escada tem dois limiares, define duas portas, a do primeiro e do último passo, não importa se a sobes, se a descesm porque haverá sempre um primeiro e um último passo. Cada degrau implica um esforço, uma tensão, um esticar de corda no arco do corpo, que se curva em obediência para onde vai”

Tiago Salazare, A carta de Istambul, 2016.

Prémio Livro do Ano Bertrand 2017 – Elena Ferrante

O romance História da Menina Perdida, de Elena Ferrante, publicado em 2016 pela Relógio d’Água, é o vencedor do Prémio Livro do Ano Bertrand, conforme divulgado esta semana.

A criação, pela rede de livrarias Bertrand, do Prémio Livro do Ano Bertrand, foi anunciada em Dezembro de 2016, sendo um galardão votado por leitores e livreiros.

O prémio distingue “uma obra em prosa, seja romance, conto ou novela, editada no nosso país ao longo do último ano”, sendo o júri “composto por todos os livreiros da rede Bertrand, que desempenham um papel fundamental na promoção diária do livro e da leitura, e pelos leitores, oferecendo-lhes a oportunidade de distinguir os livros que mais os marcaram em cada ano”, explicou a rede livreira em comunicado.

Elena Ferrante é pseudónimo de uma escritora italiana, cuja identidade permenece secreta, apesar de diversos esforços (e artigos) de jornalistas. Concedeu poucas entrevistas, todas por escrito e respondidas por intermédio das editoras italianas. Explicou que optou pelo anonimato para poder escrever livremente e para que a receção dos seus livros não seja influenciada por uma imagem pública.

“O caminho das minhas obras é o meu caminho.” E “Os leitores contentam-se com ele, aliás, alguns até me escrevem pedindo que não revele nunca outros caminhos mais privados e, por isso, menos interessantes. Os meios de comunicação é que, por dever de ofício, não se contentam com as obras, querem caras, personagens, protagonistas excêntricos. Mas pode-se passar tranquilamente sem o que os meios de comunicação pretendem.”

Especula-se que tenha nascido em Nápoles, por volta de 1943; apresenta um sólido conhecimento dos autores clássicos gregos e latinos; crê-se que tem filhos, que talvez tenha vivido na Grécia. Apenas uma certeza: publicou em 1991 o primeiro romance, L’amore molesto (Um Estranho Amor), bem recebido e o “quarteto napolitano”, uma tetralogia, foi um verdadeiro sucesso

  • A amiga genial – no original L’amica geniale, 2011;
  • História do novo nome – no original Storia del nuovo cognome, 2012;
  • História de quem foge e de quem fica – no original Storia di chi fugge e di chi resta,  2013;
  • História da Menina Perdida – no original Storia della bambina perduta, 2014.

Em segundo lugar, ficou Vaticanum, de José Rodrigues dos Santos, editado pela Gradiva, e,

em terceiro lugar, O Evangelho Segundo Lázaro, de Richard Zimler, da Porto Editora.

Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz, da Companhia das Letras, em quarto lugar,

Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe, da Porto Editora, em quinto,

Uma Terra Chamada Liberdade, de Ken Follett, da Editorial Presença, em sexto, e

Doutor Sono, de Stephen King, da Bertrand Editora, em sétimo.

Segue-se o romance As Areias do Imperador, de Mia Couto, da Editorial Caminho, em oitavo lugar,

Prometo Perder, de Pedro Chagas Freitas, da Marcador, na nona posição,

e em décimo lugar Como Vento Selvagem, de Sveva Casati Modignani, da Porto Editora.

Citação do dia

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“Cada vez estou mais convencido que o mundo me quer dizer qualquer coisa, enviar-me mensagens, avisos, sinais. (…) Há dias em que cada coisa que vejo me parece prenhe de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir em palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que dizem respeito a mim mesmo e simultaneamente ao mundo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas aquilo que acontece dentro, no fundo, e do mundo não um qualquer facto singular mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem portanto a minha dificuldade em falar de tudo isto, a não ser por alusões.”
Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante
“Debruçando-se da Encosta Íngreme”

Citação (longa) do dia

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“Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. (…) Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.”

(…)

Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de pés soerguidos, porque senão torna a calçá-los. E agora não fiques por aí e sapatos numa mão e livro na outra. Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses em mexer-te. Arranja-te de maneira que a página não fique na sombra, um emaranhado de  letras negras sobre fundo cinzento, uniformes como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata de chapa uma luz demasiado forte e que não se reflicta no branco cru do papel roendo as sombras dos caracteres como num meio-dia do Sul. Tenta prever agora tudo o que puder evitar-te o interromper da leitura. Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.

(…)

Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha dos baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para  Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiados Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, Dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos, avanças para diante das torres do reduto, onde te opõem resistência

os Livros Que Há Muito Programaste Ler,

os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,

os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Ocupas Neste Momento,

os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,

os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,

os Livros Que Te Faltam Para Pôres Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,

os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina, Frenética E Não Claramente Justificada.

E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Sempre Que Leste E Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo.”

 

 

The Idea of Europe, George Steiner

 

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The Idea of Europe
by George Steiner

Lightning-rods have to be grounded. Even the most abstract, speculative of ideas must be anchored in reality, in the substance of things. What, then, of ‘the idea of Europe’?

Europe is made up of coffee houses, of cafés. These extend from Pessoa’s favourite coffee house in Lisbon to the Odessa cafés haunted by Isaac Babel’s gangsters. They stretch from the Copenhagen cafés which Kierkegaard passed on his concentrated walks, to the counters of Palermo. No early or defining cafés in Moscow, which is already a suburb of Asia. Very few in England after a brief fashion in the eighteenth century. None in North America outside the gallican outpost of New Orleans. Draw the coffee-house map and you have one of the essential markers of the ‘idea of Europe’.

The café is a place for assignation and conspiracy, for intellectual debate and gossip, for the flâneur and the poet or metaphysician at his notebook. It is open to all, yet it is also a club, a freemasonry of political or artistic-literary recognition and programmatic presence. A cup of coffee, a glass of wine, a tea with rum secures a locale in which to work, to dream, to play chess or simply keep warm the whole day. It is the club of the spirit and the poste-restante of the homeless. In the Milan of Stendhal, in the Venice of Casanova, in the Paris of Baudelaire, the café housed what there was of political opposition, of clandestine liberalism. Three principal cafés in imperial and inter-war Vienna provided the agora, the locus of eloquence and rivalry, for competing schools of aesthetics and political economy, of psychoanalysis and philosophy. Those wishing to meet Freud or Karl Kraus, Musil or Carnap, knew precisely in which café to look, at which Stammtisch to take their place. Danton and Robespierre meet one last time at the Procope. When the lights go out in Europe, in August 1914, Jaurès is assassinated in a café. In a Geneva café, Lenin writes his treatise on empirio-criticism and plays chess with Trotsky.

Note the ontological differences. An English pub, an Irish bar have their own aura and mythologies. What would Irish literature be without the bars of Dublin? Where, if there had not been the Museum Tavern, would Dr. Watson have run into Sherlock Holmes? But these are not cafés. They have no chess-tables, no newspapers freely available to clients on their hangers. It is only very recently that coffee itself has become a public habit in Britain, and it retains its Italian halo. The American bar plays a vital role in American literature, in the iconic charisma of Scott Fitzgerald and Humphrey Bogart. The history of jazz is inseparable from it. But the American bar is a sanctuary of dim lightning, often of darkness. It throbs with music, often deafening. Its sociology, its psychological fabric are permeated by sexuality, by the presence, hoped for, dreamt of or actually of women. No one writes phenomenological tomes at the table of an American bar (cf. Sartre). Drinks have to be renewed if the client is to remain welcome. There are ‘bouncers’ to expel the unwanted. Each of these features defines an ethos radically different from that of the Café Central or the Deux Magots or Florian. “There will be mythology so long as there are beggars”, said Walter Benjamin, a passionate connoisseur of and pilgrim among cafés. So long as there are coffee houses, the ‘idea of Europe’ will have content.

Europe has been, is walked. This is capital. The cartography of Europe arises from the capacities, the perceived horizons of human feet. European men and women have walked their maps, from hamlet to hamlet, from village to village, from city to city. More often than not, distances are on a human scale, they can be mastered by the traveller on foot, by the pilgrim to Compostela, by the promeneur, be he solitaire or gregarious. There are stretches of arid, forbidding terrain; there are marshes; alps tower. But none of these constitute a terminal obstacle. Europe has no Death Valley, no Amazonia, no ‘outback’ intractable to the traveller.

This fact determines a seminal relationship between European humanity and its landscape. Metaphorically, but materially also, that landscape has been moulded, humanised by feet and hands. As in no other part of the globe the shores, fields, forests and hills of Europe, from La Coruña to St Petersburg, have been shaped not so much by geological as by human-historical time. At the glacier’s edge sits Manfred. Chateaubriand declaims on the rocky headlands. Our acres, be they under snow or in the yellow noon of summer, are those experienced by Bruegel or Monet or Van Gogh. The darkest woods have nymphs or fairies, literate ogres or picturesque hermits in them. The voyager seems never to be altogether out of reach of the church-bell in the next village. From time immemorial, rivers have had fords, fords also for oxen, ‘Oxfords’, and bridges to dance on as at Avignon. The beauties of Europe are wholly inseparable from the patina of humanised time.

Again, the difference from North America, let alone so much of Africa and Australia, is radical. One does not go on foot from one American town to the next. The deserts of the Australian interior, of the American south-west, the ‘great woods’ of the Pacific states or of Alaska, are virtually impassable. The magnificence of the Grand Canyon, of the Florida swamps, of Ayer’s Rock in the Australian vastness, is that of tectonic, geological dynamics almost menacingly irrelevant to man. Hence the feeling, often voiced by tourists to Europe from the New World or ‘down under’, that European landscapes are manicured, that their horizons suffocate. Hence the feeling that the American, South African and Australian ‘big skies’ are unknown to Europe. To an American eye, even European clouds can seem domesticated. They are so crowded with ancient deities in Tiepolo costumes.

Integral components of European thought and sensibility are, in the root sense of the word, pedestrian. Their cadence and sequence are those of the walker. In Greek philosophy and rhetoric, the peripatetics are, literally, those who travel on foot from polis to polis, whose teachings are itinerant. In western metrics and poetic conventions, the ‘foot’, the ‘beat’, the enjambment between verses or stanzas remind us of the close intimacies between the human body as it paces the earth and the arts of imagining. Much of the most incisive theorizing is generated by the act of walking. Immanuel Kant’s daily Fußgang, his chronometrically precise traverse of Koenigsberg, became legend. The meditations, the rhythms of perception in Rousseau are those of the promeneur. The extensive rambles of Kierkegaard through Copenhagen and its suburbs proved to be a public spectacle and the object of caricature. But it is these rambles, with their diversions, their abrupt changes of itinerary and gait, which are reflected in the syncopations of his prose.

(…)

The ambiguous weight of the past tense in the idea and substance of Europe derives from a primordial duality. This is my fourth axiom: the twofold inheritance of Athens and Jerusalem. This relationship, at once conflictual and syncretic, has engaged European theological, philosophic and political argument from the Church Fathers to Leon Chestov, from Pascal to Leo Strauss. The topos is as rich and urgent today as it ever was. To be a European is to attempt to negotiate – morally, intellectually and existentially – the rival ideals, claims, praxis of the city of Socrates and of that of Isaiah.

The seminal role of Hellas is manifest. Three myths, which are among the most ancient in our culture, tell of the origins and mystery of music. What is arresting is the perception in archaic Greece, via the tales of Orpheus, of the Sirens and of the murderous contest between Apollo and Marsyas, of the elements in music beyond rational humanity, of the power of music to madden and destroy. Our mathematics have been ‘Greek’ at least until the proposal of non-Euclidean geometries and the crisis of the axiomatic implicit in Gödel’s Proof of non-consistency. To think, to dream mathematically is to follow on Euclid and Archimedes, on the first conjectures as to paradoxical insolubility in Zeno. Plato bade no man enter his academy who was not a geometer. He himself, however, directed the western intellect towards universal questions of meaning, of morality, of law and of politics. As A.N. Whitehead famously put it, western philosophy is a footnote to Plato and, one would add, to Aristotle and Plotinus, to Parmenides and Heraclitus. The Socratic ideal of the examined life, the Platonic search for transcendent certitudes, the Aristotelian investigations into the problematic relations between word and world, have set out the road taken by Aquinas and Descartes, by Kant and by Heidegger. Thus these three pre-eminent dignities of the human intellect and of shaping sensibility – music, mathematics, metaphysics – underwrite Shelley’s statement that “we are all Greeks”.