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Livros e leituras

Os passos do homem como restolho do tempo: memória e fim do fim da história. Fernando  Catroga.

Tenho de confessar o imenso prazer intelectual na leitura desta obra: o pensamento e profundo, as referencias são sem limite, a bibliografia e extensa, ha sugest6es em desafio constante que nos convocam para o dialogo crítico. Repito: obra de excelência da maturidade intelectual, muito exigente na sua profundidade reflexiva.” assim o descreveu Anselmo Borges, na recensão ao livro. E adiante, afirma

Pode a historia pretender constituir-se em ciência? Aristóteles negava essa pretensão, pois a ciência refere-se ao universal. Ora, a história tem como objecto o singular, irrepetível e contingente. A contingência e o acaso em historia são algo que não deixa de impressionar profundamente, na medida em que estamos em presença de acontecimentos imprevisiveis e contingentes que acabam por ter uma incidência histórica aparentemente indevida.(…) Em primeiro lugar, o historiador não observa directamente os factos. Pela sua própria natureza, a história é conhecimento do passado. Mas o passado já não existe. (…) Depois, o conhecimento do passado só é possível indirectamente, e permanece subjectivo. (…) Em terceiro lugar, não sendo possível a experimentação nem a repetibilidade, pois se trata de acontecimentos únicos e irrepetíveis, não poderá estabelecer leis … Fernando Catroga (…) opõe-se à história objectivista, positivista e não pensa que a história seja mestra da vida … Alias, como escreveu Paul Valery, «a historia justifica o que se quiser. Ela não ensina rigorosamente nada, pois contem tudo e da exemplos. de tudo». Mas é possível reconstruir o facto histórico, porque há vestígios, sinais, traços – aqui esta o titulo da obra: Os Passos do Homem como Restolho do Tempo.” continuar a ler

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Publicado em Filosofia, Livros e leituras

Paul Ricoeur e Cornelius Castoriadis. Diálogo sobre a História e o Imaginário social.

Neste Diálogo, Paul Ricoeur e Cornelius Castoriadis, dois dos maiores filósofos do século XX, debatem questões relacionadas com a história, a imaginação, as instituições e a criatividade, tais como: de que forma podemos pensar a dimensão imaginária das sociedades? Como compreender o aparecimento da inovação na historia e na ação humana, as revoluções e o projeto de autonomia? Tendo tido lugar em 1985, este diálogo revela duas perspetivas que convergem na valorização da capacidade transformadora da ação.

O texto, prefaciado por Johann Michel, inclui um excelente posfácio de Gonçalo Marcelo. O que mais apreciei, à leitura, é tanto o coloquial do acesso aos conceitos centrais como a procura do consenso e a identificação das linhas divisórias.

Paul Ricoeur e Cornelius Castoriadis. Diálogo sobre a História e o Imaginário Social. Edições 70. 2016.

This book features a highly significant discussion between Paul Ricoeur and Cornelius Castoriadis. Recorded for Radio France (Culture) in 1985, it is the only known encounter between these two great philosophers of the imagination. Their wide ranging conversation covers such themes as the productive imagination, human creation, social imaginaries, and the possibility of historical novelty; it reveals points of surprising commonality as well as divergence in their approaches. The dialogue is supplemented by critical essays by specialist scholars in Castoriadis and Ricoeur studies, and includes contributions from Johann P. Arnason, George H. Taylor, François Dosse, Johann Michel, Jean-Luc Amalric, and Suzi Adams. The book is a must read for all scholars interested in Ricoeur and Castoriadis studies, as well as those interested in debates on the possibilities and limits of human creation, and the importance of the imagination for social change.

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“Epistemology of the closet”

Epistemology of the Closet proposes that many of the major nodes of thought and knowledge in twentieth-century Western culture as a whole are structured — indeed, fractured —by a chronic, now endemic crisis of homo/heterosexual definition, indicatively male, dating from the end of the nineteenth century. The book will argue that an understanding of virtually any aspect of modern Western culture must be, not merely incomplete, but damaged in its central substance to the degree that it does not incorporate a critical analysis of modern homo/heterosexual definition; and it will assume that the appropriate place for that critical analysis to begin is from the relatively decentered perspective of modern gay and antihomophobic theory. link do livro
Versão condensada, em português
“Since the late 1980s, queer studies and theory have become vital to the intellectual life of the U.S. This has been, to no small degree, due to the popularity of Eve Kosofsky Sedgwick’s critically acclaimed Epistemology of the Closet. Working from classic texts of European and American writers — including Herman Melville, Henry James, Marcel Proust, and Oscar Wilde — Sedgwick delineates a historical moment in which sexual identity became as important a demarcation of personhood as gender had been for centuries. Sedgwick’s literary analysis, while provocative and often startling (you will never read Billy Budd or The Picture of Dorian Gray the same way again), is simply the basis for a larger project of examining and analyzing how the categories of ‘homosexual’ and ‘heterosexual’ continue to shape almost all aspects of contemporary thought. Epistemology of the Closet is a sometimes-dense work, but one filled with wit and empathy. Sedgwick writes with great intelligence and an eye for irony, but always makes clear that her theories and critical acumen are in the service of a politic that seeks to make the world a better and more humane place for everyone. An extraordinary book that reshapes how we think about literature, sexuality, and everyday life.” Michael Bronski
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À procura de «alguém» ou a Rosa de Fontenelle

Para as Rosas, escreveu alguém, o Jardineiro é Eterno” – expressão atribuída a Machado de Assis.

Quem será esse «alguém»?

O filósofo Bernard Le Bovier de Fontenelle, em Entretiens sur la plurarité des mondes, dialoga com uma marquesa e refere-se à rosa que não conhece senão um jardineiro, sempre o mesmo jardineiro, pois no jardim não se lembra jamais de ter visto outro jardineiro – na memória da rosa, aquele jardineiro é eterno.

[B. Fontenelle, Entretiens sur la pluralité des mondes – Conversações sobre a pluralidade dos mundos, 1686]

Si les roses, qui ne durent qu’un jour, faisoient des histoires, et se laissent des mémoires les unes aux autres, les premières auroient fait le portrait de leur jardinier d’une certaine façon et, de plus de quinze mille âges de roses, les autres qui l’auroient encore laissé à celles qui les devoient suivre, n’y auroient rien changé. Sur cela, elles diroient : Nous avons toujours vu le même jardinier, de mémoire de rose on n’a vu que lui, il a toujours été fait comme il est, assurément il ne meurt point comme nous, il ne change seulement pas. Le raisonnement des roses serait-il bon ? Il auroit pourtant plus de fondement que celui que faisoient les Anciens sur les corps célestes ; et quand même il ne seroit arrivé aucun changement dans les cieux jusqu’à aujourd’hui, quand ils paraîtroient marquer qu’ils seroient faits pour durer toujours sans aucune altération, je ne les en croirois pas encore, j’attendrois une plus longue expérience. Devons-nous établir notre durée, qui n’est que d’un instant, pour la mesure de quelqu’autre ? Serait-ce à dire que ce qui auroit duré cent mille fois plus que nous, dût toujours durer ? On n’est pas si aisément éternel. Il faudroit qu’une chose eût passé bien des âges d’homme mis bout à bout, pour commencer à donner quelque signe d’immortalité. Vraiment, dit la Marquise, je vois les mondes bien éloignés d’y pouvoir prétendre. Je ne leur ferois seulement pas l’honneur de les comparer à ce jardinier qui dure tant à l’égard des roses, ils ne sont que comme les roses même qui naissent et qui meurent dans un jardin les unes après les autres ; car je m’attends bien que s’il disparaît des étoiles anciennes, il en paraît de nouvelles, il faut que l’espèce se répare. Il n’est pas à craindre qu’elle périsse, répondis-je.

A rosa de Fontenelle apenas conhece o jardineiro que a trata, pelo que acaba por considerar que não é só o seu jardineiro que é eterno, eterna é também a espécie que ele tipifica. A rosa está impossibilitada de considerar a caducidade quer das rosas quer dos jardineiros – por isso, entende que a imutabilidade do jardineiro é a regra das coisas na vida. Não pode crer que ele perece.

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“A morte da competência. Os perigos da campanha contra o conhecimento estabelecido.” Tom Nichols

Quando o comprei, não estava realmente à espera que me deliciasse e entretivesse. E instruísse, ao mesmo tempo. De tal forma que faço um post sobre ele, ainda não passei do primeiro capítulo – estou na «ascensão do eleitor pouco informado» (p. 45).

Como o autor conta no prólogo, começou por escrever um artigo – que vos convido a ler aqui. “Se escrevo este livro é por estar preocupado.” Deixo uns excertos do artigo e a promessa de voltar aqui quando acabar…

The Death Of Expertise

I fear we are witnessing the “death of expertise”: a Google-fueled, Wikipedia-based, blog-sodden collapse of any division between professionals and laymen, students and teachers, knowers and wonderers – in other words, between those of any achievement in an area and those with none at all. By this, I do not mean the death of actual expertise, the knowledge of specific things that sets some people apart from others in various areas. There will always be doctors, lawyers, engineers, and other specialists in various fields. Rather, what I fear has died is any acknowledgement of expertise as anything that should alter our thoughts or change the way we live.

What has died is any acknowledgement of expertise as anything that should alter our thoughts or change the way we live.

This is a very bad thing. Yes, it’s true that experts can make mistakes, as disasters from thalidomide to the Challenger explosion tragically remind us. But mostly, experts have a pretty good batting average compared to laymen: doctors, whatever their errors, seem to do better with most illnesses than faith healers or your Aunt Ginny and her special chicken gut poultice. To reject the notion of expertise, and to replace it with a sanctimonious insistence that every person has a right to his or her own opinion, is silly.

Worse, it’s dangerous. The death of expertise is a rejection not only of knowledge, but of the ways in which we gain knowledge and learn about things. Fundamentally, it’s a rejection of science and rationality, which are the foundations of Western civilization itself. Yes, I said “Western civilization”: that paternalistic, racist, ethnocentric approach to knowledge that created the nuclear bomb, the Edsel, and New Coke, but which also keeps diabetics alive, lands mammoth airliners in the dark, and writes documents like the Charter of the United Nations.

This isn’t just about politics, which would be bad enough. No, it’s worse than that: the perverse effect of the death of expertise is that without real experts, everyone is an expert on everything. To take but one horrifying example, we live today in an advanced post-industrial country that is now fighting a resurgence of whooping cough — a scourge nearly eliminated a century ago — merely because otherwise intelligent people have been second-guessing their doctors and refusing to vaccinate their kids after reading stuff written by people who know exactly zip about medicine.

In politics, too, the problem has reached ridiculous proportions. People in political debates no longer distinguish the phrase “you’re wrong” from the phrase “you’re stupid.” To disagree is to insult. To correct another is to be a hater. And to refuse to acknowledge alternative views, no matter how fantastic or inane, is to be closed-minded.

How conversation became exhausting

Critics might dismiss all this by saying that everyone has a right to participate in the public sphere. That’s true. But every discussion must take place within limits and above a certain baseline of competence. And competence is sorely lacking in the public arena. People with strong views on going to war in other countries can barely find their own nation on a map; people who want to punish Congress for this or that law can’t name their own member of the House.

People with strong views on going to war in other countries can barely find their own nation on a map.

None of this ignorance stops people from arguing as though they are research scientists. Tackle a complex policy issue with a layman today, and you will get snippy and sophistic demands to show ever increasing amounts of “proof” or “evidence” for your case, even though the ordinary interlocutor in such debates isn’t really equipped to decide what constitutes “evidence” or to know it when it’s presented. The use of evidence is a specialized form of knowledge that takes a long time to learn, which is why articles and books are subjected to “peer review” and not to “everyone review,” but don’t tell that to someone hectoring you about the how things really work in Moscow or Beijing or Washington.

…………………

O populismo contemporâneo aumentou o desdém pelos peritos e elites de todo o género na política externa, na cultura, na economia, e até mesmo na ciência e na saúde. Tom Nichols analisa e desmonta o manancial inesgotável de rumores, mentiras, análise pouco séria, especulação e propaganda – e a tendência para «procurar informações que apenas confirmam aquilo em que acreditamos». Segundo o autor, os ataques ao conhecimento e à cultura levam à convicção irracional de que qualquer um – depois de frequentar os fóruns da Internet – é tão bem preparado como um perito para discutir seja que assunto for. «A Morte da Competência», uma análise da irracionalidade da política e da comunicação de hoje, é um livro refrescante e oportuno sobre como equilibrar o nosso ceticismo. aqui

Publicado em Ética, Bioética, Livros e leituras, Saúde

Ética aplicada – Saúde, Almedina, 2018

Os cuidados de saúde estão ancestral e indissociavelmente ligados a preocupações de ordem ética, numa relação que se tem vindo a intensificar, devido ao crescente poder de intervenção da medicina, e a ampliar, devido, à crescente intervenção do paciente na gestão da sua saúde e nas decisões na doença.
O presente volume começa por perspectivar o contexto actual da prestação de cuidados de saúde, sublinhando as novas questões éticas que suscita. Na segunda parte identifica os principais problemas éticos que se colocam ao longo do ciclo da vida humana, quer na sua especificidade a determinados grupos etários, quer na sua transversalidade ao percurso vital, revestindo-se de características próprias decorrentes das circunstâncias particulares em que ocorrem.


Índice

O paciente como pessoa

Maria do Céu Patrão Neves e Jorge Soares. . . . . . . . . . . . . . 9

I – TEMAS FUNDAMENTAIS

A humanização em saúde

Filipe Almeida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31

Da prática clínica ao papel social da medicina

Luís Duarte Madeira e Susana Raposo Alves. . . . . . . . . . . . 61

Relações interpessoais e institucionais na prática clínica

António Sarmento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

Ética e prioridades em saúde

António Correia de Campos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99

A iniciativa dos cidadãos e patient advocacy

Carlos Freire de Oliveira e Miguel Pina . . . . . . . . . . . . . . . . 127

II – DESAFIOS ÉTICOS AO LONGO DO CICLO DA VIDA

Fecundação, gestação e procriação medicamente assistida

Miguel Oliveira da Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151

Nascimento e infância

Maria do Céu Machado . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173

Adolescência

Helena Fonseca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191

Vida adulta e prevenção da doença

Jorge Torgal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 211

Vida adulta e previsão da doença

Fernando J. Regateiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227

Vida adulta e doença crónica

Luís Campos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .  251

Doença e vulnerabilidades

Jorge Costa Santos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285

Saúde e inclusão

Vítor Feytor Pinto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 309

O processo de envelhecimento

António Leuschner . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 329

O processo de morte: directivas antecipadas de vontade e outras questões do fim de vida

Lucília Nunes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . .355

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“Frankenstein ou o Prometeu moderno”, Mary Shelley, 1818

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Mary Shelley escreveu “Frankenstein, ou o Prometeu moderno” – nome original é “Frankenstein, or the modernus Prometheus” (1818).

Já muita gente viu filmes e ouviu falar. Para quem viu o(s) filme(s) ““Está vivo! Está vivo!” talvez seja a frase mais célebre, quando o cientista louco, no meio de raios e trovões de uma noite de tempestade, consegue criar  vida, no seu laboratório.

Quem leu o livro sabe que o cientista não é velho, que não existe um assistente corcunda chamado Igor. Victor Frankenstein é um jovem estudante de origem nobre, com diversas alusões à sua beleza física e é, concerteza, um jovem muito bem educado e intelectualmente dotado.  Trabalha sozinho, sem assistente, em segredo, num quarto de estudante. A criatura nunca tem nome – é descrito como  “criatura”, “monstro”, “demónio”, “desgraçado”, “miserável”, “abominação”. Assim, não deixa de ser irónico que o apelido do seu criador seja hoje sinónimo da criatura.

Será que a obra escrita é realmente conhecida? Parece(me) que não.  E se não leu, desafio a ler 🙂

Vale também a pena passar os olhos por:

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O mito de Frankenstein