Livros e leituras: «Um dia não são dias»

Desta leitura que antecede o enumerar dos dias da semana retiro a importância que desde logo atribui aos nomes. Nomear não é um acaso: é um começo, e leva consigo o peso do Verbo, a Voz que nomeou. Assim irá abordar os sete dias da semana, cada qual com a sua especificidade, ultrapassando a questão das diferentes línguas em que são nomeados, e as raízes de onde provenham, indo-europeias ou ugro-fínicas, ou outras, da grande árvore das línguas, porque não é com a raiz que António se vai preocupar, é com a substância do tempo que em cada dia da semana é dado viver a cada um.
Não há dias iguais, a segunda-feira com que o livro abre (depois do pequeno prólogo oferecido a prévio enquadramento)  não será igual para todos, a dele não será a minha, a nossa não será a de tantos outros, pelo mundo fora. Esta ordenação dos dias da semana é um esforço temporal, cronológico, mas de tão grande diversidade que podemos interrogar-nos: será que por esse esforço chegaremos à substância do que se possa dizer, ou melhor, viver?
Estamos na verdade, a reflectir sobre o Tempo: o da vida, da infância à maturidade e à velhice, o seu fluir, um rio que tem no seu percurso, nunca igual, em cada hora vivida, uma pedra bem diferente para cada um, em cada momento. António fala da infância, o seu vibrar próprio, quase autónomo – não há ainda aqui uma consciência verdadeira do tempo – e que depois se recorda, porque recuperar é impossível, na velhice.
A criança que está no seu fim de semana, vamos imaginar que feito de brincadeiras felizes, não vive esse tempo contado como o velho que sozinho no lar já nem aguarda visitas de ninguém.
A segunda-feira da criança terá obrigações, horários, bancos de escola, atenção às lições, algo de antecipado ao que será (e já são os seus pais ) no futuro. Um tempo condicionado. Contará os dias para chegar de novo ao tal fim de semana de liberdade, ainda que relativa.
Pois a questão do Tempo, e do tempo, dos dias da semana, é uma questão relativa. A verdade, na relação do Ser e do Tempo – que puxa o filosofar imediato, é esta: o ser da criatura que somos materializa-se no tempo e no modo como o vivemos. Mais ricos ou mais pobres, nessa vivência, não haverá nunca um dia, uma semana, um mês, um ano que se possa universalizar, a não ser nas celebrações desta ou daquela memória. Algo que distrai, que interrompe, que pode até alegrar, mas em nada muda a essência da coisa : que para cada um haverá um tempo, o seu, e nada mais.
Assim, quando pela mão de António, no decurso dos seus dias, chegamos à quarta-feira, que ele define como meio da semana, eu, ou alguém que tenha quartas-feiras que não são vividas (sentidas) como  metade dos oito dias subentendidos,- na realidade são sete, os dias da criação mais o do descanso dominical – alguém, dizia eu, para quem o ritmo seguido das horas condicione a liberdade dos dias, não haverá o sentimento de chegar ao meio de coisa nenhuma, pois nem fim de semana terá se calhar no seu trabalho.
Os dias contados, como as semanas do autor, foram, ao longo dos séculos, nas sociedades em geral, uma conquista difícil. O que houve foi sempre um fluir contínuo, que só noite e dia podiam dividir. Ou as estações, que condicionavam também a caça e a pesca dos primitivos, na sua luta pela sobrevivência.
Para os meus filhos, a quarta-feira era, de facto uma espécie de meio da semana: não tinham aulas de tarde. Mas isso foi naquele tempo…e cá estou eu a referir-me ao tempo, e não aos dias…
António Caeiro, no seu cronómetro interior, por alguma razão sentiu que quarta-feira era um corte (por analogia fonética? associação livre?quarta de corte? ) e assim desenvolve as suas razões, por uma travessia de espaços, -não de tempos – que se demora especialmente em Lisboa, a Lisboa, de muitos, a Lisboa de todos, colorida ou tristonha (lá está, conforme os dias) para não dizer mesmo as Lisboas de Pessoa.
Para o nosso autor, que procura nos detalhes as razões dos seus dias, a quarta-feira é “um marco”:”o dia em que a semana atinge o seu apogeu. Quando o fim-de-semana passado começa a ser esquecido”. Eu ia antes de dizer que seria talvez quando o fim-de-semana seguinte se aproxima, veloz. Mas não foi preciso, o autor afinal diz isso por mim: “É o tempo intermédio entre o fim-de-semana passado e o fim-de-semana que se aproxima”.
É do tempo que passa que ele deseja falar, e de como se passa o tempo…e de como se irá passar o resto do tempo que aí vem…
Depressa se chega a quinta-feira ( com a idade, não quando se é jovem): a idade comprime a vivência do tempo.
Mas António é jovem e lá está, a sua quinta-feira não poderia ser igual à minha, e ainda bem, porque a minha já eu conheço bem…a dele irei agora descobrir, na sua prosa corrida, na escrita que desliza de um dia para o outro, como vai acontecer:
“A quinta-feira isola-se de todos os dias da semana. Às quintas de  manhã, a ‘janela’ de sexta-feira parece já abrir-se. É como se a quinta-feira e sexta-feira fizessem parte de uma mesma unidade de sentido temporal”.
E entramos na descrição  de uma “luz da tarde” e de uma série de situações do quotidiano, em pormenor demorado, que permite que se chegue a seguir a um poente em que tudo se dilui. Eis que se descreve então o dia e a noite, a luz de um, que define contornos, objectos e pessoas, o escuro de outra, que apaga, anula, confunde o que antes estava tão iluminado. Na verdade o que aconteceu foi uma alteração de como se percepciona o tempo dos dias (cada dia) para uma outra sensação, a do tempo dentro dos dia, que se divide na aurora, o  amanhecer, que os inicia, depois o meio-dia, depois o entardecer, que precipita o poente e a noite. Não por acaso temos, desde São Tomás de Aquino, seguido por Boehme, uma Aurora Consurgens, tão carregada de simbolismo. Os momentos do dia são apontados pelo autor como “fases que passam continuamente de umas para as outras (…) Mas podia ser sempre noite escura ou dia claro, como sucede em algumas zonas do globo. Cada dia, porém, decorre entre o nascer do sol e o pôr do sol.”
Eis que a natureza, o seu ritmo, se sobrepõe às nossas divisões, às nossas nomenclaturas, às nossas cronologias…Natal e Novo Ano não se celebram nos mesmo dias entre cristãos, judeus, chineses. Neste momento em que escrevo, lendo António Caeiro, celebra-se o Novo Ano Chinês, que será do Galo, supostamente de abundância de grão…
Mas o interessante é este desvio, esta mudança, que se verifica na reflexão proposta: de novo interpelamos com ele o Tempo, a inscrição dos dias (dos seres) no Tempo, na Unidade Maior da Criação. É o próprio autor que nos conduz  nas interrogações:
” Será a vida um único grande dia, e os dias do quotidiano as suas fases? “
E esta sua quinta-feira, ” que alonga e estreita o tempo de modo radicalmente diferente ” – direi que em mim , no meu caso, que não pode ser o dele, estreita, mais do que alonga, – esta quinta-feira onde chegámos na leitura não altera o tempo, como julga o autor, “se é de manhã, se é de tarde ou se é de noite”. Antes voltaria à questão das idades, se se é criança, jovem, adulto ou velho, e para cada idade o viver das Estações, da Primavera ao Verão, ao Outono, ao Inverno…
E demoro então na reflexão que mais se aproxima de mim (na verdade, toda a leitura é subjectiva, e a minha é tão só isso, não pretende ser mais do que a reacção, numa proposta que se me tornou sedutora):
” O que encurta o tempo? O que o alonga? Como é o ser do tempo para poder ser curto e longo? Não é o tempo o mesmo?Não podemos passar as mesmas horas sem darmos por elas, quando para outras pessoas parecem custar a passar?(…) Quer dizer que o tempo é determinado subjectivamente? (…) Sou eu o tempo? Como? Ninguém percorre o meu tempo, como ninguém é eu. Só eu sou eu.”Mas da abstracção que se adivinhava, se materializa a concretização – também ela sendo o que é, para cada um – dos momentos do dia, até que chegada a noite se abre o portão ante-previsto, desejado, de uma sexta-feira. A sexta-feira, também ela única, a seu modo, e abrindo já o espaço aparentemente tão maior do fim-de-semana.
Para o autor, a sexta-feira, que a quinta já antecipou, é o dia em que se “abre o possível”, com a sensação “de tempo a haver” ( e não a perder, como quem perde a vida, a cada dia que passa).
Diz ainda:
” O horizonte do tempo semanal expande-se, do mesmo modo que às segundas se contrai”.
E mais:
” A raiz do tempo revela-se às sextas-feiras como em nenhum outro dia da semana. A sexta-feira radica no futuro (…) à sexta-feira tudo é antecipação”.
Na verdade está a definir este dia como um tempo que dá já a saborear “um simulacro de férias”. Óbvio que não o será para todos, e quem lê estas afirmações poderá contrapôr, da sua experiência, se calhar o contrário, não tendo tido nunca nenhum momento de férias…
Mas há de facto, culturalmente enraizada, esta ideia de que ao poente de uma sexta-feira se inicia um “tempo de suspensão”, no  ritmos da vida quotidiana, seus afazeres, suas obrigações. Para viver um Tempo Maior, de liberdade, mesmo que para cumprir alguma outra obrigação, moral ou religiosa, ou pura e simplesmente, sem mais, para não fazer nada, só o que a cada um apeteça.
Será que a meditação do tempo, da partilha dos dias e das horas, no grande ciclo da vida, nos empurra para questões maiores? E haverá questão maior do que a da vivência, no tempo, da própria vida? Que outra coisa lhe daria mais sentido?
Fomos criados para ser inscritos: a nossa lápide é essa mesma, do tempo, seja qual fôr o dia.”

Yvete Centeno

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Citação do dia

“Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade… Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo… O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo…”

F. W. Nietzsche, O Anti-Cristo. p. 1-2

 

 

 

Citação do dia

“Poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração”.

aquelas palavras “acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória, ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos – vamos regressar.”

A Sombra do Vento, p. 15

Mr Mercedes, #1 da trilogia Bill Hodges

“Quando se ouve o barulho de cascos, não se pensa em zebras” (p.80)

A publicação original foi em 2014. O lançamento em português, pela Bertrand, em março de 2017. Chegou às minhas mãos a 18 de agosto,  texto de King em modo de policial.

O primeiro capítulo apresenta o núcleo da investigação, o caso que mesmo ao ser narrado já deixa os traços do que vai acontecer. Mas é só o primeiro capítulo…. Um ano depois, com o caso por resolver, acompanhamos o ex-detetive Kermit William Hodges e Brady Hartsfield, um vilão que coloca a maldade muito próxima de nós, indicado que o perigo pode estar em qualquer pessoa com que cruzamos diariamente e nem notamos – “toda a gente gosta do homem dos gelados”.

Diferente de todos os outros livros que li de SK, tem uma atmosfera realista e  um ritmo rápido que nos prende às linhas (bem, isso é comum a outras obras). Uma história que apesar de alguma previsibilidade nos interessa até ao fim. Ah, é o primeiro da triologia de Bill Hodges e está para sair uma série com 10 episódios….

Citação do dia

“Com a cabeça encostada na janela do vagão, vejo essas casas passarem como num filme. Ninguém mais as vê como eu; nem os seus donos a vêm deste ângulo. Duas vezes por dia, tenho a oportunidade de espiar outras vidas por um breve momento. Observar desconhecidos na segurança dos seus lares, por algum motivo, traz-me uma sensação de tranquilidade.”

“As pessoas com quem partilhamos um passado não nos deixam seguir em frente, e por muito que tentemos não conseguimos desembaraçar-nos delas, não conseguimos libertarmo-nos. Talvez ao fim de algum tempo acabemos por desistir.”

Paula Hawkins

 

Millenium 05, countdown para setembro

Cada um de nós terá (eventualmente) uma história diferente para cada série de livros. Há uns anos, ofereceram-me o Millenium 01 no dia do meu aniversário – à época, anunciava-se o segundo volume, da trilogia escrita por Stieg Larsson, que já tinha morrido (uma carreira literária post-mortem e a criação de um fenómeno editorial). Para sintetizar a leitura do 1º volume, Os Homens que Odeiam as Mulheres, lançado em Portugal em 2008, pela Editora Oceanos, diria que foi viciante – Lisbeth Salander é extraordinária e o texto tem histórias dentro de histórias, mensagens que expandem o fio condutor. As 539 páginas lêem-se sem esforço, mercê de uma construção narrativa perfeita num ritmo rápido.

Li depois A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, publicado entre nós em 2008, na sua crítica à sociedade, principalmente ao que a corrompe; desta vez, a narrativa liga Lisbeth aos acontecimentos e ao seu passado, que justifica o que ela é e o que as personagens que entram na história são. O tema escolhido foi a escravidão sexual e o tráfico de mulheres provenientes da Europa do Leste.

Seguiu-se A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, publicado em julho de 2009Lisbeth sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, permanecendo no hospital, impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isso não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema: o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimentos mais leves e intenções mais maquiavélicas.

Em 2015, no início de setembro, vi em Estocolmo, na livraria do aeroporto, o 4º volume, agora escrito por David Lagercrantz, em suerco e em inglês, tendo então ficado à espera da tradução – A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha – que foi publicada pouco depois. David Lagercrantz prolongou a trilogia original escrita de Stieg Larsson por convite dos herdeiros de Stieg Larsson, o pai e o irmão, em dezembro de 2013, para escrever o quarto volume da série “Millennium”.

 

Ao contrário do que se escrevera por esse mundo fora, este quarto volume não é a continuação do livro que Stieg Larsson deixou inacabado, antes um novo, escrito de raiz por David Lagercrantz. A publicação coincidiu com o 10º aniversário do primeiro volume da série.

Doze anos depois do Millenium 01, espera-se para setembro de 2017 o quinto volume da saga Milllenium  –  chega às livrarias em setembro, via Dom Quixote.