Citação do dia

“Com a cabeça encostada na janela do vagão, vejo essas casas passarem como num filme. Ninguém mais as vê como eu; nem os seus donos a vêm deste ângulo. Duas vezes por dia, tenho a oportunidade de espiar outras vidas por um breve momento. Observar desconhecidos na segurança dos seus lares, por algum motivo, traz-me uma sensação de tranquilidade.”

“As pessoas com quem partilhamos um passado não nos deixam seguir em frente, e por muito que tentemos não conseguimos desembaraçar-nos delas, não conseguimos libertarmo-nos. Talvez ao fim de algum tempo acabemos por desistir.”

Paula Hawkins

 

Millenium 05, countdown para setembro

Cada um de nós terá (eventualmente) uma história diferente para cada série de livros. Há uns anos, ofereceram-me o Millenium 01 no dia do meu aniversário – à época, anunciava-se o segundo volume, da trilogia escrita por Stieg Larsson, que já tinha morrido (uma carreira literária post-mortem e a criação de um fenómeno editorial). Para sintetizar a leitura do 1º volume, Os Homens que Odeiam as Mulheres, lançado em Portugal em 2008, pela Editora Oceanos, diria que foi viciante – Lisbeth Salander é extraordinária e o texto tem histórias dentro de histórias, mensagens que expandem o fio condutor. As 539 páginas lêem-se sem esforço, mercê de uma construção narrativa perfeita num ritmo rápido.

Li depois A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, publicado entre nós em 2008, na sua crítica à sociedade, principalmente ao que a corrompe; desta vez, a narrativa liga Lisbeth aos acontecimentos e ao seu passado, que justifica o que ela é e o que as personagens que entram na história são. O tema escolhido foi a escravidão sexual e o tráfico de mulheres provenientes da Europa do Leste.

Seguiu-se A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, publicado em julho de 2009Lisbeth sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, permanecendo no hospital, impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isso não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema: o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimentos mais leves e intenções mais maquiavélicas.

Em 2015, no início de setembro, vi em Estocolmo, na livraria do aeroporto, o 4º volume, agora escrito por David Lagercrantz, em suerco e em inglês, tendo então ficado à espera da tradução – A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha – que foi publicada pouco depois. David Lagercrantz prolongou a trilogia original escrita de Stieg Larsson por convite dos herdeiros de Stieg Larsson, o pai e o irmão, em dezembro de 2013, para escrever o quarto volume da série “Millennium”.

 

Ao contrário do que se escrevera por esse mundo fora, este quarto volume não é a continuação do livro que Stieg Larsson deixou inacabado, antes um novo, escrito de raiz por David Lagercrantz. A publicação coincidiu com o 10º aniversário do primeiro volume da série.

Doze anos depois do Millenium 01, espera-se para setembro de 2017 o quinto volume da saga Milllenium  –  chega às livrarias em setembro, via Dom Quixote.

As cidades invisíveis

As cidades e o desejo.

Da cidade de Doroteia pode-se falar de duas maneiras: dizer que se elevam das suas muralhas quatro torres de alumínio ladeando sete portas de ponte levadiça sobe o fosso cuja água alimenta quatro verdes canais que atravessam a cidade e a dividem em nove bairros, cada um deles com trezentas casas e setecentas chaminés; e tendo em conta que as raparigas solteiras de cada bairro se casam com jovens de outros bairros e que as suas famílias trocam os bens que cada uma tem: bergamotas, ovos de esturjão, astrolábios e ametistas, fazer cálculos com base nestes dados até saber tudo o que se deseja da cidade no passado no presente e no futuro; ou dizer como o condutor de camelos que me leva até lá: “Cheguei ali muito jovem, uma manhã, muita gente a acorrer pelas ruas a caminho do mercado, as mulheres tinham belos dentes e olhavam-nos bem nos olhos, três soldados em cima de um palco tocavam cornetim, por toda a parte giravam rodas e ondulavam letreiros coloridos. Até então eu só tinha conhecido o deserto e as pistas das caravanas. Nessa manhã em Doroteia senti que não havia nenhum bem na vida a que eu não pudesse aspirar. Com o passar dos anos os meus olhos voltaram a contemplar as imensidões do deserto e as pistas das caravanas; mas agora sei que este é só um dos muitos caminhos que se abriam à minha frente nessa manhã em Doroteia.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis. Lisboa, Teorema, 2000, p. 13

“Power, Knowledge and Feminist Scholarship: an Ethnography of Academia”

Título do Observador:

“Não faças a cadeira dele.” Sexismo, assédio, discriminação e racismo nas universidades portuguesas.

Maria do Mar Pereira

“Tinha estudado numa instituição portuguesa e tinha assistido e vivido situações, implícitas e explícitas, de sexismo. Mas o que encontrou foi bem mais complexo e profundo do que aquilo de que estava à espera. Foram várias as pessoas que entrevistou e que lhe relataram episódios, não só de sexismo, como de assédio sexual. Sem contar com o que assistiu quando se “infiltrou” em congressos, eventos e reuniões universitárias. Tudo isto em contexto académico, tanto entre estudantes, como entre docentes, e de professores para com as alunas, mas sempre nos bastidores e de forma oculta.

Todas essas experiências estão relatadas no livro “Power, Knowledge and Feminist Scholarship: an Ethnography of Academia”, publicado em março pela editora britânica Routledge. A obra, que é uma extensão da tese de doutoramento da investigadora, está nomeada para três prémios internacionais e foi apresentada na quinta-feira, no simpósio “Sexismo nas Universidades Portuguesas”, no Centro de Cultura e Intervenção Feminista.”

ler o artigo

A investigadora realizou um estudo onde observou mais de 50 eventos e entrevistou 40 pessoas, cientistas e estudantes, entre 2008-2009 e 2015-2016. Maria do Mar Pereira notou o discursos das universidades se tornou menos discrepante, porém, “este discurso oficial igualitário coexiste com uma cultura não-oficial marcadamente sexista”.

Recomenda-se igualmente o artigo ‘Feminist theory is proper knowledge, but …’: The status of feminist scholarship in the academy. dezembro de 2012.

Citação do dia

O que é preciso para se ser bom numa coisa onde o erro pode acontecer com tanta facilidade? Quando era estudante e depois interno, a minha preocupação mais profunda era ser competente. Mas o que aquele interno sénior revelara naquele dia era mais do que competência – compreendera não só a forma como uma pneumonia normalmente evolui e deve ser tratada, mas também a maneira de a detectar e combater naquela paciente específica, naquele momento específico, com os recursos e os auxiliares específicos que tinha ao seu dispor. Muitas vezes as pessoas procuram nos grandes atletas lições de desempenho. E, para um cirurgião como eu, os atletas têm realmente lições a dar – acerca do valor de perseverança, do trabalho árduo e da prática, acerca da precisão. Mas o êxito em medicina tem dimensões que não podem ser encontradas num campo de jogos. Para começar, há vidas em risco. As nossas decisões e omissões, consequentemente, são de natureza moral. Também enfrentamos expectativas assustadoras. Em medicina, a nossa tarefa é lidar com a doença e possibilitar que cada ser humano tenha uma vida tanto mais longa e liberta de fragilidades quanto a ciência permitir. Os passos são muitas vezes incertos. Os conhecimentos que é necessário dominar são simultaneamente vastos e incompletos. No entanto, espera-se que sejamos céleres e firmes (…). Também se espera que façamos o nosso trabalho de forma humana, com carinho e preocupação. Não é só aquilo que está em jogo numa situação concreta, mas também a complexidade do exercício da medicina que torna as coisas tão interessantes e, ao mesmo tempo, tão perturbadoras (…). Como médicos, assumimos este trabalho pensando que é tudo uma questão de diagnósticos cuidados, competência técnica e alguma capacidade para criar empatia com as pessoas. Mas não é, como rapidamente descobrimos. Em medicina, como em qualquer profissão, temos de lutar contra sistemas, recursos, circunstâncias, pessoas – e também contra as nossas limitações. Enfrentamos obstáculos de uma variedade aparentemente interminável. E, contudo, temos de andar para a frente, melhorar, aperfeiçoar”.

O livro analisa três condições essenciais para o êxito em medicina – ou de qualquer esforço que envolva riscos e responsabilidade – que se constituem como desafios. O primeiro desafio é a diligência, a necessidade de prestar atenção suficiente ao pormenor, para evitar erros e ultrapassar os obstáculos. O segundo desafio é fazer bem. A terceira condição para o sucesso é o engenho – pensar de novo. “Exige, acima de tudo, a vontade de reconhecer o fracasso, de não tapar o sol com a peneira – e de mudar. Resulta de uma reflexão deliberada, quase obsessiva sobre fracasso e de uma procura constante de novas soluções. Estes são comportamentos difíceis de cultivar – mas estão longe de ser impossíveis

Melhorar é um trabalho constante. (…) Temos uma visão de responsabilidade. A questão, então, não é saber se aceitamos a responsabilidade. Pelo simples facto de fazermos este trabalho, já aceitámos. A questão é, uma vez aceite essa responsabilidade, como fazer bem este trabalho.”

Atul Gawande (2009) Ser bom não chega, Lua de Papel.