Pensamento do dia

O de que nós precisamos é respeito ao passado, não ao futuro; o passado é inevitável, o futuro, o nosso futuro está à frente da nossa decisão e da nossa responsabilidade. Nesta ótica, fica sem dúvida demonstrado que constitui um erro dizer que somos, perante o futuro, responsáveis pelo passado. Pelo contrário, somos precisamente responsáveis, perante o passado inevitável, pelo futuro decisivo.

Viktor Frankl, Fundamentos Antropológicos da Psicoterapia, 1978, p.151

Citação do dia

“O mundo está cheio de recantos e interstícios estranhos.”

Stephen King, O Intruso

No original, a obra intitula-se «The Outsider” mas na tradução portuguesa ficou “O Intruso”.  É uma obra complexa, para lá do que parece. Começa por se assemelhar a um romance criminal e depois, a história muda de rumo para lá das duzentas páginas. Stephen King escreve mesmo muito bem….

Figuras do idiota. Metamorfoses da estupidez

“A estupidez é para Sarte um dos correlativos naturais da ignorância. É a partir da análise precedente que se procura teorizar a parvoíce e a figura do parvo, que o mesmo não distingue aqui claramente da estupidez ou do estúpido e correlativamente do idiota e da idiotia, embora, a idiotia estaria do lado mais “privado”, ao passo que a estupidez ocuparia o campo “público” (Louette, 2007: 34).

Sartre começa por colocar alguns postulados ao seu discurso. O primeiro é que ninguém é parvo sozinho, como também não se é parvo sem o saber. Depois, a parvoíce não é congénita, mas uma relação inter-humana específica, que pode ser passageira ou duradoira. Finalmente, a parvoíce traduz-se por um sentimento interior de opressão, pois na mesma existe uma estupidez encrespada, próxima da violência (…)

Sartre confere à estupidez uma série de características que passamos a enumerar: um peso, uma lentidão a compreender, um ponto de vista limitado ou ainda uma certa aderência das ideias à carne, uma opacidade (Sartre, 1983: 318). (…) O parvo é lorpa e a sua consciência está enganada (Idem, 321). Sartre afirma que as fronteiras entre a ignorância e a parvoíce são impossíveis de traçar.”

Sartre, teorizador da estupidez. In Figuras do idiota.

“O ascendente do medo do isolamento”

“O medo do isolamento é uma força mais poderosa do que a vontade de se juntar ao lado vencedor. A baixa autoestima da maioria das pessoas não lhes concede ilusões sobre a possibilidade de subir ao carro dos vencedores ou de tocar o trompete da vitória; a maioria quer simplesmente “ir en el pelotón” (Noelle-Neumann, 1995a, p. 23). E, segundo a autora, a vontade de “ir no pelotão” aplica-se “más o menos, a toda la humanidade” (p. 23). À semelhança de Tocqueville, a autora alemã considera que a maioria dos indivíduos teme “mais o isolamento que o erro”.

(…) Noelle-Neumann (1974, 1977, 1979, 1995a, 2004) associa claramente a opinião pública ao medo do isolamento. Este surge como a principal explicação para o indivíduo emitir a sua opinião sobre assuntos controversos ou, ao invés, para se remeter ao silêncio. É também este medo que leva o indivíduo a monitorizar e a sondar permanentemente o seu meio social, a fim de perceber que opiniões e modos de comportamento são aprovados ou reprovados e que opiniões e formas de comportamento estão a perder ou a ganhar terreno.
O medo do isolamento é constitutivo da natureza social do homem e é, provavelmente, determinado geneticamente ou pode ser também o resultado do processo de evolução humana (Noelle-Neumann, 1995a). Noelle-Neumann (1974) observa que a maioria dos indivíduos atribuem mais importância ao risco de ficarem isolados do que à sua própria opinião. E, no entanto, a autora não oferece nenhuma definição explícita do medo do isolamento, mencionando-o muitas vezes como se fosse um conceito aceite e compreendido por todos.

(…) Os estudos de Asch parecem sugerir uma tendência dos indivíduos para a imitação e o medo do isolamento. Pelo menos, é assim que muitos os entenderam. Curiosamente, Solomon Asch antes dos seus estudos experimentais criticava aquilo que designava como “sonambulismo social” (Garcia-Marques, 2000, pp.238-239), traduzido no conceito de sugestão hipnótica de Charcot e desenvolvido depois por autores como Tarde e Le Bon: os indivíduos, reduzidos a sonâmbulos ou zombies, limitar-se-iam, acriticamente, a imitar, em especial os líderes.”

Uma genealogia da espiral do silêncio. A expressão da opinião sobre as praxes académicas. p. 129 e 134

“A ascensão das multidões”

“Na alma coletiva da multidão, as aptidões intelectuais dos indivíduos apagam-se. A heterogeneidade submerge na homogeneidade e as qualidades inconscientes dominam. É a colocação em comum de qualidades medíocres que explica por que motivo as multidões jamais serão capazes de cumprir atos que exijam uma inteligência elevada. Nas multidões, é a asneira que se acumula e não o espírito.

As multidões geram também um carácter novo. O surgimento de caracteres especiais nas multidões – e que os indivíduos isolados não possuem – está associado a três causas fundamentais. A primeira deriva do número: um indivíduo inserido numa multidão adquire um sentimento de poder invencível, que o leva a ceder aos seus instintos mais básicos, instintos que, isolado, tentaria refrear. E a tentação de se deixar levar pelos instintos será tanto maior quanto mais anónima for a multidão e, por conseguinte, mais irresponsável. O sentimento de responsabilidade dos indivíduos desaparece por inteiro nas multidões. A segunda causa é o contágio mental. Le Bon, baseando-se nas descobertas científicas da época, associa o contágio ao fenómeno da hipnose. Numa multidão, todo o sentimento, todo o ato é contagioso, e é contagioso ao ponto de o indivíduo sacrificar o seu interesse pessoal ao interesse coletivo. A terceira causa, e que Le Bon considera como a mais importante, é a sugestão, de que o contágio é um efeito. Isolado, um homem pode ser civilizado; integrado numa multidão, tem a espontaneidade, a violência, a ferocidade e também o entusiasmo e o heroísmo dos seres primitivos.”

Uma genealogia da espiral do silêncio. A expressão da opinião sobre as praxes académicas. (2018) p. 32-34

A Casa do Pó. Fernando Campos

– Vê tu, irmão Diogo – digo eu –, como a minha vida se assemelha no presente momento a esta encruzilhada de caminhos!

Trazemos os pés macerados das longas caminhadas e a garganta seca do pó das sendas de terra batida e do sol violento, a pino. Recorta-se já na linha do horizonte o perfil de Évora, aonde contamos chegar a meio da tarde, a horas de vésperas. Vimos de longe, no nosso tirocínio de noviços. Há mais de um mês andamos calcorreando toda a região. (…)

Súbito bifurca-se o caminho e, hesitantes, paramos a perscrutar o rumo. «A encruzilhada da vida? Como assim?», pergunta o meu companheiro. É ele o coração mais bondoso e temente a Deus que eu jamais vi, mas a cabeça um tanto dura e não dada à leitura dos livros. A horta ou a cozinha, depois dos deveres da oração na capela, são o lugar certo, nunca a biblioteca. Sentamo-nos à sombra de uma azinheira, numa grossa raiz que emerge coleante da terra. «Ali estavam dois caminhos diante de nós: um virava à esquerda, o outro à direita, e era forçoso que tomássemos por um deles. Estranho dilema se patenteava ao caminheiro se não queria perder a tramontana. Isto para mim era simbólico. Não sabia que fazer.

Fernando Campos, A Casa do Pó. Difel. pp. 35-37.

Citação do dia

É natural que as vítimas se insurjam; é inquietante que sejam as únicas a insurgir-se.

O problema das minorias não é apenas um problema para os minoritários. O que está em causa não é apenas, se me é permitido afirmar, o destino de alguns milhões de homens. O que está em causa é a razão de ser e a finalidade da nossa civilização; se, no final de uma longa evolução material e moral, ela chega a uma tal «purificação» étnica e religiosa é porque manifestamente fez um caminho errado.

Para qualquer sociedade e para a humanidade no seu conjunto, o destino das minorias não é um dossiê entre muitos outros; é, juntamente com o destino das mulheres, um dos reveladores mais seguros do avanço moral ou da regressão.

Um mundo onde todos os dias se respeita um pouco melhor a diversidade humana, onde qualquer pessoa pode exprimir-se na língua da sua escolha, professar tranquilamente as suas crenças e assumir serenamente as suas origens sem ser vítima de hostilidade ou de difamação, quer por parte das autoridades quer por parte da população, é um mundo que avança, que progride, que se eleva.

Inversamente, quando prevalecem as crispações identitárias como acontece hoje na maioria dos países, tanto no Norte do planeta como no Sul, quando todos os dias se torna um pouco mais difícil alguém ser serenamente ele mesmo, praticar livremente a sua língua ou a sua fé, como não falar de regressão?

Amin Maalouf. Um Mundo sem Regras. pp. 65-66.