Leituras: “Nós e os outros. o poder dos laços sociais.”

Lê-se de um fôlego, bem escrito, com dados científicos num texto de proximidade e de abordagem plural. Claramente destinado ao “grande público”, com enfoque simples e a apontar vias de aprofundamento. Gostei muito de ler – peguei nele para ocupar um tempo de espera, e correu muito bem. Recomendo 🙂

“As identidades pessoais podem ser vistas como as histórias que construímos e contamos acerca de nós e que definem quem somos para nós e para os outros. E são histórias porque têm muito de ilusório, de inventado e de reconstruído. E as ideias que fazemos sobre nós são influenciadas pelos outros.”

“Numa sociedade que valoriza a individualidade e a competição, nem sempre admitimos como precisamos uns dos outros. E, no entanto, muito do que somos, do que pensamos e do que fazemos está ligado às relações sociais que mantemos, aos grupos a que pertencemos. Qual é a verdadeira importância dos laços sociais na nossa vida? Até que ponto o que somos depende de quem nos rodeia? Como pode um grupo transformar o nosso comportamento? Que consequências tem o isolamento social na nossa vida? Escrito na óptica da psicologia social, este livro, ao procurar responder a estas questões, põe a ideia de individualidade em perspectiva e mostra quanto devemos à interacção com os outros.”  FFMS

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Livros e leituras: “Embalando a minha biblioteca”, Alberto Mangel

Uma leitura que surpreende, pela frescura, pela erudição, pelas tantas manifestações de amor aos livros. Inevitável, o sorriso em algumas partes ou o aceno concordante de cabeça. A afinidade com algumas partes da obra. Se ainda não leu, recomendo vivamente – a quem gosta de livros, pela adesão à narrativa; a quem nem por isso, potencia alguma compreensão sobre os que se assumem visceralmente como leitores.

“Muitas vezes senti que a minha biblioteca explicava quem eu era, me conferia um eu sempre em mudança, que se transformava constantemente ao longo dos anos.” (p. 15)

“Em todos os lugares onde me instalei, começou a crescer uma biblioteca como que por geração espontânea. Colecionei livros em Paris, em Londres, em Milão, no calor húmido do Taiti (os meus romances de Melville ainda têm traços de bolor polinésio), em Toronto e em Calgary. Depois, quando chegava a hora de partir, embalava-os em caixas e obrigava-os a esperar com a paciência possível em arrecadações tumulares, na esperança incerta da ressurreição” (p. 19)

Por volta de 1931, Walter Benjamin escreveu um ensaio breve e hoje famoso acerca da relação entre os leitores e os seus livros. Chamou-lhe “Desembalar a minha Biblioteca: um discurso acerca da arte de colecionar” e aproveitou a ocasião de retirar de caixotes os seus quase dois mil livros para discorrer sobre os privilégios e as responsabilidades de um leitor. ” (p. 27-8)

“Embalar e desembalar são dois lados do mesmo impulso, e ambos revestem de significado um momento de caos” (p. 28)

Embalar, pelo contrário, é um exercício de esquecimento. É como ver um filme de trás para a frente, consignando narrativas visíveis e uma realidade metódica, para as regiões do distante e do não visto, um oblívio voluntário. […] Se desembalar a biblioteca é um ato selvagem de renascimento, embalá-la é sepultá-la ordenadamente antes do julgamento aparentemente final. Em vez das colunas intermináveis e instáveis de livros ressuscitados prestes a serem presenteados com um lugar, de acordo com virtudes privadas e vícios caprichosos, o seu agrupamento passa a ser estabelecido por uma vala comum, anónima, que transforma o mundo deles das estentóreas duas dimensões de uma estante nas três dimensões de uma caixa de cartão.” p.(36)

“Para mim, não há resignação possível no acto de embalar uma biblioteca. Subir e descer um escadote para chegar aos livros a empacotar, retirar os bibelôs e as fotografias que se postam como figuras evocativas à frente deles, retirar cada volume da prateleira, guardá-lo na sua mortalha de papel, são gestos melancólicos, reflexivos, com um traço de longa despedida. As fileiras desmanteladas e prestes a desaparecer, condenadas a existir (se ainda existem) no reino nada fiável da minha memória, tornam-se pistas fantasmagóricas para um enigma privado. Quando desembalei os livros, não me preocupei muito em atribuir sentido às memórias ou pô-las numa ordem coerente. Mas, quando os embalei, senti que tinha de descobrir, como num dos meus policiais, quem era o responsável por aquele cadáver desmembrado, a causa exacta da morte. No Processo de Kafka, depois de Josef K. ser detido por um crime jamais especificado, a senhoria diz-lhe que o tormento dele lhe parece «qualquer coisa erudita que não compreendo, mas que uma pessoa também não tem de compreender». «Etwas Gelehrtes», escreve Kafka. Foi isto que a mecânica impenetrável por trás da perda da minha biblioteca me pareceu.” (p. 38)

“O reconforto é essencial. Os objectos reconfortantes na minha mesinha-de-cabeceira são (sempre foram) livros e a minha biblioteca era, ela mesma, um lugar de conforto e consolo tranquilo. Talvez os livros tenham essa qualidade de nos consolar porque não os possuímos: são os livros que nos possuem.” (p. 54)

Livros e Leituras: A estranha ordem das coisas

Uma ideia simples

Eis a ideia simples que tenho vindo a considerar. Se nos ferimos e sentimos dor, seja qual for a causa do sofrimento ou o perfil da dor, remos a possibilidade de remediar o problema. A variedade de situações que podem causar sofrimento humano inclui não só as lesões físicas, mas também o tipo de dor que resulta da perda de um ente querido ou de uma humilhação. A recuperação constante de memórias associadas mantém e amplifica o sofrimento, porque a memória ajuda a projectar a situação para um futuro imaginado e permite-nos antever as consequências. Seja qual for a causa, os seres humanos seriam capazes de reagir ao sofrimento tentando compreender esse seu calvário e inventando compensações, correções ou soluções de eficácia radical. ”

António Damásio, A estranha ordem das coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas. p. 25

 

When science offers salvation. Patient advocacy & research ethics

“The duty to respect individual choice is one element of the respect-for-persons principle. Respect for persons also incorporates an obligatiom to protect from harm people who cannot make autonomus choices. Thous, the respect-for-persons principle supports granting only individuals making autonomous decisions the liberty to accept experimental risks.

What makes someone’s choice an autonomous one? At a minimum, the person must have a reasonable understanding of the basic information relevat to the choice and be free of undue pressure to decide in a particular way.  A person makes an autonomous choice to enroll in a study or try an unproven agent when the decision is adequately informed and voluntary.

The need for adequate understanding underlies the ethical and regulatory requirement that people give informed consent to research participation. ”

p. 55

“Bioética no século XXI”

 

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A obra coletiva “Bioética no Século XXI” encontra-se publicada e à venda na Amazon no seguinte link: https://www.amazon.com/dp/1983785148 .

Editada por Ana Figueiredo Sol e Steven S. Gouveia. Prefácio de Peter Singer.

Parte I: Direito e Bioética

  1. Eutanásia: Aspectos Jurídicos-Penais à Luz do Sistema Jurídico-Penal Português (Fernando Conde Monteiro)
  2. A Regulação da Procriação Medicamente Assistida em Portugal (Mariana Schafhauser Boçon)
  3. Bioética: Reflexões sobre Pesquisas com Seres Humanos à Luz da Perspectiva Brasileira (Márcia Cassimiro, Carlos Silva & Hully Falcão)
  4. Enquadramento Jurídico Luso-Brasileiro das Diretivas Antecipadas de Vontade (Sephora Marchesini)

Parte II: Problemas Tradicionais da Bioética

  1. Os Princípios Bioéticos como Reguladores do Consentimento Informado (Diana Coutinho)
  2. A “Erradicação” da Deficiência através do Aborto Selectivo: Eugenia Ilegítima? (Maria Beatriz Miranda)
  3. Paradoxos do Princípio de Autonomia (Luísa Portocarrero Silva)
  4. Notas para uma Reflexão sobre o Valor da Vida Fetal: do Enquadramento Internacional ao Contributo da Visão Habermasiana (Ana Figueiredo Sol)

Parte III: Bioética nos Contextos Profissionais

  1. O Médico na Procriação Medicamente Assistida: um Papel Meramente Técnico ou Profissional? (Rita Serejo & Miguel Ricou)
  2. O Enfermeiro como Garante da Equidade na Afetação de Recursos e no Acesso aos Cuidados de Saúde (Maria Lúcia Rocha)
  3. Ética na Transmissão de Más Notícias (João Lemos)
  4. Digital Storytelling in Healthcare and Breaking Bad News (Michael Meimaris & Maria Saridaki)

Parte IV: Bioética e Genética

  1. Biometria e Privacidade: Desafios Bioéticos na Cooperação Policial e Judicial na União Europeia (Sara Matos)
  2. Retratos Biogenéticos no Combate à Criminalidade: Desafios Éticos e Sociais (Filipa Queirós)
  3. O “Suspeito Genético”: Desafios Bioéticos na Partilha Transnacional de Informação Genética Forense (Helena Machado, Marta Martins & Filipe Santos)

Parte V: A Morte na Bioética

  1. A Eutanásia: um Olhar Bioético (Maria Teresa Mendonça)
  2. Considerações Bioéticas Sobre o Nascer e o Morrer no Século XXI (Ana Paula França)
  3. Problemas Conceptuais e Morais na Prática Médica Actual: Sobre a Distinção entre “Matar” e “Deixar Morrer” (Steven S. Gouveia)

Parte VI: Bioética e Tecnologias do Futuro

  1. Alongar o Olhar, Medir o Passo, Desenhar Limites – em Torno da Reflexão Ética sobre os “Desafios Éticos das Novas Tecnologias” (Lucília Nunes)
  2. Transumanismo: Desafios e Perspectivas para a Filosofia Contemporânea (Leonardo Nunes Camargo)
  3. Roboética: Contexto Ético e Jurídico em que se Desenvolve a Programação Ética dos “Robôs Autónomos” (Ana Elisabete Ferreira)

 

Citação

“O verdadeiro encenador da nossa vida é o acaso – um encenador cheio de crueldade, misericórdia e encanto cativante”

“I put myself into his look, reproduced it in me, and from that perspective absorbed my reflection. The way I looked and appeared – I thought – I had never been that way for a single minute in my life. Not at school, not at university, not in my practice. Is it the same with others: that they don’t recognize themselves from the outside? That the reflection seems like a stage set full of crass distortion? That, with fear, they note a gap between the perception others have of them and the way they experience themselves? That the familiarity of inside and the familiarity of outside can be so far apart that they can hardly be considered familiarity with the same thing?”

“The stories others tell about you and the stories you tell about yourself: which come closer to the truth?”

“To understand yourself: is that a discovery or a creation?“

Night train to Lisbon, Pascal Mercier