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O Riso de Deus. António Alçada Baptista

É que a gente ainda não se deu bem conta das virtudes das nossas fraquezas: às vezes, aquilo que faz do foguetão que nos coloca numa órbita donde se lança outro olhar sobre o planeta Terra, são os nossos medos, ou o nosso orgulho, ou a nossa incapacidade de agarrar formas de poder. Outra coisa: acho que a nossa vida tem ciclos. Julgo que estou no fim de mais um ciclo e que vou começar outro. Então temos uma imensa vontade de nos olharmos por dentro para compreender e pôr em ordem as coisas que por lá andam em desalinho. Este ciclo é capaz de ser o último mas o mais decisivo: é o resultado de uma vida e por isso é preciso fazer uma paragem para ver se se encontra o caminho que vai dar ao amor.

Dói muito o amor no Outono porque nos é agora muito evidente que andámos enganados, que temos de descobrir outra estrada e que, para isso, não é fácil arranjar companhia… o Malraux dizia que “quando os sistemas de valores se desmoronam, o homem não encontra mais que o seu corpo.” (…) Os que sonham a dormir sabem, de manhã, que isso era uma ilusão mas os que sonham de olhos abertos, acreditam que o estofo do futuro será feito desse sonho.

António Alçada Baptista (1994). O Riso de Deus. Editorial Presença. p. 22.

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Luís Sepúlveda. O Velho que Lia Romances de Amor

Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever. O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.

Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.

Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.

Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.

Vivia numa choça feita de canas de uns dez metros quadrados dentro dos quais arrumava o seu escasso mobiliário: a rede de dormir de juta, o caixote de cerveja com o fogão a querosene em cima, e uma mesa alta, muito alta, porque, quando sentiu pela primeira vez dores nas costas, percebeu que os anos lhe estavam a carregar e decidiu sentar-se o menos possível.

Construiu então a mesa de pernas compridas, que lhe servia para comer de pé e para ler os seus romances de amor.

A choça era protegida por uma cobertura de palha entrançada e tinha uma janela aberta para o rio. Era a ela que estava encostada a mesa alta.

Sepúlveda, Luis. O Velho que Lia Romances de Amor

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O Senhor Brecht. Gonçalo M. Tavares .

O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.

Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.

No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.

Todos aguardavam.

A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.

O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.

Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado.  Mas não conseguiram.

Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

Gonçalo M. Tavares . O Senhor Brecht. p. 16.

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Os Conjurados, Jorge Luis Borges

Ninguém pode estranhar que o primeiro dos elementos, o fogo, não abunde no livro de um homem de oitenta e muitos anos. Uma rainha, na hora da sua morte, diz que é fogo e ar; eu costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, no entanto, a escrever. Que outra sina me resta, que outra formosa sina me resta? A felicidade de escrever não se mede pelas virtudes ou fraquezas. Toda a obra humana é precária, afirma Carlyle, mas não o é a sua feitura.

Não professo qualquer estética. Cada obra confia ao seu escritor a forma que procura: o verso, a prosa, o estilo barroco ou chão. As teorias podem ser admissíveis estímulos (recordemos Whitman) mas contudo podem engendrar monstros ou meras peças de museu. Lembremos o monólogo interior de Joyce ou o terrivelmente incómodo Polifemo.

Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso. Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos homens ilustres. Seria muito estranho que este livro, que abarca umas quarenta composições, não encerrasse uma única linha secreta, digna de te acompanhar até ao fim.

Jorge Luís Borges, Os Conjurados, prólogo

(foto do autor aqui)

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European Psychiatric/Mental Health Nursing in the 21st Century. A Person-Centred Evidence-Based Approach.

Santos, José Carlos, Cutcliffe, John R. (Eds.) European Psychiatric/Mental Health Nursing in the 21st Century. A Person-Centred Evidence-Based Approach. 2018. Published under the Auspices of ESNO.

São 42 capítulos – a um por dia, mês e meio 🙂

Table of contents (42 chapters)

Introduction: Remembering the Person: The Need for a Twenty-First-Century, Person-Centred European Psychiatric/Mental Health Nursing Textbook – Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 3-11

Oxymoronic or Synergistic: Deconstructing the Psychiatric and/or Mental Health Nurse – Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 13-27

Service User Involvement and Perspectives – Ferraz, Marta, Pages 29-35

Taxonomies: Towards a Shared Nomenclature and Language -Cruz Sequeira, Carlos Alberto (et al.) Pages 37-47

Theories of the Interpersonal Relationships, Transitions and Humanistic Theories: Contribution to Frameworks of Psychiatric/Mental Health Nursing in Europe – Carvalho, José Carlos (et al.) Pages 49-58

An Introduction to the Art and Science of Cognitive Behavioural Psychotherapy – Swan, John (et al.), Pages 59-73

Psychodynamic and Psychoanalytical Theory, Approaches and Clinical Relevance: Applying the Psychoanalytic Principles and Practices to Mental Health Nursing – Lopes, J. (et al.) Pages 75-88

The Biopsychosocial Approach: Towards Holistic, Person-Centred Psychiatric/Mental Health Nursing Practice – Santos, José Carlos (et al.) Pages 89-101

Trauma-Informed Care: Progressive Mental Health Care for the Twenty-First Century – Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 103-122

Competences for Clinical Supervision in Psychiatric/Mental Health Nursing – Cutcliffe, John R. (et al.)Pages 123-139

European and Worldwide Mental Health Epidemiology and Trends – Sakellari, Evanthia Pages 141-150

Mental Health Nurses and Responding to Suffering in the Twenty-first Century Occidental World: Accompanying People on Their Search for Meaning – Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 151-166

Acute Inpatient Psychiatric/Mental Health Nursing: Lessons Learned and Current Developments – Sande, Roland Pages 169-181

Community Psychiatric/Mental Health Nursing: Contexts and Challenges—The Case of Nurse Prescribing and Recovery-Focused Interventions -Hemingway, Steve (et al.) Pages 183-193

Unearthing the Theoretical Underpinnings of “Green Care” in Mental Health and Substance Misuse Care: History, Theoretical Origins, and Contemporary Clinical Examples -Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 195-210

Nursing People in Prisons, Forensics and Correctional Facilities – Dickinson, Tommy (et al.) Pages 211-222

eHealth, Telematics and Telehealth – Kilkku, Nina; Pages 223-233

Public Health and Ecological Approaches: The Example of eHealth for Adolescent Mental Health Support – Minna, Anttila (et al.) Pages 235-243

Forming and Maintaining Interpersonal Relationships – Lopes, Manuel José; Pages 247-257

Psychiatric/Mental Health Nursing Core Competencies: Communication Skills – Loureiro, Cândida (et al.) Pages 259-267

Group Work in Psychiatric/Mental Health Nursing: The Case for Psychoeducation as a Means to Therapeutic Ends – Gordon, Evelyn (et al.) Pages 269-282

A Family-Focused, Recovery Approach When Working with Families When a Parent Has a History of Mental Health Problems: From Theory to Practice – Maybery, Darryl (et al.) Pages 283-291

Psychiatric/Mental Health Nursing and Mental Health Promotion: An Eight Steps Path – Gomes, José Carlos Rodrigues; Pages 293-307

Therapeutic Milieu: Utilizing the Environment to Promote Mental Wellness – Green, Tyler D.; Pages 309-318

Psychiatric/Mental Health Nursing Nonphysical Competencies for Managing Violence and Aggression: De-escalation and Defusion – Bilgin, Hulya (et al.) Pages 319-333

 

Problems Affecting a Person’s Mood – López-Cortacans, German (et al.) Pages 337-352

The Person Experiencing Anxiety – McLaughlin, Columba; Pages 353-370

Integrated Care – ‘Schizophrenia’: A Challenge for Psychiatric/Mental Health Nursing – González-Pando, David (et al.) Pages 371-383

Human Experiences of and Psychiatric/Mental Health Nurses’ Responses to Problems Related to Dementias and Cognitive Impairment – Quaresma, Helena (et al.) Pages 385-394

Problems Related to Substance and Alcohol Misuse – Kutlu, Fatma Yasemin (et al.) Pages 395-421

Problems Related to Eating, Nutrition, and Body Image – Modica, Christopher; Pages 425-439

Suicide and Self-Harm – Santos, José Carlos; Pages 441-452

A Systematic Perspective of Violence and Aggression in Mental Health Care: Toward a More Comprehensive Understanding and Conceptualization – Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 453-477

The Withdrawn or Recalcitrant Client – Lakeman, Richard; Pages 479-492

Confronting Goffman: How Can Mental Health Nurses Effectively Challenge Stigma? A Critical View of the Literature – Bates, L. (et al.)  Pages 493-503

Psychiatric/Mental Health Nursing Care of Children and Adolescents – Nabais, António Jorge Soares Antunes (et al.) Pages 507-520

Psychiatric/Mental Health Nursing Care of the Older Adult: Mental Health in Old Age – Eriksson, Bengt (et al.) Pages 521-531

Psychiatric/Mental Health Nurses Care of the Client Who Presents with Both Mental Health and Substance Misuse Problems – Cutcliffe, John R. (et al.) Pages 533-548

Non-European and European Migrants in Acute Adult Inpatient Mental Healthcare: Dissociation and Identity – Souiah-Benchorab, Yasmine (et al.) Pages 549-560

Working with Individuals Who Are Homeless – Forchuk, Cheryl; Pages 561-570

Mental Health Problems and Risks in Refugees During Migration Processes and Experiences: Literature Overview and Interventions – Giulia, Cossu (et al.) Pages 571-585

Erratum to: European Psychiatric/Mental Health Nursing in the 21st Century – Santos, José Carlos (et al.)

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Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros.

Num grau inferior, as escolas. As de Espanha tinham-se ressentido dos ócios da província. A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocremente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os magísteres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi, e a tudo isso juntava-se a brutalidade da infância. Todavia, estimei alguns dos meus mestres e essas relações estranhamente íntimas e estranhamente ilusivas que existem entre o professor e o aluno e amei as sereias cantando no fundo de uma voz trémula, que pela primeira vez nos revela uma obra-prima ou nos dá a conhecer uma ideia nova. No fim de tudo, o maior sedutor não é Alcibíades, é Sócrates.

Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles.(…)  A leitura dos poetas teve efeitos mais perturbantes ainda: não tenho a certeza de que a descoberta do amor seja forçosamente mais deliciosa que a da poesia. Esta transformou-me: a iniciação da morte não me introduzirá mais profundamente num outro mundo que certo crepúsculo de Virgílio. Mais tarde preferi a rudeza de Énio, tão próxima das origens sagradas da raça, ou a sábia amargura de Lucrécio, ou à generosa abundância de Homero, a humilde parcimónia de Hesíodo. Apreciei sobretudo os poetas mais complicados e os mais obscuros, que obrigam o meu pensamento à mais difícil ginástica, os mais recentes ou os mais antigos, aqueles que me abrem caminhos novos ou me ajudam a reencontrar pistas perdidas. […]

Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Editora Ulisseia. pp.34-35.

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“A ciência como vocação”, Max Weber

É conhecido o conjunto de duas conferências de Max Weber (A política como vocação e a ciência como vocação)

Na “Ciência como vocação“, aqui traduzida por Artur Morão, compara vida universitária alemã e americana, com o estilo que lhe é característico, como:

“Que o acaso, e não só a competência, desempenhe um tão grande papel não depende apenas, e nem sequer principalmente, das fraquezas humanas que, decerto, se fazem sentir nesta selecção como em qualquer outra. Seria injusto atribuir as responsabilidades às fraquezas pessoais das Faculdades ou dos Ministérios pela circunstância de, sem dúvida, haver tantas mediocridades que desempenham nas universidades um papel importante.” (p. 5)

“Na ciência, pelo contrário, cada qual sabe que aquilo que produziu ficará antiquado dentro de dez, vinte ou cinquenta anos. Tal é o destino, o sentido do trabalho científico e ao qual este, diferentemente de todos os outros elementos da cultura,também eles sujeitos à mesma lei, está submetido e votado: toda a “realização” científica significa novas “questões” e quer ser ultrapassada,envelhecer. Quem pretende dedicar-se à ciência tem de contar com isto.Sem dúvida, há trabalhos científicos que podem conservar a sua importância de modo duradouro como “instrumentos de fruição”, por causada sua qualidade artística ou como meios de formação para o trabalho. Seja como for, importa repetir que ser cientificamente ultrapassado não é só o destino de todos nós, mas também toda a nossa finalidade. Não podemos trabalhar sem esperar que outros hão-de ir mais longe do que nós. Este progresso, em princípio, não tem fim. Chegamos assim ao problema do sentido da ciência.” (p. 12)

“Qual é, então, sob estes pressupostos, o sentido da ciência como profissão, após o naufrágio de todas as antigas ilusões: “caminho para o verdadeiro ser”, “caminho para a verdadeira arte”, “caminho para a verdadeira natureza”, “caminho para o verdadeiro Deus”, “caminho para a felicidade autêntica”? A resposta mais simples é a que Tolstoi forneceu com as seguintes palavras: “A ciência carece de sentido, pois não tem resposta algum para a única questão que nos interessa – “Que devemos fazer? Como devemos viver?”. Dificilmente se pode contestar o facto de que ela, com efeito, não faculta nenhuma resposta a esta questão. O problema é apenas este: em que sentido não oferece ela “nenhuma” resposta?” (p. 18)