# 7 – Livros Imperdíveis: “Discurso da servidão voluntária”, Etienne de La Boétie

Étienne de La Boétie nasceu dia 1 de novembro de 1530 e morreu a 18 de agosto de 1563, com 32 anos. Amigo de Michel de Montaigne, a quem legou todos os seus escritos. Tinha 18 anos quando escreveu o “Discurso da Servidão Voluntária”, Le Discours de la Servitude Volontaire  sobre os porquês que levam uma multidão a dispôr-se a servir, a escravizar-se. Etienne de La Boétie pergunta o que levava os povos podem submeter-se voluntariamente ao governo de um só homem, “tirano” como lhe chamou.

E procurou explicar as razões: em primeiro, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não a questionar;  por hábito, somos ensinados a servir, escravizamo-nos. É o costume que, à medida em que o tempo passa, nos leva não somente a engolir, pacientemente, os sapos venenosos da escravidão, mas até mesmo a desejá-lo: “pois por melhor que seja, o natural se perde se não é cultivado, enquanto o hábito sempre nos conforma à sua maneira, apesar de nossas tendências naturais.

Em segundo, a covardia – sob a tirania (mesmo que disfarçada), necessariamente os homens se acovardam, se escravizam: “Os escravos não tem ardor nem constância no combate. Só vão a ele como que obrigados, por assim dizer embotados, livrando-se de um dever com dificuldade: não sentem queimar em seu coração o fogo sagrado da liberdade, que faz enfrentar todos os perigos e desejar uma bela e gloriosa morte que nos honra para sempre junto aos nossos semelhantes. Entre os homens livres, ao contrário, é à discussão, polêmica, cada qual melhor, todos por um e cada um por todos: sabem que colherão uma parte igual no infortúnio da derrota ou na felicidade da vitória; mas os escravos, inteiramente sem coragem e vivacidade, têm o coração baixo e mole, e são incapazes de qualquer grande ação. Disso bem sabem os tiranos; assim, fazem todo o possível para torná-los sempre mais fracos e covardes. Artimanha dos tiranos: bestializar seus súditos!”. (versão português Brasil)

Também como instrumentos de alienação, a fim de adormecer o povo, disponibilizam-se meios de distração – “Os tiranos romanos foram longe [na política do pão e circo], festejando freqüentemente os homens das decúrias (homens do povo, agrupados de dez em dez, e alimentados às custas do tesouro público), empanturrando essa gente embrutecida e adulando-a por onde é mais fácil de prender, pelo prazer da boca. Por isso, o mais instruído dentre eles não teria largado sua tigela de sopa para recobrar a liberdade da República de Platão. Os tiranos distribuíam amplamente o quarto de trigo, o sesteiro de vinho, o sestércio [bolsa-família romana]; e então dava pena ouvir gritar: Viva o Rei! Os broncos não percebiam que, recebendo tudo isso, apenas recobravam uma parte de seu próprio bem, e que o tirano não teria podido dar-lhes a própria porção que recobravam se antes não a tivesse tirado deles mesmos. O que hoje apanhava o sestércio, o que se empanturrava no festim público abençoando Tibério e Nero por sua liberalidade, no dia seguinte, ao ser obrigado a abandonar seus bens à cobiça, seus filhos à luxuria, sua própria condição à crueldade desses magníficos imperadores ficavam mudos como uma pedra e imóvel como um tronco”.

E se a segunda razão (acompanhada da superstição em torno da figura do líder) é densa, há mais um elemento fundamental na servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura, na pirâmide de poder. A participação na tirania.

“são sempre quatro ou cinco homens que o apóiam e que para ele sujeitam o país inteiro. Sempre foi assim: cinco ou seis obtiveram o ouvido do tirano e por si mesmos dele se aproximaram ou então, foram chamados para serem os cúmplices de suas crueldades, os companheiros de seus prazeres, os complacentes para com suas volúpias sujas e os sócios de suas rapinas. Tão bem esses seis domam seu chefe que este se torna mau para com a sociedade, não só com suas próprias maldades, mas também com as deles. Esses seis têm seiscentos que debaixo deles domam e corrompem, como corromperam o tirano. Esses seiscentos mantêm sob sua dependência seis mil, que dignificam, aos quais fazem dar o governo das províncias ou o manejo dos dinheiros públicos, para que favoreçam sua avareza e crueldade, que as mantenham ou as exerçam no momento oportuno e, aliás, façam tanto mal que só possam se manter sob sua própria tutela e instar-se das leis e de suas penas através de sua proteção. Grande é a série que vêm depois deles. E quem quiser seguir o rastro não verá os seis mil mas cem mil, milhões que por essa via se agarram ao tirano, formando uma corrente ininterrupta que sobe até ele. Daí procedia o aumento do poder do senado sob Júlio César, o estabelecimento de novas funções, a escolha para os cargos – não para reorganizar a justiça, mas sim para dar novos sustentáculos à tirania. Em suma, pelos ganhos e parcelas de ganhos que se obtêm com os tiranos chega-se ao ponto em que, afinal, aqueles a quem a tirania é proveitosa são em número quase tão grande quanto aqueles para quem a liberdade seria útil. Que condição é mais miserável que a de viver assim, nada tendo de seu e recebendo de um outro sua satisfação, sua liberdade, seu corpo e sua vida! Mas eles querem servir para amealhar bens”.

Assim, o tirano domina meia dúzia e essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros.

Para dominar a meia dúzia, o tirano atira-lhes migalhas e aqueles, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros. Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão. Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesão, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos do tirano, estão afastados dessa liberdade.

E o que é curioso é que o povo sujeita-se, aceita o jugo, consente, apesar de lhe bastar decidir não servir mais. Assim, a servidão voluntária diz respeito à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”. É possível que os homens percam a liberdade pela força, mas o que surpreende é o fato de não lutarem para a reconquistar.

No livro, são descritos três tipos de tiranos, de maus Princípes: 1) os que o obtém o poder pela força das armas; 2) àqueles que o herdam por sucessão da raça e 3) os que chegam ao poder por eleição do povo. Os que o obtém pelo direito da guerra, agem como em terra conquistada; quanto aos reis, nascidos e criados no seio da tirania, consideram os povos a eles submetidos como servos hereditários, têm todo o Reino e seus súditos como extensão da sua herança. Quanto ao eleito pelo povo, não nos enganemos: ao se ver alçado a um posto tão elevado, tão alto – “lisonjeado por um não sei quê que chamam de grandeza” – toma a firme resolução de não abrir mão da res pública. “Quase sempre considera o poderio que lhe foi confiado pelo povo como se devesse ser transmitido a seus filhos”. Para La Boétie, é essa ideia funesta que o faz superar todos os outros tiranos em vícios de todo tipo e até em crueldades. Mas, independentemente da forma como o tirano tenha chegado ao poder, o que intriga é o fato de as pessoas continuarem a obedecer mesmo quando são prejudicadas por ele. É que o modus operandi é sempre o mesmo.

La Boétie salienta que “Para que os homens, enquanto neles resta vestígio de homem, se deixem sujeitar, é preciso uma das duas coisas: que sejam forçados ou iludidos. Iludidos, eles também perdem a liberdade; mas, então, menos frequentemente pela sedução de outrem do que por sua própria cegueira.”.

O povo cai em tão profundo esquecimento de seus direitos que é quase impossível acordá-lo. Serve tão mansamente e de tão bom grado que, ao observá-lo no torpor da servidão, se poderia dizer não que tenha perdido totalmente a liberdade, mas que nunca a conheceu: “no início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde, acostuma-se, e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens além dos que encontraram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural a própria condição de seu nascimento”.

“Sejam resolutos em não servir e vocês serão livres.” – Etienne de La Boétie

Cf.

Discurso da servidão voluntária (Português Brasil)

Le Discourse de la servitude volontaire

Edição eletrónica de Étienne de La Boétie

 

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# 6 – Livros Imperdíveis: “Sobre a tirania”, Timothy Snyder

Sobre a tirania, de 2017, foi escrita por um historiador da atualidade, Timothy Snyder, a quem foi atribuído, em 2013, o prémio Hannah Arendt, um reconhecimento decorrente do impacto que  Bloodlands – Europe Between Hitler and Stalin (2010)  (editado pela Bertrand com o nome Terra Sangrenta – a Europa entre Hitler e Estaline).

O livro imperdível é «Sobre a tirania – vinte lições para o séulo XX para o presente“, texto dirigido ao público em geral e a um público mais jovem, ao norte-americano em particular. O prólogo abre com o óbvio: “A história não se repete, mas ensina.”

As lições estão numeradas e começam com um pequeno resumo, em forma de máxima.

1. Do not obey in advance.
Much of the power of authoritarianism is freely given. In times like these, individuals think ahead about what a more repressive government will want, and then start to do it without being asked. You’ve already done this, haven’t you? Stop. Anticipatory obedience teaches authorities what is possible and accelerates unfreedom.
2. Defend an institution.
Follow the courts or the media, or a court or a newspaper. Do not speak of “our institutions” unless you are making them yours by acting on their behalf. Institutions don’t protect themselves. They go down like dominoes unless each is defended from the beginning.
3. Recall professional ethics.
When the leaders of state set a negative example, professional commitments to just practice become much more important. It is hard to break a rule­of­law state without lawyers, and it is hard to have show trials without judges.
4. When listening to politicians, distinguish certain words. Look out for the expansive use of “terrorism” and “extremism.” Be alive to the fatal notions of “exception” and “emergency.” Be angry about the treacherous use of patriotic vocabulary.
5. Be calm when the unthinkable arrives. When the terrorist attack comes, remember that all authoritarians at all times either await or plan such events in order to consolidate power. Think of the Reichstag fire. The sudden disaster that requires the end of the balance of power, the end of opposition parties, and so on, is the oldest trick in the Hitlerian book. Don’t fall for it.
6. Be kind to our language. Avoid pronouncing the phrases everyone else does. Think up your own way of speaking, even if only to convey that thing you think everyone is saying. (Don’t use the internet before bed. Charge your gadgets away from your bedroom, and read.) What to read? Perhaps “The Power of the Powerless” by Václav Havel, 1984 by George Orwell, The Captive Mind by Czesław Milosz, The Rebel by Albert Camus, The Origins of Totalitarianism by Hannah Arendt, or Nothing is True and Everything is Possible by Peter Pomerantsev.
7. Stand out. Someone has to. It is easy, in words and deeds, to follow along. It can feel strange to do or say something different. But without that unease, there is no freedom. And the moment you set an example, the spell of the status quo is broken, and others will follow.
8. Believe in truth. To abandon facts is to abandon freedom. If nothing is true, then no one can criticize power, because there is no basis upon which to do so. If nothing is true, then all is spectacle. The biggest wallet pays for the most blinding lights.
9. Investigate. Figure things out for yourself. Spend more time with long articles. Subsidize investigative journalism by
subscribing to print media. Realize that some of what is on your screen is there to harm you. Learn about sites that investigate foreign propaganda pushes.
10. Practice corporeal politics. Power wants your body softening in your chair and your emotions dissipating on the screen. Get outside. Put your body in unfamiliar places with unfamiliar people. Make new friends and march with them.
11. Make eye contact and small talk. This is not just polite. It is a way to stay in touch with your surroundings, break down unnecessary social barriers, and come to understand whom you should and should not trust. If we enter a culture of denunciation, you will want to know the psychological landscape of your daily life.
12. Take responsibility for the face of the world. Notice the swastikas and the other signs of hate. Do not look away and do not get used to them. Remove them yourself and set an example for others to do so.
13. Hinder the one­party state. The parties that took over states were once something else. They exploited a historical moment to make political life impossible for their rivals. Vote in local and state elections while you can.
14. Give regularly to good causes, if you can. Pick a charity and set up autopay. Then you will know that you have made a free choice that is supporting civil society helping others doing something good.
15. Establish a private life. Nastier rulers will use what they know about you to push you around. Scrub your computer of malware. Remember that email is skywriting. Consider using alternative forms of the internet, or simply using it less. Have personal exchanges in person. For the same reason, resolve any legal trouble. Authoritarianism works as a blackmail state, looking for the hook on which to hang you. Try not to have too many hooks.
16. Learn from others in other countries. Keep up your friendships abroad, or make new friends abroad. The present difficulties here are an element of a general trend. And no country is going to find a solution by itself. Make sure you and your family have passports.
17. Watch out for the paramilitaries. When the men with guns who have always claimed to be against the system start wearing uniforms and marching around with torches and pictures of a Leader, the end is nigh. When the pro­Leader paramilitary and the official police and military intermingle, the game is over.
18. Be reflective if you must be armed. If you carry a weapon in public service, God bless you and keep you. But know that evils of the past involved policemen and soldiers finding themselves, one day, doing irregular things. Be ready to say no. (If you do not know what this means, contact the United States Holocaust Memorial Museum and ask about training in professional ethics.)
19. Be as courageous as you can. If none of us is prepared to die for freedom, then all of us will die in unfreedom.
20. Be a patriot. The incoming president is not. Set a good example of what America means for the generations to come. They will need it.

 

 

 

# 5 – Livros Imperdíveis: Globalização, democracia e terrorismo, Eric Hobsbawm

A obra Globalização, democracia e terrorismo, do historiador Eric Hobsbawm, publicada no ano de 2007, é uma compilação de diversas palestras e conferências proferidas pelo autor no período compreendido entre os anos 2000 e 2006. Isso justifica a linguagem fluida e um certo tom de informalidade no modo de exposição das ideias na obra. (…)

Ao tratar das perspectivas da democracia no século XXI, o autor demonstra nítido ceticismo quanto ao modelo democrático amplamente disseminado entre os países de tradição liberal. Indica o apoio da maioria, a hegemonia do poder estatal, a aceitação da autoridade desse poder e sua aptidão exclusiva para prestar determinados serviços como premissas da política democrática, e demonstra que elas têm perdido a validade. Dentre os motivos da deterioração dessas premissas, apresenta: a) a perda do monopólio da força militar, já que armamentos e instrumentos de destruição estão facilmente acessíveis a grupos dissidentes; b) a fragilização dos pilares do governo estável, como a lealdade voluntária dos cidadãos ao Estado e a disposição de obediência desses cidadãos ao poder estabelecido; c) o enfraquecimento do poder do Estado pelo retorno a ideais ultraliberais, verificando-se a desregulamentação de mercados, a substituição de serviços públicos por privados com aumento de privatizações e a ampliação da crença de que o setor privado pode satisfazer necessidades que o Estado não pode ou que pode satisfazê-las de forma mais eficaz. O autor indica que o vazio gerado pelo enfraquecimento do Estado é preenchido pela soberania do mercado que, assim, encontra espaço para substituir o papel mobilizador do cidadão na política democrática, passando o consumidor a ocupar o lugar do cidadão.

(…) O autor prossegue tratando do tema “a ordem pública em uma era de violência”, abordado em uma conferência proferida no ano de 2006, a mais recente do livro, onde expõe o aumento da violência pública a nível mundial, destacando que a “desordem pública”, mesmo a provocada pela ação terrorista, não precisa de grandes recursos, nem de altas tecnologias. Ainda a respeito da ordem pública, cita a quebra, pelos indivíduos, de regras morais e de convenções sociais e o enfraquecimento das relações no seio da família, o que estaria gerando pessoas menos educadas, inclusive podendo-se verificar um aumento da delinquência juvenil a partir da segunda metade da década de 1960. Também indica a crise do modelo de Estado nacional territorial e a perda do monopólio não apenas da força armada, mas também das leis do Estado sobre outras leis de cunho religioso ou costumeiro. Menciona, ainda, a diminuição da lealdade que os cidadãos depositam no Estado e a redução da disposição de fazer o que ele lhes pede, o que impossibilitaria, por exemplo, a formação atual de um exército voluntário de pessoas dispostas a matar e morrer por seu país, como ocorreu nas duas primeiras guerras mundiais. Igualmente, o autor ressalta a menor disposição dos cidadãos em cumprir espontaneamente a lei, que é cumprida não pela confiança na norma, mas pelo temor de punição, e, ainda, a dificuldade que os Estados passam a ter de controlar aquilo que ocorre em seus territórios pelo aumento da circulação de bens e pessoas proporcionado pela globalização.

(…) Alerta para a gravidade do surgimento de um poder que, a despeito de não compreender o que acontece no mundo e nas diversas sociedades, tem força para nelas intervir militarmente caso suas decisões políticas estejam em desacordo com o ideal americano. Aponta a inexistência no momento atual de um poder hábil a competir com os Estados Unidos, como havia na época da União Soviética e, assim, as ações imperialistas americanas não estão mais limitadas pelo medo da reação de uma outra força. E, na falta do medo que limitava suas ações, o autor expõe a necessidade de que o interesse próprio esclarecido e a cultura ocupem esse vazio.”

Artigo de recensão da obra

# 4 Livros Imperdíveis – A Passo de caranguejo, Umberto Eco

“Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras no Afeganistão e no Iraque, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália. Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914. As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou. A pouco e pouco, o vídeo fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da Internet e das pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-Pod reinventou a rádio.

Terminada a Guerra-fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de «socorro, os Turcos!».

Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica antidarwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado pelos fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos). Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo.

Este livro não pretende explicar o que é que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.”

A ler, com carácter obrigatório, por quem se interesse por olhares críticos para este mundo em que vivemos. Eco pode até nem ser amável mas é acutilante; pode parecer céptico, mas obriga-nos a repensar.

# 3 – Livros imperdíveis: Atlas do corpo e da imaginação, Gonçalo M. Tavares

“ «Atlas do Corpo e da Imaginação» é uma obra de arte total”.

Podemos começar a ler onde quisermos… O objecto de reflexão é o próprio pensamento: “o que significa pensar?” ainda que o foco seja o corpo, pois o livro está construído em torno de quatro eixos entrelaçados: I – O corpo no método; II – O corpo no mundo; III – O corpo no corpo; IV – O corpo na imaginação.
Wittgenstein é uma (a mais) figura tutelar, na passagem do físico (mão, por exemplo) à intangibilidade do pensamento na escrita ou linguagem  – mas não é o único pois MGT conversa com Bachelar, com Foucault, com Freud, com Scheller, com Nietzsche…

A textualidade é a de um trabalho filosófico com intensidade –  a metáfora como processo, como método cognitivo e possibilidade estética. Naturalmente, é um «livro com camadas» interpretativas, entre os textos, as fotografias, as anotações. E reconhe-ase que o trabalho dos Espacialistas é fantástico.

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«[n]enhuma lei determina o fim do apetite ou a extinção do medo» (p.82)

«é o pensamento que faz existir a linguagem, que a tira do ornamento, do conceito de traço ou desenho informe. As palavras só não são desenhos – traços – sem sentido porque existe o pensamento.» (p. 489)

«Quando falamos de um pensamento que dança, falamos precisamente da execução dentro da cabeça de novos movimentos do pensamento.» (p.274)

«Tudo o que não se espera, tudo o que não é habitual, assusta. Uma das caras do mal é o imprevisível. Estamos, pois, nesta dança com o diabo, numa dança que não é mais do que um acordo, um entendimento de movimentos com o inesperado. Dançar com o diabo é tentar entender os movimentos do imprevisível, é fazer par com aquilo que se desconhece, com aquilo que não se compreende» (p. 269)

«No limite, um ser humano com uma dor extrema, constante, seria um ser humano irracional ou, pelo menos, sem hipótese de utilizar a sua racionalidade.» (p. 342).

«A ética não é mais do que a decisão primeira de não viver de qualquer modo, de não deixar que as circunstâncias determinem, a cada momento, as acções do indivíduo. A ética procura impor as acções antes de qualquer constrangimento: agirei independentemente do que aconteça.» (453-454)

“Errar, ou seja, circular de modo hesitante, só é útil e profundamente humano quando é feito em redor do que não tem resposta, do que não está ainda decidido, do que ainda nos espanta, do que ainda nos confronta, daquilo sobre o qual ainda se discute, argumenta, luta.” (p.28)

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“A parte final apresenta o horizonte da reflexão (…)  a multiplicidade de registos linguísticos e expressivos não são adornos. Eles são o timbre para entrar nessa grande viagem do corpo percecionado, sentido, visto, tocado, respirado, amado, pensado e contemplado. A passividade gestual não é ocasional, tal como não é passiva a originariedade do ser e do pensamento. O escritor chama justamente a este ato passivo, de receber algo do qual não se é a origem, um “investigar a partir de pontos conhecidos”, porque “todo o investigador investiga porque está perdido e será sensato não ter ilusão de que deixará de o estar. Deve sim, no final da sua investigação, estar mais forte. Continua perdido, mas está perdido com mais armas, com mais argumentos”. (fonte)

Apresentação aqui: “Atlas do Corpo e da Imaginação. Teoria, Fragmentos e Imagens de Gonçalo M. Tavares: um texto, um olhar, uma leitura”. Idália Sá-Chaves

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# 1 – Livros imperdíveis: Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz

# 2 – Livros imperdíveis: A condição humana, Hannah Arendt

# 2 – Livros imperdíveis: A condição humana, Hannah Arendt

Com prefácio de Paul Ricoeur, tem um pequeno esboço biográfico de Hannah Arendt, análise das diferenças com “Origens do totalitarismo”. Neste texto, Arendt visa identificar os traços mais duráveis da condição humana (os que são menos vulneráveis às vicissitudes da idade moderna).  E é pedra angular a distinção entre trabalho, obra e ação. Assim como entre Vita contemplativa e Vita activa, que preside às outras distinções posteriores: domínio público e domínio provado.

O texto é um reforço da antropologia filosófica – análises dedicadas à acção, história recontada (story) e historiografia (history), amplamente desenvolvidas na obra Le concept moderne d’Histoire (1958) e retomadas em “Between Past and Future“.

 

“A história de uma vida é uma espécie de compromisso do reencontro entre os acontecimentos iniciados pelo homem, enquanto agente da acção, e o jogo das circunstancias induzido pela rede de relações humanas. O resultado é uma história onde cada um é o herói sem ser o autor.”

“Vivemos numa sociedade de trabalhadores porque o trabalho sózinho, pela sua inerente fertilidade, tem probabilidades de fazer nascer a abundância; e nós mudámos a obra em trabalho, separámos em parcelas minúsculas o que se presta a divisão, onde se atenta ao denominador comum de execução mais simples de forma a fazer desaparecer, diante da força de trabalho, o obstáculo da estabilidade «contra-natura», puramente deste-mundo, o artífice humano. O trabalho e o consumo  não são senão dois estádios de um mesmo processo imposto ao homem pela necessidade da vida, que não é senão uma outra maneira de dizer que nós vivemos numa sociedade de trabalhadores.” (p. 176)

“A única excepção que a sociedade consente diz respeito ao artista que é estritamente obreiro (ouvrier) numa sociedade de trabalho. A mesma tendência a rebaixar todas as actividades sérias ao estatuto de ganha-pão (manifesta-se nas teorias do trabalho que o define como o contrário do jogo). Todas as actividades sérias, quaisquer que sejam os resultados, recebem o nome do trabalho e toda a actividade que não é necessária à vida do indivíduo nem ao processo vital da sociedade é alinhada entre os divertimentos.”  (p.177)

# 1 – Livros imperdíveis: Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz

Decidi começar esta rubrica de «Livros imperdíveis» com a Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz. Em boa verdade, li-os este Verão.

Abrir e começar a ler teve, de imediato, um certo encantamento. Verdade que já tinha visto referências mas “não é a mesma coisa”. Comecei a ler  Recolha de Alexandria, numa pausa breve. E logo o texto se impôs, me divertiu, me fez pensar. Me entreteve, pois as entradas por ordem alfabética, como enciclopédia, tanto são de uma crónica, um poema ou um aforismo. Se não tem muito tempo, gosta de pequenos texos ou histórias, e de poder continuar a ler, sem interrupções pelo tempo, esta é uma obra para fixar 🙂

E, a seguir, Arquivos de Dresdner.

“Frases, textos breves ou pequenas narrativas que, com mais ou menos rigor, podemos situar no âmbito do comentário, da citação, da paródia, da anedota, do enigma, do conto ou da parábola, pensamentos, aforismos, provérbios ou poemas são algumas das espécies textuais que surgem nesta Enciclopédia da Estória Universal sob a forma de verbetes, organizados alfabeticamente, cuja autoria é atribuída a personalidades empíricas ou inventadas. Ficção e História cruzam-se, invenção e realidade combinam-se, saberes distintos e supostamente inconciliáveis comunicam, humor, ironia e sátira dialogam, uma bibliografia vasta mas inexistente ou reescrita interpela-nos, e o que daqui resulta é uma obra em vários volumes que se nos impõe como conhecimento lúdico e simultaneamente sério do mundo e do humano. (…) As palavras e as narrativas breves, mais e menos verosímeis, mais ou menos realistas ou insólitas, estranhas, são um modo de entrar nesse mundo infinito e desconcertante, de o revelar e recriar. A fantasia dos relatos mais absurdos, que nascem de paradoxos, hipérboles, amplificações e distorções, são, como acontece em muita da grande literatura universal (Kafka, Beckett…), uma fuga do real e um regresso ao real. Este jogo sem princípio nem fim que é Enciclopédia da Estória Universal alimenta-se de um saber alegre e exaltante, não de um conhecimento monolítico e estéril, e sustenta-o uma metodologia em que entram a tensão entre realidade e imaginação, história, cultura, sociologia, antropologia e literatura, e o ato filosófico essencial: saber o que é o ser humano e a vida, que verdades existem, como se constroem e desconstroem.”

In Literatura e conhecimento: Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz
Carlos Nogueira, Revista Lusófona de Educação, 28, 2014, p. 151-161

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