# 5 – Livros Imperdíveis: Globalização, democracia e terrorismo, Eric Hobsbawm

A obra Globalização, democracia e terrorismo, do historiador Eric Hobsbawm, publicada no ano de 2007, é uma compilação de diversas palestras e conferências proferidas pelo autor no período compreendido entre os anos 2000 e 2006. Isso justifica a linguagem fluida e um certo tom de informalidade no modo de exposição das ideias na obra. (…)

Ao tratar das perspectivas da democracia no século XXI, o autor demonstra nítido ceticismo quanto ao modelo democrático amplamente disseminado entre os países de tradição liberal. Indica o apoio da maioria, a hegemonia do poder estatal, a aceitação da autoridade desse poder e sua aptidão exclusiva para prestar determinados serviços como premissas da política democrática, e demonstra que elas têm perdido a validade. Dentre os motivos da deterioração dessas premissas, apresenta: a) a perda do monopólio da força militar, já que armamentos e instrumentos de destruição estão facilmente acessíveis a grupos dissidentes; b) a fragilização dos pilares do governo estável, como a lealdade voluntária dos cidadãos ao Estado e a disposição de obediência desses cidadãos ao poder estabelecido; c) o enfraquecimento do poder do Estado pelo retorno a ideais ultraliberais, verificando-se a desregulamentação de mercados, a substituição de serviços públicos por privados com aumento de privatizações e a ampliação da crença de que o setor privado pode satisfazer necessidades que o Estado não pode ou que pode satisfazê-las de forma mais eficaz. O autor indica que o vazio gerado pelo enfraquecimento do Estado é preenchido pela soberania do mercado que, assim, encontra espaço para substituir o papel mobilizador do cidadão na política democrática, passando o consumidor a ocupar o lugar do cidadão.

(…) O autor prossegue tratando do tema “a ordem pública em uma era de violência”, abordado em uma conferência proferida no ano de 2006, a mais recente do livro, onde expõe o aumento da violência pública a nível mundial, destacando que a “desordem pública”, mesmo a provocada pela ação terrorista, não precisa de grandes recursos, nem de altas tecnologias. Ainda a respeito da ordem pública, cita a quebra, pelos indivíduos, de regras morais e de convenções sociais e o enfraquecimento das relações no seio da família, o que estaria gerando pessoas menos educadas, inclusive podendo-se verificar um aumento da delinquência juvenil a partir da segunda metade da década de 1960. Também indica a crise do modelo de Estado nacional territorial e a perda do monopólio não apenas da força armada, mas também das leis do Estado sobre outras leis de cunho religioso ou costumeiro. Menciona, ainda, a diminuição da lealdade que os cidadãos depositam no Estado e a redução da disposição de fazer o que ele lhes pede, o que impossibilitaria, por exemplo, a formação atual de um exército voluntário de pessoas dispostas a matar e morrer por seu país, como ocorreu nas duas primeiras guerras mundiais. Igualmente, o autor ressalta a menor disposição dos cidadãos em cumprir espontaneamente a lei, que é cumprida não pela confiança na norma, mas pelo temor de punição, e, ainda, a dificuldade que os Estados passam a ter de controlar aquilo que ocorre em seus territórios pelo aumento da circulação de bens e pessoas proporcionado pela globalização.

(…) Alerta para a gravidade do surgimento de um poder que, a despeito de não compreender o que acontece no mundo e nas diversas sociedades, tem força para nelas intervir militarmente caso suas decisões políticas estejam em desacordo com o ideal americano. Aponta a inexistência no momento atual de um poder hábil a competir com os Estados Unidos, como havia na época da União Soviética e, assim, as ações imperialistas americanas não estão mais limitadas pelo medo da reação de uma outra força. E, na falta do medo que limitava suas ações, o autor expõe a necessidade de que o interesse próprio esclarecido e a cultura ocupem esse vazio.”

Artigo de recensão da obra

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# 4 Livros Imperdíveis – A Passo de caranguejo, Umberto Eco

“Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras no Afeganistão e no Iraque, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália. Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914. As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou. A pouco e pouco, o vídeo fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da Internet e das pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-Pod reinventou a rádio.

Terminada a Guerra-fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de «socorro, os Turcos!».

Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica antidarwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado pelos fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos). Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo.

Este livro não pretende explicar o que é que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.”

A ler, com carácter obrigatório, por quem se interesse por olhares críticos para este mundo em que vivemos. Eco pode até nem ser amável mas é acutilante; pode parecer céptico, mas obriga-nos a repensar.

# 3 – Livros imperdíveis: Atlas do corpo e da imaginação, Gonçalo M. Tavares

“ «Atlas do Corpo e da Imaginação» é uma obra de arte total”.

Podemos começar a ler onde quisermos… O objecto de reflexão é o próprio pensamento: “o que significa pensar?” ainda que o foco seja o corpo, pois o livro está construído em torno de quatro eixos entrelaçados: I – O corpo no método; II – O corpo no mundo; III – O corpo no corpo; IV – O corpo na imaginação.
Wittgenstein é uma (a mais) figura tutelar, na passagem do físico (mão, por exemplo) à intangibilidade do pensamento na escrita ou linguagem  – mas não é o único pois MGT conversa com Bachelar, com Foucault, com Freud, com Scheller, com Nietzsche…

A textualidade é a de um trabalho filosófico com intensidade –  a metáfora como processo, como método cognitivo e possibilidade estética. Naturalmente, é um «livro com camadas» interpretativas, entre os textos, as fotografias, as anotações. E reconhe-ase que o trabalho dos Espacialistas é fantástico.

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«[n]enhuma lei determina o fim do apetite ou a extinção do medo» (p.82)

«é o pensamento que faz existir a linguagem, que a tira do ornamento, do conceito de traço ou desenho informe. As palavras só não são desenhos – traços – sem sentido porque existe o pensamento.» (p. 489)

«Quando falamos de um pensamento que dança, falamos precisamente da execução dentro da cabeça de novos movimentos do pensamento.» (p.274)

«Tudo o que não se espera, tudo o que não é habitual, assusta. Uma das caras do mal é o imprevisível. Estamos, pois, nesta dança com o diabo, numa dança que não é mais do que um acordo, um entendimento de movimentos com o inesperado. Dançar com o diabo é tentar entender os movimentos do imprevisível, é fazer par com aquilo que se desconhece, com aquilo que não se compreende» (p. 269)

«No limite, um ser humano com uma dor extrema, constante, seria um ser humano irracional ou, pelo menos, sem hipótese de utilizar a sua racionalidade.» (p. 342).

«A ética não é mais do que a decisão primeira de não viver de qualquer modo, de não deixar que as circunstâncias determinem, a cada momento, as acções do indivíduo. A ética procura impor as acções antes de qualquer constrangimento: agirei independentemente do que aconteça.» (453-454)

“Errar, ou seja, circular de modo hesitante, só é útil e profundamente humano quando é feito em redor do que não tem resposta, do que não está ainda decidido, do que ainda nos espanta, do que ainda nos confronta, daquilo sobre o qual ainda se discute, argumenta, luta.” (p.28)

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“A parte final apresenta o horizonte da reflexão (…)  a multiplicidade de registos linguísticos e expressivos não são adornos. Eles são o timbre para entrar nessa grande viagem do corpo percecionado, sentido, visto, tocado, respirado, amado, pensado e contemplado. A passividade gestual não é ocasional, tal como não é passiva a originariedade do ser e do pensamento. O escritor chama justamente a este ato passivo, de receber algo do qual não se é a origem, um “investigar a partir de pontos conhecidos”, porque “todo o investigador investiga porque está perdido e será sensato não ter ilusão de que deixará de o estar. Deve sim, no final da sua investigação, estar mais forte. Continua perdido, mas está perdido com mais armas, com mais argumentos”. (fonte)

Apresentação aqui: “Atlas do Corpo e da Imaginação. Teoria, Fragmentos e Imagens de Gonçalo M. Tavares: um texto, um olhar, uma leitura”. Idália Sá-Chaves

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# 1 – Livros imperdíveis: Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz

# 2 – Livros imperdíveis: A condição humana, Hannah Arendt

# 2 – Livros imperdíveis: A condição humana, Hannah Arendt

Com prefácio de Paul Ricoeur, tem um pequeno esboço biográfico de Hannah Arendt, análise das diferenças com “Origens do totalitarismo”. Neste texto, Arendt visa identificar os traços mais duráveis da condição humana (os que são menos vulneráveis às vicissitudes da idade moderna).  E é pedra angular a distinção entre trabalho, obra e ação. Assim como entre Vita contemplativa e Vita activa, que preside às outras distinções posteriores: domínio público e domínio provado.

O texto é um reforço da antropologia filosófica – análises dedicadas à acção, história recontada (story) e historiografia (history), amplamente desenvolvidas na obra Le concept moderne d’Histoire (1958) e retomadas em “Between Past and Future“.

 

“A história de uma vida é uma espécie de compromisso do reencontro entre os acontecimentos iniciados pelo homem, enquanto agente da acção, e o jogo das circunstancias induzido pela rede de relações humanas. O resultado é uma história onde cada um é o herói sem ser o autor.”

“Vivemos numa sociedade de trabalhadores porque o trabalho sózinho, pela sua inerente fertilidade, tem probabilidades de fazer nascer a abundância; e nós mudámos a obra em trabalho, separámos em parcelas minúsculas o que se presta a divisão, onde se atenta ao denominador comum de execução mais simples de forma a fazer desaparecer, diante da força de trabalho, o obstáculo da estabilidade «contra-natura», puramente deste-mundo, o artífice humano. O trabalho e o consumo  não são senão dois estádios de um mesmo processo imposto ao homem pela necessidade da vida, que não é senão uma outra maneira de dizer que nós vivemos numa sociedade de trabalhadores.” (p. 176)

“A única excepção que a sociedade consente diz respeito ao artista que é estritamente obreiro (ouvrier) numa sociedade de trabalho. A mesma tendência a rebaixar todas as actividades sérias ao estatuto de ganha-pão (manifesta-se nas teorias do trabalho que o define como o contrário do jogo). Todas as actividades sérias, quaisquer que sejam os resultados, recebem o nome do trabalho e toda a actividade que não é necessária à vida do indivíduo nem ao processo vital da sociedade é alinhada entre os divertimentos.”  (p.177)

# 1 – Livros imperdíveis: Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz

Decidi começar esta rubrica de «Livros imperdíveis» com a Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz. Em boa verdade, li-os este Verão.

Abrir e começar a ler teve, de imediato, um certo encantamento. Verdade que já tinha visto referências mas “não é a mesma coisa”. Comecei a ler  Recolha de Alexandria, numa pausa breve. E logo o texto se impôs, me divertiu, me fez pensar. Me entreteve, pois as entradas por ordem alfabética, como enciclopédia, tanto são de uma crónica, um poema ou um aforismo. Se não tem muito tempo, gosta de pequenos texos ou histórias, e de poder continuar a ler, sem interrupções pelo tempo, esta é uma obra para fixar 🙂

E, a seguir, Arquivos de Dresdner.

“Frases, textos breves ou pequenas narrativas que, com mais ou menos rigor, podemos situar no âmbito do comentário, da citação, da paródia, da anedota, do enigma, do conto ou da parábola, pensamentos, aforismos, provérbios ou poemas são algumas das espécies textuais que surgem nesta Enciclopédia da Estória Universal sob a forma de verbetes, organizados alfabeticamente, cuja autoria é atribuída a personalidades empíricas ou inventadas. Ficção e História cruzam-se, invenção e realidade combinam-se, saberes distintos e supostamente inconciliáveis comunicam, humor, ironia e sátira dialogam, uma bibliografia vasta mas inexistente ou reescrita interpela-nos, e o que daqui resulta é uma obra em vários volumes que se nos impõe como conhecimento lúdico e simultaneamente sério do mundo e do humano. (…) As palavras e as narrativas breves, mais e menos verosímeis, mais ou menos realistas ou insólitas, estranhas, são um modo de entrar nesse mundo infinito e desconcertante, de o revelar e recriar. A fantasia dos relatos mais absurdos, que nascem de paradoxos, hipérboles, amplificações e distorções, são, como acontece em muita da grande literatura universal (Kafka, Beckett…), uma fuga do real e um regresso ao real. Este jogo sem princípio nem fim que é Enciclopédia da Estória Universal alimenta-se de um saber alegre e exaltante, não de um conhecimento monolítico e estéril, e sustenta-o uma metodologia em que entram a tensão entre realidade e imaginação, história, cultura, sociologia, antropologia e literatura, e o ato filosófico essencial: saber o que é o ser humano e a vida, que verdades existem, como se constroem e desconstroem.”

In Literatura e conhecimento: Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz
Carlos Nogueira, Revista Lusófona de Educação, 28, 2014, p. 151-161

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