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Sem fins lucrativos, Martha Nussbaum

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“As humanidades e as artes vêm sendo eliminadas, quer na educação primária e secundária quer no ensino superior, em praticamente todos os países do mundo. Consideradas pelos decisores políticos adereços inúteos, num tempo em que as nações têm de cortar todas as coisas supérfluas de modo a manter-se competitivas no mercado global, estão rapidamente a perder o seu lugar nos currículos e nas mentes e nos corações de pais e crianças. Na verdade, o aspeto imaginativo e criativo e os aspetos do pensamento crítico rigoroso – aquilo a que poderíamos chamar os aspetos humanistas da ciência e da ciência social – estão igualmente a perder espaço, à medida que os países preferem dedicar-se ao lucro de curto prazo através do desenvolvimento das competências úteis e profundamente técnicas adequadas à geração de lucro.

Esta crise está diante de nós, mas ainda não a enfrentámos. Seguimos em frente comos e nada se passasse, quando, na realidade, são notórias grandes alterações por toda a parte. Ainda não refletimos acerca destas alterações, nem sequer aas escolhemos e, no entanto, elas limitam cada vez mais o nosso futuro”

Martha Nussbaum, Sem fins lucrativos, p. 38-39

Uma leitura imprescindível para quem se preocupa com o facto de estarmos a tratar a educação como se “o objetivo principal fosse ensinar os alunos a serem economicamente produtivos, em vez de lhes fornecer ferramentas para pensarem criticamente enquanto indivíduos conhecedores e empáticos”, o que também nos leva a constatar que a crise das ciências humanas está longe de diminuir.

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“A morte da competência. Os perigos da campanha contra o conhecimento estabelecido.” Tom Nichols

Quando o comprei, não estava realmente à espera que me deliciasse e entretivesse. E instruísse, ao mesmo tempo. De tal forma que faço um post sobre ele, ainda não passei do primeiro capítulo – estou na «ascensão do eleitor pouco informado» (p. 45).

Como o autor conta no prólogo, começou por escrever um artigo – que vos convido a ler aqui. “Se escrevo este livro é por estar preocupado.” Deixo uns excertos do artigo e a promessa de voltar aqui quando acabar…

The Death Of Expertise

I fear we are witnessing the “death of expertise”: a Google-fueled, Wikipedia-based, blog-sodden collapse of any division between professionals and laymen, students and teachers, knowers and wonderers – in other words, between those of any achievement in an area and those with none at all. By this, I do not mean the death of actual expertise, the knowledge of specific things that sets some people apart from others in various areas. There will always be doctors, lawyers, engineers, and other specialists in various fields. Rather, what I fear has died is any acknowledgement of expertise as anything that should alter our thoughts or change the way we live.

What has died is any acknowledgement of expertise as anything that should alter our thoughts or change the way we live.

This is a very bad thing. Yes, it’s true that experts can make mistakes, as disasters from thalidomide to the Challenger explosion tragically remind us. But mostly, experts have a pretty good batting average compared to laymen: doctors, whatever their errors, seem to do better with most illnesses than faith healers or your Aunt Ginny and her special chicken gut poultice. To reject the notion of expertise, and to replace it with a sanctimonious insistence that every person has a right to his or her own opinion, is silly.

Worse, it’s dangerous. The death of expertise is a rejection not only of knowledge, but of the ways in which we gain knowledge and learn about things. Fundamentally, it’s a rejection of science and rationality, which are the foundations of Western civilization itself. Yes, I said “Western civilization”: that paternalistic, racist, ethnocentric approach to knowledge that created the nuclear bomb, the Edsel, and New Coke, but which also keeps diabetics alive, lands mammoth airliners in the dark, and writes documents like the Charter of the United Nations.

This isn’t just about politics, which would be bad enough. No, it’s worse than that: the perverse effect of the death of expertise is that without real experts, everyone is an expert on everything. To take but one horrifying example, we live today in an advanced post-industrial country that is now fighting a resurgence of whooping cough — a scourge nearly eliminated a century ago — merely because otherwise intelligent people have been second-guessing their doctors and refusing to vaccinate their kids after reading stuff written by people who know exactly zip about medicine.

In politics, too, the problem has reached ridiculous proportions. People in political debates no longer distinguish the phrase “you’re wrong” from the phrase “you’re stupid.” To disagree is to insult. To correct another is to be a hater. And to refuse to acknowledge alternative views, no matter how fantastic or inane, is to be closed-minded.

How conversation became exhausting

Critics might dismiss all this by saying that everyone has a right to participate in the public sphere. That’s true. But every discussion must take place within limits and above a certain baseline of competence. And competence is sorely lacking in the public arena. People with strong views on going to war in other countries can barely find their own nation on a map; people who want to punish Congress for this or that law can’t name their own member of the House.

People with strong views on going to war in other countries can barely find their own nation on a map.

None of this ignorance stops people from arguing as though they are research scientists. Tackle a complex policy issue with a layman today, and you will get snippy and sophistic demands to show ever increasing amounts of “proof” or “evidence” for your case, even though the ordinary interlocutor in such debates isn’t really equipped to decide what constitutes “evidence” or to know it when it’s presented. The use of evidence is a specialized form of knowledge that takes a long time to learn, which is why articles and books are subjected to “peer review” and not to “everyone review,” but don’t tell that to someone hectoring you about the how things really work in Moscow or Beijing or Washington.

…………………

O populismo contemporâneo aumentou o desdém pelos peritos e elites de todo o género na política externa, na cultura, na economia, e até mesmo na ciência e na saúde. Tom Nichols analisa e desmonta o manancial inesgotável de rumores, mentiras, análise pouco séria, especulação e propaganda – e a tendência para «procurar informações que apenas confirmam aquilo em que acreditamos». Segundo o autor, os ataques ao conhecimento e à cultura levam à convicção irracional de que qualquer um – depois de frequentar os fóruns da Internet – é tão bem preparado como um perito para discutir seja que assunto for. «A Morte da Competência», uma análise da irracionalidade da política e da comunicação de hoje, é um livro refrescante e oportuno sobre como equilibrar o nosso ceticismo. aqui

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Livros e leituras: “Embalando a minha biblioteca”, Alberto Mangel

Uma leitura que surpreende, pela frescura, pela erudição, pelas tantas manifestações de amor aos livros. Inevitável, o sorriso em algumas partes ou o aceno concordante de cabeça. A afinidade com algumas partes da obra. Se ainda não leu, recomendo vivamente – a quem gosta de livros, pela adesão à narrativa; a quem nem por isso, potencia alguma compreensão sobre os que se assumem visceralmente como leitores.

“Muitas vezes senti que a minha biblioteca explicava quem eu era, me conferia um eu sempre em mudança, que se transformava constantemente ao longo dos anos.” (p. 15)

“Em todos os lugares onde me instalei, começou a crescer uma biblioteca como que por geração espontânea. Colecionei livros em Paris, em Londres, em Milão, no calor húmido do Taiti (os meus romances de Melville ainda têm traços de bolor polinésio), em Toronto e em Calgary. Depois, quando chegava a hora de partir, embalava-os em caixas e obrigava-os a esperar com a paciência possível em arrecadações tumulares, na esperança incerta da ressurreição” (p. 19)

Por volta de 1931, Walter Benjamin escreveu um ensaio breve e hoje famoso acerca da relação entre os leitores e os seus livros. Chamou-lhe “Desembalar a minha Biblioteca: um discurso acerca da arte de colecionar” e aproveitou a ocasião de retirar de caixotes os seus quase dois mil livros para discorrer sobre os privilégios e as responsabilidades de um leitor. ” (p. 27-8)

“Embalar e desembalar são dois lados do mesmo impulso, e ambos revestem de significado um momento de caos” (p. 28)

Embalar, pelo contrário, é um exercício de esquecimento. É como ver um filme de trás para a frente, consignando narrativas visíveis e uma realidade metódica, para as regiões do distante e do não visto, um oblívio voluntário. […] Se desembalar a biblioteca é um ato selvagem de renascimento, embalá-la é sepultá-la ordenadamente antes do julgamento aparentemente final. Em vez das colunas intermináveis e instáveis de livros ressuscitados prestes a serem presenteados com um lugar, de acordo com virtudes privadas e vícios caprichosos, o seu agrupamento passa a ser estabelecido por uma vala comum, anónima, que transforma o mundo deles das estentóreas duas dimensões de uma estante nas três dimensões de uma caixa de cartão.” p.(36)

“Para mim, não há resignação possível no acto de embalar uma biblioteca. Subir e descer um escadote para chegar aos livros a empacotar, retirar os bibelôs e as fotografias que se postam como figuras evocativas à frente deles, retirar cada volume da prateleira, guardá-lo na sua mortalha de papel, são gestos melancólicos, reflexivos, com um traço de longa despedida. As fileiras desmanteladas e prestes a desaparecer, condenadas a existir (se ainda existem) no reino nada fiável da minha memória, tornam-se pistas fantasmagóricas para um enigma privado. Quando desembalei os livros, não me preocupei muito em atribuir sentido às memórias ou pô-las numa ordem coerente. Mas, quando os embalei, senti que tinha de descobrir, como num dos meus policiais, quem era o responsável por aquele cadáver desmembrado, a causa exacta da morte. No Processo de Kafka, depois de Josef K. ser detido por um crime jamais especificado, a senhoria diz-lhe que o tormento dele lhe parece «qualquer coisa erudita que não compreendo, mas que uma pessoa também não tem de compreender». «Etwas Gelehrtes», escreve Kafka. Foi isto que a mecânica impenetrável por trás da perda da minha biblioteca me pareceu.” (p. 38)

“O reconforto é essencial. Os objectos reconfortantes na minha mesinha-de-cabeceira são (sempre foram) livros e a minha biblioteca era, ela mesma, um lugar de conforto e consolo tranquilo. Talvez os livros tenham essa qualidade de nos consolar porque não os possuímos: são os livros que nos possuem.” (p. 54)

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# 7 – Livros Imperdíveis: “Discurso da servidão voluntária”, Etienne de La Boétie

Étienne de La Boétie nasceu dia 1 de novembro de 1530 e morreu a 18 de agosto de 1563, com 32 anos. Amigo de Michel de Montaigne, a quem legou todos os seus escritos. Tinha 18 anos quando escreveu o “Discurso da Servidão Voluntária”, Le Discours de la Servitude Volontaire  sobre os porquês que levam uma multidão a dispôr-se a servir, a escravizar-se. Etienne de La Boétie pergunta o que levava os povos podem submeter-se voluntariamente ao governo de um só homem, “tirano” como lhe chamou.

E procurou explicar as razões: em primeiro, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não a questionar;  por hábito, somos ensinados a servir, escravizamo-nos. É o costume que, à medida em que o tempo passa, nos leva não somente a engolir, pacientemente, os sapos venenosos da escravidão, mas até mesmo a desejá-lo: “pois por melhor que seja, o natural se perde se não é cultivado, enquanto o hábito sempre nos conforma à sua maneira, apesar de nossas tendências naturais.

Em segundo, a covardia – sob a tirania (mesmo que disfarçada), necessariamente os homens se acovardam, se escravizam: “Os escravos não tem ardor nem constância no combate. Só vão a ele como que obrigados, por assim dizer embotados, livrando-se de um dever com dificuldade: não sentem queimar em seu coração o fogo sagrado da liberdade, que faz enfrentar todos os perigos e desejar uma bela e gloriosa morte que nos honra para sempre junto aos nossos semelhantes. Entre os homens livres, ao contrário, é à discussão, polêmica, cada qual melhor, todos por um e cada um por todos: sabem que colherão uma parte igual no infortúnio da derrota ou na felicidade da vitória; mas os escravos, inteiramente sem coragem e vivacidade, têm o coração baixo e mole, e são incapazes de qualquer grande ação. Disso bem sabem os tiranos; assim, fazem todo o possível para torná-los sempre mais fracos e covardes. Artimanha dos tiranos: bestializar seus súditos!”. (versão português Brasil)

Também como instrumentos de alienação, a fim de adormecer o povo, disponibilizam-se meios de distração – “Os tiranos romanos foram longe [na política do pão e circo], festejando freqüentemente os homens das decúrias (homens do povo, agrupados de dez em dez, e alimentados às custas do tesouro público), empanturrando essa gente embrutecida e adulando-a por onde é mais fácil de prender, pelo prazer da boca. Por isso, o mais instruído dentre eles não teria largado sua tigela de sopa para recobrar a liberdade da República de Platão. Os tiranos distribuíam amplamente o quarto de trigo, o sesteiro de vinho, o sestércio [bolsa-família romana]; e então dava pena ouvir gritar: Viva o Rei! Os broncos não percebiam que, recebendo tudo isso, apenas recobravam uma parte de seu próprio bem, e que o tirano não teria podido dar-lhes a própria porção que recobravam se antes não a tivesse tirado deles mesmos. O que hoje apanhava o sestércio, o que se empanturrava no festim público abençoando Tibério e Nero por sua liberalidade, no dia seguinte, ao ser obrigado a abandonar seus bens à cobiça, seus filhos à luxuria, sua própria condição à crueldade desses magníficos imperadores ficavam mudos como uma pedra e imóvel como um tronco”.

E se a segunda razão (acompanhada da superstição em torno da figura do líder) é densa, há mais um elemento fundamental na servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura, na pirâmide de poder. A participação na tirania.

“são sempre quatro ou cinco homens que o apóiam e que para ele sujeitam o país inteiro. Sempre foi assim: cinco ou seis obtiveram o ouvido do tirano e por si mesmos dele se aproximaram ou então, foram chamados para serem os cúmplices de suas crueldades, os companheiros de seus prazeres, os complacentes para com suas volúpias sujas e os sócios de suas rapinas. Tão bem esses seis domam seu chefe que este se torna mau para com a sociedade, não só com suas próprias maldades, mas também com as deles. Esses seis têm seiscentos que debaixo deles domam e corrompem, como corromperam o tirano. Esses seiscentos mantêm sob sua dependência seis mil, que dignificam, aos quais fazem dar o governo das províncias ou o manejo dos dinheiros públicos, para que favoreçam sua avareza e crueldade, que as mantenham ou as exerçam no momento oportuno e, aliás, façam tanto mal que só possam se manter sob sua própria tutela e instar-se das leis e de suas penas através de sua proteção. Grande é a série que vêm depois deles. E quem quiser seguir o rastro não verá os seis mil mas cem mil, milhões que por essa via se agarram ao tirano, formando uma corrente ininterrupta que sobe até ele. Daí procedia o aumento do poder do senado sob Júlio César, o estabelecimento de novas funções, a escolha para os cargos – não para reorganizar a justiça, mas sim para dar novos sustentáculos à tirania. Em suma, pelos ganhos e parcelas de ganhos que se obtêm com os tiranos chega-se ao ponto em que, afinal, aqueles a quem a tirania é proveitosa são em número quase tão grande quanto aqueles para quem a liberdade seria útil. Que condição é mais miserável que a de viver assim, nada tendo de seu e recebendo de um outro sua satisfação, sua liberdade, seu corpo e sua vida! Mas eles querem servir para amealhar bens”.

Assim, o tirano domina meia dúzia e essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros.

Para dominar a meia dúzia, o tirano atira-lhes migalhas e aqueles, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros. Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão. Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesão, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos do tirano, estão afastados dessa liberdade.

E o que é curioso é que o povo sujeita-se, aceita o jugo, consente, apesar de lhe bastar decidir não servir mais. Assim, a servidão voluntária diz respeito à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”. É possível que os homens percam a liberdade pela força, mas o que surpreende é o fato de não lutarem para a reconquistar.

No livro, são descritos três tipos de tiranos, de maus Princípes: 1) os que o obtém o poder pela força das armas; 2) àqueles que o herdam por sucessão da raça e 3) os que chegam ao poder por eleição do povo. Os que o obtém pelo direito da guerra, agem como em terra conquistada; quanto aos reis, nascidos e criados no seio da tirania, consideram os povos a eles submetidos como servos hereditários, têm todo o Reino e seus súditos como extensão da sua herança. Quanto ao eleito pelo povo, não nos enganemos: ao se ver alçado a um posto tão elevado, tão alto – “lisonjeado por um não sei quê que chamam de grandeza” – toma a firme resolução de não abrir mão da res pública. “Quase sempre considera o poderio que lhe foi confiado pelo povo como se devesse ser transmitido a seus filhos”. Para La Boétie, é essa ideia funesta que o faz superar todos os outros tiranos em vícios de todo tipo e até em crueldades. Mas, independentemente da forma como o tirano tenha chegado ao poder, o que intriga é o fato de as pessoas continuarem a obedecer mesmo quando são prejudicadas por ele. É que o modus operandi é sempre o mesmo.

La Boétie salienta que “Para que os homens, enquanto neles resta vestígio de homem, se deixem sujeitar, é preciso uma das duas coisas: que sejam forçados ou iludidos. Iludidos, eles também perdem a liberdade; mas, então, menos frequentemente pela sedução de outrem do que por sua própria cegueira.”.

O povo cai em tão profundo esquecimento de seus direitos que é quase impossível acordá-lo. Serve tão mansamente e de tão bom grado que, ao observá-lo no torpor da servidão, se poderia dizer não que tenha perdido totalmente a liberdade, mas que nunca a conheceu: “no início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde, acostuma-se, e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens além dos que encontraram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural a própria condição de seu nascimento”.

“Sejam resolutos em não servir e vocês serão livres.” – Etienne de La Boétie

Cf.

Discurso da servidão voluntária (Português Brasil)

Le Discourse de la servitude volontaire

Edição eletrónica de Étienne de La Boétie

 

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# 6 – Livros Imperdíveis: “Sobre a tirania”, Timothy Snyder

Sobre a tirania, de 2017, foi escrita por um historiador da atualidade, Timothy Snyder, a quem foi atribuído, em 2013, o prémio Hannah Arendt, um reconhecimento decorrente do impacto que  Bloodlands – Europe Between Hitler and Stalin (2010)  (editado pela Bertrand com o nome Terra Sangrenta – a Europa entre Hitler e Estaline).

O livro imperdível é «Sobre a tirania – vinte lições para o séulo XX para o presente“, texto dirigido ao público em geral e a um público mais jovem, ao norte-americano em particular. O prólogo abre com o óbvio: “A história não se repete, mas ensina.”

As lições estão numeradas e começam com um pequeno resumo, em forma de máxima.

1. Do not obey in advance.
Much of the power of authoritarianism is freely given. In times like these, individuals think ahead about what a more repressive government will want, and then start to do it without being asked. You’ve already done this, haven’t you? Stop. Anticipatory obedience teaches authorities what is possible and accelerates unfreedom.
2. Defend an institution.
Follow the courts or the media, or a court or a newspaper. Do not speak of “our institutions” unless you are making them yours by acting on their behalf. Institutions don’t protect themselves. They go down like dominoes unless each is defended from the beginning.
3. Recall professional ethics.
When the leaders of state set a negative example, professional commitments to just practice become much more important. It is hard to break a rule­of­law state without lawyers, and it is hard to have show trials without judges.
4. When listening to politicians, distinguish certain words. Look out for the expansive use of “terrorism” and “extremism.” Be alive to the fatal notions of “exception” and “emergency.” Be angry about the treacherous use of patriotic vocabulary.
5. Be calm when the unthinkable arrives. When the terrorist attack comes, remember that all authoritarians at all times either await or plan such events in order to consolidate power. Think of the Reichstag fire. The sudden disaster that requires the end of the balance of power, the end of opposition parties, and so on, is the oldest trick in the Hitlerian book. Don’t fall for it.
6. Be kind to our language. Avoid pronouncing the phrases everyone else does. Think up your own way of speaking, even if only to convey that thing you think everyone is saying. (Don’t use the internet before bed. Charge your gadgets away from your bedroom, and read.) What to read? Perhaps “The Power of the Powerless” by Václav Havel, 1984 by George Orwell, The Captive Mind by Czesław Milosz, The Rebel by Albert Camus, The Origins of Totalitarianism by Hannah Arendt, or Nothing is True and Everything is Possible by Peter Pomerantsev.
7. Stand out. Someone has to. It is easy, in words and deeds, to follow along. It can feel strange to do or say something different. But without that unease, there is no freedom. And the moment you set an example, the spell of the status quo is broken, and others will follow.
8. Believe in truth. To abandon facts is to abandon freedom. If nothing is true, then no one can criticize power, because there is no basis upon which to do so. If nothing is true, then all is spectacle. The biggest wallet pays for the most blinding lights.
9. Investigate. Figure things out for yourself. Spend more time with long articles. Subsidize investigative journalism by
subscribing to print media. Realize that some of what is on your screen is there to harm you. Learn about sites that investigate foreign propaganda pushes.
10. Practice corporeal politics. Power wants your body softening in your chair and your emotions dissipating on the screen. Get outside. Put your body in unfamiliar places with unfamiliar people. Make new friends and march with them.
11. Make eye contact and small talk. This is not just polite. It is a way to stay in touch with your surroundings, break down unnecessary social barriers, and come to understand whom you should and should not trust. If we enter a culture of denunciation, you will want to know the psychological landscape of your daily life.
12. Take responsibility for the face of the world. Notice the swastikas and the other signs of hate. Do not look away and do not get used to them. Remove them yourself and set an example for others to do so.
13. Hinder the one­party state. The parties that took over states were once something else. They exploited a historical moment to make political life impossible for their rivals. Vote in local and state elections while you can.
14. Give regularly to good causes, if you can. Pick a charity and set up autopay. Then you will know that you have made a free choice that is supporting civil society helping others doing something good.
15. Establish a private life. Nastier rulers will use what they know about you to push you around. Scrub your computer of malware. Remember that email is skywriting. Consider using alternative forms of the internet, or simply using it less. Have personal exchanges in person. For the same reason, resolve any legal trouble. Authoritarianism works as a blackmail state, looking for the hook on which to hang you. Try not to have too many hooks.
16. Learn from others in other countries. Keep up your friendships abroad, or make new friends abroad. The present difficulties here are an element of a general trend. And no country is going to find a solution by itself. Make sure you and your family have passports.
17. Watch out for the paramilitaries. When the men with guns who have always claimed to be against the system start wearing uniforms and marching around with torches and pictures of a Leader, the end is nigh. When the pro­Leader paramilitary and the official police and military intermingle, the game is over.
18. Be reflective if you must be armed. If you carry a weapon in public service, God bless you and keep you. But know that evils of the past involved policemen and soldiers finding themselves, one day, doing irregular things. Be ready to say no. (If you do not know what this means, contact the United States Holocaust Memorial Museum and ask about training in professional ethics.)
19. Be as courageous as you can. If none of us is prepared to die for freedom, then all of us will die in unfreedom.
20. Be a patriot. The incoming president is not. Set a good example of what America means for the generations to come. They will need it.

 

 

 

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# 5 – Livros Imperdíveis: Globalização, democracia e terrorismo, Eric Hobsbawm

A obra Globalização, democracia e terrorismo, do historiador Eric Hobsbawm, publicada no ano de 2007, é uma compilação de diversas palestras e conferências proferidas pelo autor no período compreendido entre os anos 2000 e 2006. Isso justifica a linguagem fluida e um certo tom de informalidade no modo de exposição das ideias na obra. (…)

Ao tratar das perspectivas da democracia no século XXI, o autor demonstra nítido ceticismo quanto ao modelo democrático amplamente disseminado entre os países de tradição liberal. Indica o apoio da maioria, a hegemonia do poder estatal, a aceitação da autoridade desse poder e sua aptidão exclusiva para prestar determinados serviços como premissas da política democrática, e demonstra que elas têm perdido a validade. Dentre os motivos da deterioração dessas premissas, apresenta: a) a perda do monopólio da força militar, já que armamentos e instrumentos de destruição estão facilmente acessíveis a grupos dissidentes; b) a fragilização dos pilares do governo estável, como a lealdade voluntária dos cidadãos ao Estado e a disposição de obediência desses cidadãos ao poder estabelecido; c) o enfraquecimento do poder do Estado pelo retorno a ideais ultraliberais, verificando-se a desregulamentação de mercados, a substituição de serviços públicos por privados com aumento de privatizações e a ampliação da crença de que o setor privado pode satisfazer necessidades que o Estado não pode ou que pode satisfazê-las de forma mais eficaz. O autor indica que o vazio gerado pelo enfraquecimento do Estado é preenchido pela soberania do mercado que, assim, encontra espaço para substituir o papel mobilizador do cidadão na política democrática, passando o consumidor a ocupar o lugar do cidadão.

(…) O autor prossegue tratando do tema “a ordem pública em uma era de violência”, abordado em uma conferência proferida no ano de 2006, a mais recente do livro, onde expõe o aumento da violência pública a nível mundial, destacando que a “desordem pública”, mesmo a provocada pela ação terrorista, não precisa de grandes recursos, nem de altas tecnologias. Ainda a respeito da ordem pública, cita a quebra, pelos indivíduos, de regras morais e de convenções sociais e o enfraquecimento das relações no seio da família, o que estaria gerando pessoas menos educadas, inclusive podendo-se verificar um aumento da delinquência juvenil a partir da segunda metade da década de 1960. Também indica a crise do modelo de Estado nacional territorial e a perda do monopólio não apenas da força armada, mas também das leis do Estado sobre outras leis de cunho religioso ou costumeiro. Menciona, ainda, a diminuição da lealdade que os cidadãos depositam no Estado e a redução da disposição de fazer o que ele lhes pede, o que impossibilitaria, por exemplo, a formação atual de um exército voluntário de pessoas dispostas a matar e morrer por seu país, como ocorreu nas duas primeiras guerras mundiais. Igualmente, o autor ressalta a menor disposição dos cidadãos em cumprir espontaneamente a lei, que é cumprida não pela confiança na norma, mas pelo temor de punição, e, ainda, a dificuldade que os Estados passam a ter de controlar aquilo que ocorre em seus territórios pelo aumento da circulação de bens e pessoas proporcionado pela globalização.

(…) Alerta para a gravidade do surgimento de um poder que, a despeito de não compreender o que acontece no mundo e nas diversas sociedades, tem força para nelas intervir militarmente caso suas decisões políticas estejam em desacordo com o ideal americano. Aponta a inexistência no momento atual de um poder hábil a competir com os Estados Unidos, como havia na época da União Soviética e, assim, as ações imperialistas americanas não estão mais limitadas pelo medo da reação de uma outra força. E, na falta do medo que limitava suas ações, o autor expõe a necessidade de que o interesse próprio esclarecido e a cultura ocupem esse vazio.”

Artigo de recensão da obra

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# 4 Livros Imperdíveis – A Passo de caranguejo, Umberto Eco

“Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras no Afeganistão e no Iraque, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália. Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914. As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou. A pouco e pouco, o vídeo fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da Internet e das pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-Pod reinventou a rádio.

Terminada a Guerra-fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de «socorro, os Turcos!».

Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica antidarwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado pelos fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos). Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo.

Este livro não pretende explicar o que é que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.”

A ler, com carácter obrigatório, por quem se interesse por olhares críticos para este mundo em que vivemos. Eco pode até nem ser amável mas é acutilante; pode parecer céptico, mas obriga-nos a repensar.

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