em jeito de glossário (II): classificação e ontologia

Classificação processo de dividir em grupos ou classes, segundo as diferenças e semelhanças, em certo número de grupos metodicamente distribuídos. O elemento essencial é a formação metódica e sistemática de grupos, a acção organizante de ordenar um determinado conjunto de seres ou coisas em agrupamentos menores, a partir de características semelhantes partilhadas por alguns (que os incluem dentro de determinado grupo) e não compartilhada pelos demais (que não pertencem a esse grupo). Do esforço sistematizado de divisão e organização do conhecimento, releve-se a teoria aristotélica e as “árvores do conhecimento”.

Aristóteles considerou cinco tipos de relações existentes num arranjo lógico: a) Género: classe ou grupo de seres ou objectos que possuem um determinado número de características em comum; b) Espécie: ser ou coisa que possui uma diferença específica que a distingue do seu género próximo; a espécie é obtida do género pelo acréscimo de uma diferença; c) Diferença: a característica que serve para gerar uma espécie; cada acréscimo de diferença gera uma nova espécie; d) Propriedade: algo próprio de cada elemento de uma classe mas que não é imprescindível à definição da classe; e) Acidente: qualidade não obrigatória a todos os elementos de uma classe, isto é, que pode ou não estar presente num conceito

Ontologias A Representação do conhecimento é um assunto multidisciplinar que aplica teorias e técnicas de outros três campos: 1 – Lógica, que proporciona a estrutura formal e as regras de inferência; 2 – Ontologia, que define os tipos de coisas que existem no domínio da aplicação; 3 – Computação, que apoia as aplicações que distinguem a representação do conhecimento da filosofia pura.

Na lógica da representação do conhecimento, Guarino (1997) definiu ontologia como uma caracterização axiomática do significado do vocabulário lógico, e, para Sowa e Dietz (1999), define os tipos de coisas que existem no domínio de uma aplicação. Entende-se que possam ser classificadas, e Uschold (1996) divide as ontologias quanto ao tipo de conhecimento que representam:

a) Ontologia de domínio: conceptualizações de domínios particulares;

b) Ontologia de tarefas: conceptualizações sobre a resolução de problemas independentemente do domínio onde ocorram;

c) Ontologia de representação: conceptualizações que fundamentam os formalismos de representação do conhecimento.

Se se entender «ontologias» como descrição formal de conceitos num domínio do discurso, relativo às propriedades de cada conceito – na linha das características e atributos, da classificação das coisas existentes -, uma ontologia constitui-se como base de conhecimento. Conforme apresentou Gruber (1993), ontologia seria uma especificação explícita de conceitos e das suas relações, propriedades e restrições expressas formalmente.

# 39 – em jeito de glossário (I): categorização e taxonomia

Pode ajudar a estabelecer diferenças. Por exemplo, entre classificações, taxonomias e ontologias.

Categorização – processo pelo qual as ideias e objectos são reconhecidos, diferenciados e classificados. Em linhas gerais, consiste em organizar os objectos de um dado universo, em grupos ou categorias com um propósito específico. Há inúmeras teorias e técnicas de categorização que, numa perspectiva histórica mais ampla, se podem sintetizar em três abordagens: clássica, por conceitos e de protótipos.

Categorização clássica, agrupa objectos baseados na semelhança de suas propriedades (Platão, Aristóteles). Pressupõe que as categorias são entidades discretas, caracterizadas por um conjunto de propriedades compartilhadas por seus membros. Adicionalmente, as categorias devem ser claramente definidas, mutuamente exclusivas e colectivamente exaustivas. Desta forma, qualquer objecto do universo de classificação deve pertencer inequivocamente a uma, e somente uma, das categorias propostas.

Agrupamento por conceitos, ligada à representação do conhecimento – classes, clusters ou entidades são geradas pela formulação das suas descrições conceituais, seguida da classificação das entidades à luz destas descrições; intimamente relacionado à teoria de conjuntos difusos ou “fuzzy sets”, na qual onde os objectos podem pertencer a um ou mais grupos, em graus diferenciados de pertinência.

Teoria dos protótipos – o processo de agrupamento baseia-se em protótipos (membros mais típicos de uma categoria), uma vez que critérios necessários e suficientes para a definição precisa de categorias são raramente encontráveis no mundo real. Esta visão sustenta que sistemas conceptuais de categorias não existem objectivamente no mundo real, mas estão enraizados nas experiências pessoais e colectivas. Desta forma, as categorias conceituais diferem de cultura para cultura e mesmo entre indivíduos de mesma cultura.

Taxonomia – ciência de identificar e classificar. Inicialmente associada a organismos vivos e depois alargada a classificação de coisas ou aos próprios princípios subjacentes da classificação. Quase tudo – objectos animados, inanimados, lugares e eventos – pode ser classificado de acordo com algum esquema taxonómico. A taxonomia dos objetivos educacionais de Bloom é uma estrutura de organização hierárquica de objectivos educacionais. Cada um dos três domínios tem diversos níveis de profundidade – por isso a classificação de Bloom é denominada taxonomia: cada nível é mais complexo e mais específico que o anterior.

Taxonomies: a controlled vocabulary organized into a hierarchical structure. There might be more then one parent-child relationship in a taxonomy (es. whole-part, broader-narrower, genus-species, type-instance). In some cases, a term can have multiple parents so the term can occur in different places of the taxonomy (however, it must have the same children everywhere)

Na Filosofia, alguns afirmam que a mente humana organiza naturalmente seu conhecimento do mundo em tais sistemas. Esta visão é baseada frequentemente na epistemologia de Kant.

Na Biologia, aparece ligada à sistemática (estudo da diversidade das características dos organismos vivos). Os grupos taxonómicos mais importantes, e de mais corrente uso, são: Família, Género e Espécie, sendo de salientar que podem ainda existir subdivisões em todos estes grupos. Trata-se da taxonomia científica mais famosa e utilizada.

Na Antropologia defende-se que as taxonomias são inerentes à cultura local e aos sistemas sociais, servindo a várias funções sociais. Um dos estudos mais conhecido e mais influente de taxonomias populares considera-se ser o The Elementary Forms of Religious Life de Emile Durkheim. Mas também não estaremos errados se considerarmos Totemism e The Savage Mind de Levi-Strauss. Distinguem-se as taxonomias populares das taxonomias científicas, que sustentam a dissociação das relações sociais e assim chegar ao objectivo e ao universal.

de ontologias… em cinco pontos, dedilhado intermezzo

Investigação aplicada é realização de trabalho original a fim de adquirir novos conhecimentos. É, no entanto, direccionada, principalmente, para uma finalidade ou objectivo prático específico. Assim se passa com as ontologias aplicadas aos sistemas de informação, que se referem implicitamente a uma determinada visão do Domínio em que operam. O âmbito desta ontologia aplicada (sistemas de informação) é o de fazer emergir, de uma forma clara e inequívoca, conhecimento implícito e hipóteses sobre a natureza e estrutura deste domínio. Se a ontologia como disciplina filosófica estuda o ser e a estrutura geral das entidades, a ontologia aplicada investiga e desenvolve modos de estruturar através de linguagens formais e computacionais o conhecimento que está inerente a documentos que pertencem aos sistemas de informação.

vindo daqui – e continuar a ler…

Vejo a moldura com 4 lados, com a hermenêutica lá.

1. Filosofia não é uma ciência, como a vejo. Está acima, e o conhecimento que visa, assim como o sentido, são de natureza diversa da da ciência. E concordo que é do tipo que confere organização e sistemática. Ao científico como ao pensamento estético. Ou ao pensamento, apenas. Nela, a ambição pelo todo não é incompatível com a visão da parte – de um modo análogo ao que uma visão de landscape da floresta não se antagoniza com um mergulho às árvores – completam-se. Nela, a importância maior é das perguntas, das indagações que se colocam.

2. A Ontologia filosófica saiu do campo estrito e passou a admitir-se como ontologia para-definir-os-tipos de seres e entes. Portanto, também de coisas. Daí que se admita que exista «ontologia de domínio», «ontologia de tarefas», «ontologia de representação» (é desta que falamos…)

3. A Representação do conhecimento aplica teorias e técnicas dos 4 campos: Lógica ( proporciona a estrutura formal e as regras de inferência), Ontologia, Computação (apoia as aplicações que distinguem a representação do conhecimento da filosofia pura) e da Hermenêutica (as regras e técnicas da interpretação).

4. A compreensão das coisas precisa de um método analítico esclarecedor e de um procedimento de compreensão descritiva, afirma Dilthey. Compreender é apreender um sentido – e sentido é o que se apresenta à compreensão como conteúdo. Ou seja, determinam-se um pelo outro: só é possível determinar a compreensão pelo sentido e vice-versa.

5. Lógica, Ontologia, Computação e Hermenêutica fazem uma moldura. Quatro lados de um enquadramento amplo e desafiador. O que os liga, como se de cola se tratasse? Não o conhecimento, em si, mas a Representação do conhecimento.

Como Leonardo cita:

“Philosophical ontology is the science of what is, of the kinds and structures of objects, properties, events, processes and relations in every area of reality”

Afirma Alexandre Sousa que:

Para um sistema de informação, uma ontologia é uma representação de um pré – existente domínio da realidade, o qual:
(1) Reflecte as propriedades dos objectos dentro do seu domínio de tal forma que obtém uma correlação sistemática entre a realidade e a própria representação;

(2) É inteligível para o especialista no domínio;

(3) Apresenta-se formalizada de tal modo que permite o processamento automático da informação.

Uma ontologia neste sentido é uma coisa feita por um investigador ou especialista num determinado domínio. Esta coisa é uma teoria formal, que recapitula com precisão o domínio em função do tipo de entidades contido dentro dele; ou seja, não é ad hoc, mas sim, em conformidade com o mundo. Assim, uma ontologia representa uma verdade – para – o – mundo de um dado domínio. Isto está em contraste com os usos mais populares nas áreas da informação e da ciência da computação, pelo que podemos ver uma ontologia como um mero modelo ad hoc construído para algum propósito específico.

E é certo que, aquando da minha atirada para cima da mesa da homenagem a Hermes, AS afirmara:

Aquilo que nós pensávamos poder ser lidado por gente de 3 campos: lógica, ontologia, computação, vê-se a braços com a provocação proveniente da Hermenêutica. Antes desta, temos um fio condutor e aglutinador que é o conhecimento. Pacífico!

Como se diz por aí, a filosofia não pode (deve) dar cobertura às nossas ideias preferidas, gostosas e acarinhadas, uma vez que somos tentados a não as avaliarmos cuidadosamente. Pelo contrário, a filosofia impõe que façamos a respectiva avaliação critica das nossas ideias — todas — pondo em causa os lugares-comuns que sorvemos a largos golos, a bem da paz e da tranquilidade da raça.

A filosofia e o seu método obrigam-me a formular questões antes de dizer a LN que chove torrencialmente e que está um dia maravilhoso para andar no areal da Praia de Francelos. LN e o seu método provocam-me de maneira salgada e perguntam-me qual é exactamente o problema de trazer a hermenêutica para o quadro que esboçamos? E o que é exactamente ser adepto da hermenêutica?

……

e em outro excerto

 

A ciência contemporânea contraiu uma dívida elevada para com os discípulos de Hermes, pela sua permanente inquietação, pela transmutação dos elementos, pelas teorias da energia e da relatividade. Está aberta a porta a Hermes! Mas também a outros Deuses e Deusas, sobretudo aos que sabem e conseguem raciocinar perante factos observáveis. Faça-se ainda uma última ressalva: não acredito que a Pedra Filosofal me permita entrar desta vida na eternidade dos BemAventurados.

Finalizando:

Por mais que se procurem alquimias, transmutações da Pedra Filosofal, ainda resta a possibilidade de que os processos sejam o mais enriquecedor do que se faz pelos caminhos…

de ontologias, caminhos e pedras

Ele anda a escrever sobre Problemas das ontologias
e sobre Ontologias – filosofia versus ciências cognitivas
E a ideia é clara:

O que tem a ontologia que seja comum na computação e na filosofia? é a representação das entidades, ideias, e eventos, juntamente com as suas propriedades e relações, de acordo com um sistema de categorias. Em ambos os campos, encontramos trabalho considerável nos problemas da relatividade ontológica: por exemplo Quine e Kripke na filosofia; Sowa e Guarino nas ciências da computação.

Gosto destas conversas de modos que andei por lá e comentei. De volta:

«LN esteve por cá, com xanatinhas muito suaves, muito piano piano: « Da filosofia – e do conhecimento do Ser – às ontologias web, aos agrupamentos thesaurus 🙂 Assim, distante da disciplina filosófica, estudar ontologias torna-se no definir categorias para as coisas, de um mesmo domínio. Em computação e inteligência artificial é mais ôntico do que ontológico… todavia, estou se calhar a recusar a apropriação da mesma palavra para um sentido tão diverso…»

Óbvio, LN irá ajudar-nos no resto do percurso, até porque mais volta menos volta andaremos sempre no caminho das pedras. Entendo eu, que o apressado cheirinho a excesso que possa estar no «tão», exactamente na última afirmação de LN, não sei se acabará por se consolidar. Até porque lidamos com metodologias diversas: a metodologia das ciências da computação e a(s) metodologia(s) da Filosofia.

continuar a ler que vale mesmo a pena…outro excerto:

Na perspectiva de Kant, a mente não é «desenhada» pelo domínio da experiência; em vez disso, o domínio da experiência é configurado pelos padrões propostos pela mente.

Ah!Ah! aqui as ciências da computação não alinham na perspectiva Kantiana.

A máquina aprenderá os contornos do domínio da experiência, reconhecerá os padrões característicos ou seja poderá traçar o carácter do domínio e será capaz de propor as categorias.

Óbvio, ainda não estamos lá, andamos perto, no mínimo sabemos o que queremos da máquina.

O que há de bom na filosofia de Kant é a enorme influência exercida, sobretudo sobre aqueles que se opuseram às suas propostas.

Pensar Kant, a sua ontologia, as questões filosóficas que Kant ‘plantou’ são exercícios de vida activa que ajudam a ultrapassar a nebulosidade para onde a nossa vida profissional nos empurra. Cada vez mais.

A questão de cerne é do ôntico e do ontológico.

A referência ao ôntico é heideggeriana – porque o Dasein, traduzido por “Ser-aí”, proporciona o entendimento do Ser em níveis de conhecimento- ôntico e ontológico.
Passamos da teoria do conhecimento para a metafísica e para a ontologia.

Quando usei ôntico, estava a pensar que o Ser “determina-se” no ente pela presença do ser.
Se quisermos dizer de modo simples, o ôntico é o domínio dos objectos – e o conhecimento científico é da esfera do ôntico.

Mas, ao mesmo tempo, para que o ôntico seja possível, tem uma raíz no sujeito que “pré-compreende” o ente. Isto é, para que eu possa perceber e receber os objectos, preciso, de uma certa maneira, de antecipar o ser dos objectos.
No ontológico, o encontro do Ser consigo mesmo, um “lugar” próprio que é sede e fundamento do Ser. E aí passa da teoria do conhecimento para a ontologia. Para a indagação sobre o Ser.
Só nós – os seres humanos – existimos na concepção de um Dasein capaz de revelar-se, sem se esgotar ou se identificar com o ser-aí.

Não sou filósofa embora me afilie em Filosofia. Por isso, a ideia da disciplina filosófica está «instalada» no meu pensamento. A utlização das «ontologias» em ligação à web, sendo que não me choca, faz-me interrogar sobre a razão de usar uma palavra igual num sentido diverso, quando podia ser criada uma nova palavra…