livros e leituras

Da experiência nas aulas, os pecados parecem, habitualmente, interessantes – ou melhor, há sempre interesse em debater os 7 pecados capitais e aqui S. Tomás de Aquino fica muito actual. Citámos um post colocado com um texto sobre a inveja – sempre no horizonte: virtudes e pecados – e em 2005, estava no rol de pecados capitais, num exercício que aqui fizemos.

O que tem a inveja de especial? é algo sombrio, que se procura esconder – a palavra de raíz é “invidia” que significa «olhar enviesado, de soslaio». Basta o sucesso de alguém para a despertar. O invejoso presta muito atenção ao que os outros fazem ou deixam de fazer – para falar mal de tudo e de todos e por todo e qualquer motivo. Naturalmente, encontra sempre uma forma de depreciar, de desvalorizar. E é dramático porque não há forma de agradar a um invejoso – a não ser apagando-se! O impulso e o comportamento de quem inveja, é de querer retirar ou estragar o que é desejável – e, bem vistas as coisas, é do outro.

Costumo contar aos estudantes que, como os outros pecados (capitais, de «kaput», de serem a cabeça e virem adiante) a inveja tem um cortejo que a acompanha, as filhas. Descritas no livro (cuja capa se apresenta) como sendo “bisbilhotice, maledicência, contentamento pela adversidade, aflição pela prosperidade” (p. 50-51). Habitualmente, falo da sussuratio – murmúrio maledicente, que em alguns sítios do país se diz coscuvilhice e, noutros, bilhardice. Temos de prestar atenção e não ceder à tentação de dizer mal – pode bem ser fruto da inveja.

A inveja: um comportamento esquecido nas organizações

Manifestações da inveja nos relacionamentos interpessoais no contexto organizacional

Inveja e competição profissional

Gestão educacional: discutindo inveja nas organizações

Nada melhor para “transcender a inveja” (afirma De Vries) do que a alegria pelo sucesso do Outro, regozijar-se com, ficar contente pelo bem.

sempre no horizonte: virtudes e pecados…

Eye of Envy

Daqui, seguiram para o Bom para Tutor, os sete pecados mortais dos estudantes. Foi interessante ter encontrado!

E por falar em pecados mortais, faço um retake de uma entrada do Directriz, a propósito da inveja, apenas em alguns excertos:

1. «A inveja é um mecanismo de defesa que pomos em actuação quando nos sentimos diminuídos no confronto com alguém, com aquilo que tem, com o que conseguiu fazer. É uma tentativa desajeitada de recuperar a confiança, a estima de nós próprios, minimizando o outro», escreveu FRANCESCO ALBERONI, no seu “Os Invejosos” (…)

2. Na inveja há um confronto, subsequente a uma necessidade interior de defesa e resposta, com deformação ética. Um confronto interior com terrível dispêndio de energias. É que, afinal, o terreno onde germina a inveja parece ser o mesmo onde germina a competitividade; mas, depois, tudo se tolda: o invejoso perde-se e perde dentro da sujidade da inveja, desviando a energia positiva da competição para o pântano confuso e trapalhão da cólera, do ódio, da tristeza ou da renúncia interiores, iluminado pela frustração e pela mesquinhez disfarçada de distância.

No entanto, esta artificial distância do invejoso em relação ao invejado enfrenta um contradição insanável: a necessidade de julgar o outro. É que quando o invejoso julga, ele está a evitar a auto-humilhação ao invejar, pois nesse momento ela é um recuo estratégico para fugir à evidência que o corrói; e o invejado é, à vista do invejoso, melhor do que ele. (…)

A inveja é, assim, um mal que o invejoso sente que recebeu, mas que ninguém lhe fez, em que a experiência interna do invejoso não se coordena bem com o juízo moral da sociedade sobre as virtualidades das comparações, donde brota a inveja competitiva, ou depressiva, ou obsessiva, ou maldosa, ou avarenta ou iniciadora (…)

o resto, texto inteiro de Paulo H. Pereira Gouveia, ler lá

Noutra perspectiva, vale a pena ler o artigo Gestão educacional: a inveja nas organizações.

(imagem: Eye of Envy)

colectânea de conversas
















Conversámos aqui sobre as virtudes capitais dos professores
1 – respeito singular
2 –
entusiasmo
3 –
curiosidade e inquietude
4 –
acreditar nas capacidades dos estudantes
5 –
humildade
6 –
gerir a relação e os afectos
7 – procurar ser justo nos processos
bem assim como os pecados mortais
1- da arrogância titulada
2 – da acédia ou a inacção profissional
3 – da discriminação ou a des-igualdade
4 – da ignorância-quando-era-suposto-saber
5 – da pequenez de visão e de espírito
6 – do embotamento emocional
7 – da pressa
e dos des-cuidar
E igualmente, virtudes capitais dos estudantes
1 – a humildade
2 – a irreverência
3 – a generosidade
4 – a ousadia
5 – a resiliência
6 – a solidariedade

7 – o empenhamento
e pecados mortais
1 – a preguiça intelectual
2 – a inveja
3 – a indiferença
4- A desonestidade
5 – A calúnia
6 – A inoperância
7 – a procrastinação

ainda que vistos da perspectiva do professor.

Caminho(s) de tese era para ter sido o início de uma «rubrica». Referente, de novo (e sempre) à tarefa e ao papel do professor, numa peculiar dimensão.
Aprendentes Adultos, seguia essa ideia, de ajustamento e de adequação, requerida ao professor.

Faz tempo que vou escrevendo «escrita de estudantes» e agora, está no tempo de entrar a escrita de professora… já a seguir…

Pecados mortais dos estudantes – # 7 – a procrastinação


(fonte imagem aqui)

Depois de
1 – a preguiça intelectual
2 – a inveja
3 – a indiferença
4 – A desonestidade
5 – A calúnia
6 – A inoperância

7 – A procrastinação

À primeira vista, é uma palavra um tanto inhabitual.
Procrastinar é deixar para o dia de amanhã, adiar, protelar, demorar, deferir…
O termo procrastinação pode ter uma acepção finita ou infinita – finita é o adiamento para um amanhã determinado, infinita (a perder de vista) é um adiamento sem amanhã definido.
Procrastinar implica deixar que as tarefas de baixa prioridade antecipem as de alta prioridade – por exemplo, socializar com os colegas quando se tem um projecto para entregar esta semana, ver televisão ou jogar computador em vez de estudar, etc… O conceito de tarefa adiada abrange uma vasta amplitude de domínios.

Qualquer tipo de procrastinação envolve a decisão de adiar. Os resultados podem interferir com o sucesso académico e pessoal – aí, torna-se pecado (e entra nesta série…) para o estudante.
A procrastinação encontra-se ligada ao conceito físico de inércia – uma massa em repouso tende a permanecer em repouso. Como tal, são necessárias mais forças para iniciar a mudança do que para a manter, o que convida ao adiamento do início das tarefas. Por sua vez, este adiamento ou evitamento, ao proporcionar uma sensação de conforto temporário, reforça a própria procrastinação, o que torna mais difícil começar a agir no sentido inverso. Estamos, portanto, perante um ciclo de funcionamento que se alimenta a si próprio e que tende a perpetuar e a alastrar cada vez a mais áreas ou a assumir cada vez uma maior intensidade.

Alguns autores afirmam procrastinação biológica e psicológica (por exemplo, Jenny Maryasis, que referencio em baixo). E que esta última pode ser comportamental ou decisional.
Já o deixou o PJ, em comentário – “a primeira diz respeito a comportamentos específicos que, sendo adiados, acarretam consequências negativas para os indivíduos. Por exemplo, não entregar a declaração de IRS a tempo ou adiar a compra de presentes de Natal até à tarde de dia 24 de Dezembro. A segunda tem a ver o adiar de decisões e é de natureza mais cognitiva do que comportamental. Adia-se, por exemplo, o destino de férias e estas começam sem que se tenha qualquer plano. Curiosamente, constata-se que a procrastinação decisional se encontra associada a um padrão mais disfuncional de funcionamento psicológico por comparação com a procrastinação comportamental.”

A questão é mesmo, se e quando torna o comportamento disfuncionante.
E tem impacto na auto-estima, na realização pessoal.
Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida.
Diria até que o tempo é distribuído entre as pessoas de forma mais democrática que muitos (quase todos) dos outros recursos de que dependemos – cada dia tem para cada um 24 horas.
Ainda assim, é um recurso altamente perecível. E que se pode aprender a gerir – até porque fazê-lo é administrar estrategicamente a própria vida.

Há aconselhamento na gestão do tempo e na organização do trabalho.
E um alerta particular, neste início de ano lectivo, à tentação de procrastinar, de preferir sistematicamente o ócio ao compromisso.

Há muitos livros, artigos e sites dedicados ao assunto
http://www.couns.uiuc.edu/Brochures/procras.htm
Procrastination and Task Avoidance: Theory, Research, and Treatment
Procrastination: Habit or Disorder? Jenny Maryasis
ligados igualmente ao mundo
empresarial
como ao meio estudantil
e com referências de psicoterapia e saúde mental

Pecados mortais dos estudantes – # 6 – a inoperância

Depois de
1 – a preguiça intelectual
2 – a inveja
3 – a indiferença
4 – A desonestidade
5 – A calúnia

6 – A inoperância

Trata-se da qualidade ou estado do que é in-operante. Logo, que tem in-capacidade de operar, não é efectivo, não produz – logo, associo à de co-operar, naturalmente.
Enquanto inoperantes, não estamos a falar da (presumível?) categoria dos “desacreditados”, os que podem ser identificados no tocante a alguma «marca» que se torna visivel quando expostos às interações sociais mais «normais» (leia-se, regulares) no meio estudantil.
Excluamos o estigma, o estereotipo. Excluamos, por agora, as trajectórias existenciais complicadas e as incapacidades exteriores à vontade.

Trata-se mesmo de não ser produtivo, nem eficiente.
Da negação do investimento, da finalidade de ou em realizar algo.
Pode ser décalage excessiva (entre os tempos de dever e os tempos de fazer, por não ser feito)…
Contudo, também me parece que pode ser visto de modo organizacional – sim, estou a pensar na inoperância ligada ao sistema de participação, as ausências ao Conselho Geral e a Conselho Pedagógico, o papel ocasionalmente inoperante das Associações.
Tenho para mim que a inoperância é parente da estagnação e, em certas variantes, decorrente de algum umbigocentrismo.

conversamos?!

Pecados mortais dos estudantes – # 5 – a calúnia

Depois de
1 – a preguiça intelectual
2 – a inveja
3 – a indiferença
4 – A desonestidade

5 – A calúnia

Comecemos por definir calúnia.
Dizem os manuais e os eruditos que há três crimes contra a honra – a calúnia, a difamação e a injúria. Caluniar consiste em atribuir (há quem prefira imputar) falsamente a alguém a responsabilidade pela prática de algo, definido como crime. Difamar significa desacreditar, atribuindo a alguém algo ofensivo à sua (boa) reputação. Injuriar é ofender, verbalmente, por escrito ou fisicamente, a dignidade ou o decoro de outra pessoa (atribuindo-lhe uma qualidade negativa).

Portanto, caluniar reúne três elementos: que seja imputado um facto, que ele seja qualificado como crime e que exista falsidade na imputação. Note-se que se exige que o facto seja falso…

Quando foi proposta a calúnia, pensei nas afirmações levianas que são feitas pelos estudantes, e que, algumas vezes, configuram prática de um crime… mas que são falsas… Vão além da maledicência, do comezinho «corte e costura». Incorrem mesmo em calúnia.

Apetece comentar que, na generalidade, as pessoas têm de ser responsabilizadas pelo que afirmam. Em particular os que, como alguns estudantes, para ocultar ou desagravar o seu próprio comportamento, lançam pedras a outros e quaisquer telhados.

… conversamos?!

Pecados mortais dos estudantes – # 4 – desonestidade

(imagem do blog profetizamorta.blogspot.com)

1 – a preguiça intelectual
2 – a inveja
3 – a indiferença

4 – A desonestidade

Des-honestidade, nega a honestidade.
O que é honesto, é virtuoso, sério, digno, conforme à lei moral, à honra.
Gosto de probidade, aqui – porque ser honesto é ser probo, ou seja, de carácter íntegro.

Precisaríamos de uma palavra para designar a virtude que rege as relações com a verdade.
Vou seguir na pista de André Comte-Sponville, e usar a boa-fé. Como facto, a boa fé é “a conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. Como virtude, é o amor ou o respeito à verdade”.

Este «amor à verdade» é a virtude filosófica por excelência – colocar a verdade acima do poder ou honra, do sistema… Escreve Sponville, que o filósofo “prefere saber-se mau a fingir-se bom, e olhar de frente o desamor, quando ele se produzir, ou seu próprio egoísmo, quando ele reinar (quase sempre!), a se persuadir falsamente de ser amante ou generoso.”
Também me parece que o «amor à verdade» é virtude intelectual e traço de investigador, de quem estuda no sentido de procurar os caminhos mais conformes (seja à ciência, à politica, à ética, entre outras).

Quem é desonesto, não está «de boa fé».
E por não o estar e por agir em não-conformidade com faz-me trazer a justiça para aqui, também, e recordar que (com Tomás de Aquino), se pode ser injusto por se ser transgressor da lei, o vulgo «infractor», em que o critério é a des-conformidade com a lei, ou por se agir contra a igualdade (ou querer mais bens ou mais dos bens ou querer menos ou menos parte dos males).

Quem é desonesto, atenta à verdade e à justiça, eis a minha tese.
Por inúmeras razões que se reflectem numa intenção-base:
obter um resultado de sucesso que não lhe é devido.

E a «esperteza» (pois!) diz que resulta ser desonesto. Basta olhar em redor, os exemplos sociais, culturais e políticos (na condição de permanecerem incólumes). Por aqui, nos blogs, as queixas abundam.
E até parece que o conceito de honestidade intelectual se torna uma espécie de raridade atávica. Plagiar posts, agravado por nem sequer haver o cuidado de referenciar de onde vem. Trata-se, para usar uma palavra mais clara, de se apropriar de algo (texto, comentário, opinião) que não é seu, agindo como se fosse. Desonesta a apropriação, desonesta a re-exposição como seu. Roubo de base, para dizer cruamente.

Olhando o estudante, os «sítios» mais evidentes de desonestidade estão na produção de provas – e entendo aqui, a prova da aquisição de saberes e de competências, que se exibe tanto os exames como os trabalhos.
Os contornos eventuais (que não fiz nenhuma investigação aturada sobre o assunto) dos maiores focos de desonestidade intelectual parecem-me estar exactamente na área da demonstração do adquirido.
Diferenciaria levemente a cópia (copiar no teste) do plágio (reproduzir num trabalho). E diferenciaria entre revisão bibliográfica pura e construção de opinião com base na revisão.
Claro que inclui a utilização textual não referenciada (aquelas situações de que afirmo «caíram-lhe as aspas») usada extensamente e apropriada como se «fui eu quem pensou isto».

Tenho, da experiência vivida (que não é muita, reconheço) que os textos plagiados parecem «pasteurizados» ou «patchwork», uma «manta de retalhos», costurada com «copy-past». E nos meus casos identificados, foi «zero» no teste e negativa no trabalho, com uma conversa algo longa com o estudante encontrado em falta.

Não me parece poder existir a menor dúvida que a cópia e o plágio são desonestidade.
Um copia por outro. Um plagia de alguém. Este «Um» falta à verdade e à justiça. Mas julgo que é mais do que isso.
Diria que é espelho de outras possibilidades: do sentimento de incapacidade pessoal do estudante, da auto-mutilação das suas potencialidades, de um hábito que se enraíza e assume formas diversas no ciclo da vida pessoal…

Outro aspecto mesmo ao lado é a da existência de muitas formas e seduções para o plágio – Internet, exemplo paradigmático. E as variantes vão de reproduzir (copy-paste) textos encontrados em sites até sites que disponibilizam trabalhos académicos já prontinhos (eu mesma fiquei espantada com a quantidade de ofertas quando fiz busca com «trabalhos prontos») ou por encomenda. A ideia é simples: dois clicks, um trabalho….(acresce que há comentários de estudantes agradecidos com as classificações obtidas).

Há, naturalmente, outras formas de desonestidade activa e passiva do estudante.
Estas eram activas. Pactuar com, é passivo. E a permissividade custa menos esforço do que ajudar o Outro a desenvolver-se e a aprender.

E tanto me refiro ao colega estudante como ao professor.
É preciso cuidado com a inadimplência (palavra derivada de inadimplir, “não cumprir algo nos termos convencionados”) quanto aos aspectos disciplinares, que a permissividade também alimenta a improbidade.

Questões que me ficam (apesar da extensão do texto):
Que ferramentas à disposição dos estudantes para combater a tentação? e dos professores?
Interrogaria se que quando os professores pedem trabalhos com temas vagos e sem necessidade de opinião/argumentos do estudante, não estão a promover indirectamente. Se quando pedem 4 ou 5 trabalhos por mês, com algum porte, não podem estar também a ajudar a «cair em tentação». Penso que o desconfiómetro é insuficiente diria que é fundamental orientar os trabalhos, premiar o pensamento autónomo e criativo, supervisar a realização e punir os casos detectados de forma dissuasora.

Conversamos?!