Publicado em Estudos e recursos, Setúbal

O charroque, variante dialectal da cidade de Setúbal

Os de Setúbal, quer lá tenham nascido e/ou lá vivam, sabem do dialeto, brincam com os dizeres, reconhecem o tom e as palavras, como ditas e todas pegadas, carregadas nos «rrr».
O charroque, designação popular cunhada a partir do peixe com o mesmo nome, cujas características morfológicas mais salientes são uma cabeça e boca grandes (daí também se designar por peixe-sapo), para representar o dialecto regional de Setúbal.
Deixamos aqui excertos de uma tese – “A presente dissertação constitui um estudo de índole sociocognitiva sobre a revitalização do charroque, variante dialectal da cidade de Setúbal, com o intuito de evidenciar que a relação entre a produção do significado e as vivências da pesca e do mar pode ser recuperada e até reforçada em sítios na internet.” tese de mestrado
“A nossa experiência biológica como seres humanos é articulada com a nossa experiência cultural e social, sendo reflectida e configurada nos usos linguísticos.
The knowledge which allows us to classify a stretch of speech as an instance of a given lectal variety is bound to be experientially grounded. Kristiansen (2008:60)
No âmbito do enquadramento teórico cognitivo merece destaque o processo cognitivo da metáfora como ferramenta de conceptualização do mundo e, como tal, de configuração de ordens simbólicas sociais e culturais, vigentes no uso linguístico. Em conformidade com postulado teórico de base da interligação entre o significado e experiência, não será de estranhar que, a nível metodológico, os estudos incidam sobre corpora autênticos (reais ou ficcionalizados) cuja análise semântica permite aceder a modelos culturais e sociais.” [p. 10]
O material de trabalho da tese advém de um blogue e um internauta,charroque da prrofundurra, num sítio na internet homónimo, cuja autenticidade está ancorada quer nas marcas de sotaque dialectal dos habitantes do Bairro de Troino, quer em referências recorrentes à ecologia local, quer ainda na recriação de imagens metafóricas cunhadas tendo como domínios-fonte a pesca e o mar.” [p. 38]
“Acontece que, no caso da interacção discursiva do sítio na internet charroque da profundurra, embora tendo por base marcas dialectais delimitadas regionalmente a um grupo de falantes de Setúbal do bairro do Troino, necessariamente
envolvidos na faina piscatória ou na comercialização de peixe, foi alargado a outros falantes, muitos deles mais jovens, que mantêm trocas discursivas online em charroque. Assim, a própria dimensão performativa do charroque na internet não pode ser dissociada da dimensão de recriação do dialecto online, o que configura de algum modo um uso ficcionalizado do mesmo, em grande parte, devido à dimensão lúdica e criativa inerente ao funcionamento das redes sociais.” [p. 45]
Algumas análise são interessantes, considerando as metáforas do dialeto:
Corpo da mensagem:
Durrmi bem dirreitinhe na cama qnem um linguade tôde espalmáde dárreia.
Análise sociocognitiva:
A imagem do linguado espalmado na areia é usado como domínio-fonte da imagem de alguém que dormiu todo esticado De facto, este peixe fica completamente espalmado na areia, procurando, assim, escapar aos seus predadores. Registe-se, porém, que este último aspecto não é activado no mapeamento, mas tão somente a posição da pessoa a dormir que faz lembrar o linguado.
[p. 59]
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Corpo da mensagem:
Oulha, apá bsugue, devem penssarr quê sou um polve sem brraces! Ê cá condé prra fazerr bem àque um home sempenharr a 110%. Á pois foi, parrcia um polve esbrracejande que nem um desvairrade, ele erra estalada…
Análise sociocognitiva:
Ao construir uma imagem metafórica que tem como domínio-fonte o polvo sem braços para representar uma pessoa, revela-se a intenção de representar alguém que não tem meios de sobrevivência., uma vez que o polvo sem tentáculos é incapaz de se locomover e, como tal, de sobreviver no meio aquático. Contudo, o autor do blogue recorre a esta imagem para expressar a sua reacção a esta situação, lutando para não se deixar ficar numa situação de impotência. Não queremos
deixar de sublinhar a forma de tratamento besugo em que o interlocutor, por mapeamento metafórico, é configurado como um peixe”
[p. 60-61]
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Corpo da mensagem:
Na asses mai bogas c.u lume tá frraque
Análise sociocognitiva:
A imagem metafórica acima pretende representar algo que já não faz sentido ou que já não vale a pena. No mundo real, quando se grelha peixe no carvão e o lume já está fraco, não vale a pena por o peixe a grelhar porque não vai ficar bem grelhado, assim sendo, sem condições, não vale a pena insistir em realizar uma determinada acção.
[p. 68]
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Corpo da mensagem:
Crriada da lama e nã gosta de errozes.
Análise sociocognitiva:
Neste contexto, a expressão metafórica assume o significado de “estar a negar as suas origens”, sendo que no domínio-fonte temos alguém que foi criado no meio ambiente em que há erozes, ou seja, que provém de um meio desfavorecido em que há determinados factores ambientais dos quais se procura distanciar, o que considerado negativo.
[p. 68]