“Pode alguém ser quem é? o teatro enquanto ferramenta de presença na pessoa do profissional de saúde”

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“A presente dissertação de mestrado assume-se como um estudo interdisciplinar entre a Saúde e o Teatro, tendo como eixo central o conceito Presença do actor. Uma dissertação alicerçada num processo de investigação-acção, ou seja, um estudo que envolveu também uma experiência de criação teatral. A revisão teórica prévia foi alargada às disciplinas de Filosofia, Medicina, Psicologia, Enfermagem, e o próprio Teatro, de forma a perspectivar o potencial de desenvolvimento do conceito Presença para além do âmbito teatral. Foram constituídos os pressupostos teóricos para avançar de forma consistente num laboratório de criação centrado na Presença. No contexto da exploração deste conceito, conduzimos esse laboratório à luz dos predicados do Teatro Comunidade, em que diferentes profissionais de saúde (Enfermagem,C. Farmacêuticas, Psicologia, Terapia Psicomotricidade, Medicina) e Educação (Professores, Educadores de Infância) vivenciaram o desenvolvimento da sua respectiva Presença em cena Teatral. Um laboratório de criação subjacente à celebração do Centenário Dr.João dos Santos, pelo que o objecto simbólico desenvolvido foi transversal à sua obra. Ao considerar este percurso de criação, desenvolvemos um estudo de investigação qualitativa com recurso à análise crítica de discurso de Fairclough. Uma construção discursiva sustentada em dois grupos focais, antes e após o respectivo laboratório de criação. Os achados discursivos apontam uma mudança discursiva sensível no que se refere ao conceito Presença do actor, mas em especial, sublinham o potencial de consolidação conceptual do mesmo conceito no âmbito disciplinar da saúde. Um objecto académico que reforça a importância da ponte interdisciplinar, no enriquecimento conceptual e operatório das disciplinas saúde e teatro.”

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Monólogo intemporal: Hamlet, “Ser ou não ser”

“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer… dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir… é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.
(…)”
William Shakespeare
(Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos)
To be, or not to be: that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, 'tis a consummation
Devoutly to be wish'd. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there's the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law's delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover'd country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action. - Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember'd.
W. Shakespeare

Hannah (de Hannah Arendt) e Martin (de Martin Heidegger)

Hannah e Martin

O estigmático encontro entre as duas figuras históricas deu-se em 1924, na Universidade de Marburg, num seminário sobre Platão. Discípula e Mestre iniciaram um relacionamento intelectual, amistoso e amoroso que perdurou até à morte de ambos (com escassos seis meses de diferença), sobrevivendo a contrariedades insuperáveis e a longos períodos de separação e de silêncio. E é justamente para aliviar a ausência que surge a correspondência que constitui um valioso objecto de estudo e reflexão sobre os aspectos politicamente mais controversos dessa relação de cinquenta anos de fidelidade e admiração recíprocas.

A estranheza da situação passional dos dois filósofos provocou Kate Fodor (1970), uma jornalista da Reuters mas que também ensina escrita teatral na Universidade de Pensilvânia; ao fim de cinco anos de investigação escreveu a sua primeira peça de teatro, justamente Hannah e Martin (2003), estreada em Nova Iorque no Manhattan Ensemble Theater. Agora em Lisboa, no Teatro Aberto, que traz ao nosso conhecimento autores dramáticos da nova geração que se debatem com a reformulação de temáticas universais. Neste caso, a ética e o perdão. Segundo as palavras de Kate Fodor: “Sou levada a acreditar que Arendt se empenhou numa certa luta para compreender como é que podia gostar ainda tão profundamente de alguém que tinha abraçado exactamente as coisas que ela tinha passado a vida a combater. Mas não há qualquer prova disso nas suas cartas”.

A peça está estruturada em cenas curtas, numa linha de tempo não sequencial, tomando como ponto de partida o julgamento do líder da juventude do Terceiro Reich, Baldur Von Schirac, em Nuremberga, em Novembro de 1946. Arendt, já reconhecida como notável pensadora, judia alemã naturalizada americana, aí se encontra a fazer a cobertura para o The New Yorker. O regresso à Alemanha significa também rememorar o passado, a prisão pela Gestapo, a fuga para Paris, depois para a América onde ensinou “como se a sua vida dependesse disso”. E visitar Heidegger, agora banido dos meios universitários e caído em desgraça pela sua filiação no partido nazi e ideologia anti-semita, da qual nunca se retractou. Diálogos rápidos, cinemáticos, convocam o espectador a participar no debate de ideias que permanentemente se desenrola à sua frente. Menos eloquente, contudo, na invenção de um discurso amoroso, que assim se revela mais operativo e menos avassalador.

O encenador João Lourenço ampliou a pluridimensionalidade temporal através de projecções video, cuidadosamente concebidas, que criam profundidade e informam sobre um passado histórico que se torna presente no palco; dialecticamente, os actores em cena são as personagens no ecrã, projecções de si-mesmos. A voz principal é a de Hannah, para cujo papel o encenador escolheu Ana Padrão, fulgurante de intensidade e de verdade teatral; exibe uma naturalidade invejável quando nos confronta com o seu relato, ou nos envolve nas suas dúvidas sobre a contradição entre ideias e actos. Bem vestida e penteada (lindissimo figurino de Maria Gonzaga), é sempre comovente, embora menos convincente na pele da romântica e impressionável estudante de dezoito anos, simultaneamente fascinada pela ideia de “aprender a pensar” e pelo veiculador dessa ideia. Rui Mendes constrói milimétricamente o seu Heidegger de forma segura e sóbria, criando ao longo das duas horas uma aura de mistério sobre a personagem que representa, cuja soberba atinge o paroxismo quando o ouvimos gritar: “Pedirei desculpa ao mundo quando Hitler voltar para me pedir desculpa a mim”.

Texto em JL

Espectacularmente bem conseguida….Ana Padrão numa interpretação notável