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[11] Lugares do Mundo,Emérita Augusta: aqueducto dos milagros

O aqueduto dos milagres faz jus ao nome, por se tratar do mais alto aqueduto de todo o antigo império Romano e por, dois mil anos depois, ainda existir…IMGP0067

Augusta Emérita foi fundada por ordem do imperador Augusto, no ano 25 a.C., como prémio para os veteranos da V Legião Alaudae e X legião Gemina, que lutaram contra os cantábricos e os asturianos (no final das guerras cantábricas).bRoma designou-a capital de uma das províncias da península de Hispânia, a Lusitânia. Hoje, está em território espanhol e é conhecida por Mérida.

Ao longo de 700 anos, a Hispânia fez parte do Império Romano, proporcionando recursos materiais e humanos, ao mesmo tempo que foi uma das regiões mais estáveis do império. Após a decadência do império romano, a cidade manteve a sua grandeza assumindo-se, na época visigótica, como a segunda cidade, imediatamente a seguir a Toledo, a capital. Durante a época muçulmana, na sequência das contínuas rebeliões dos seus habitantes contra o domínio do califado, Abderramán II ordenou, no ano 842, que, como castigo, a cidade fosse parcialmente destruída. A reconquista cristã, levada a cabo por Afonso IX, contribuiu pouco para o seu desenvolvimento. Com o estatuto autónomo, Mérida começou a tornar-se numa próspera cidade, abarcando as duas margens do Guadiana. E, desde 1993, constituindo património mundial.

IMGP0071A Hispânia, nas suas várias províncias, teve grandes empreendimentos: os romanos projectaram estradas que uniam Cádis aos Pirenéus e das Astúrias a Múrcia, cobrindo os litorais mediterrânicos e atlânticos pelas conhecidas vias: Via Lata (actualmente conhecida como Via da Prata), Via Augusta e Via Exterior que são os mais notáveis exemplos. Para sinalizar as distâncias, eram colocados os miliários que, em forma de coluna ou grandes pedras, marcavam a distância desde o ponto de origem em milhares de passos (milhas). O cuidado aplicado na projecção destas estradas subsiste até aos dias de hoje, já que a maior parte do traçado foi aproveitado nos traçados das auto-estradas e estradas nacionais actuais.IMGP0065

Segundo o Itinerário de Antonino, existiam em território português 11 eixos viários que ligavam às grandes vias que conduziam a Roma. Grande parte das numerosas pontes romanas conservaram-se até à actualidade e são ainda utilizadas por toda a região.

Em Mérida, destacam-se as ruínas do Aqueduto dos Milagres. Este é assim chamado devido às manifestações de incredulidade popular que pensavam ser milagre, ter-se conseguido construir esta estrutura. O guia, ironicamente, afirmava que milagre era ainda existir, dois mil anos depois… IMGP0069

Construído entre o século I a.C. e a segunda metade do século III, serviu para trazer água desde o lago artificial Proserpina até à cidade de Emérito Augusta, sobre a depressão do leito do rio Albarregas, afluente do Guadiana. Mede 830 metros de largura e 25 de altura.IMGP0072

Destaque para outros vestígios romanos, como o Teatro e o Anfiteatro, ficam para outro dia, noutro(s) posts…

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Pensamento do dia

IMGP0169IMGP0196Não duvide do valor da vida, da paz, do amor, do prazer de viver, em fim, de tudo que faz a vida florescer. Mas duvide de tudo que a compromete.

Augusto Cury

(Fotos do Teatro romano, Mérida)

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Vanitas… ou o aviso dos ossos

IMGP9852Talvez esta Capela represente uma das mensagens mais bem sucedidas sobre a precaridade da vida….A Capela dos Ossos, na Igreja de São Francisco, em Évora, foi construída no século XVII, IMGP9829

iniciativa de três monges que, dentro do espírito da altura pretenderam transmitir a mensagem da transitoriedade da vida, tal como se depreende do aviso à entrada: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”.

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A capela pareceu-me, desta vez, maior do que me lembrava – é formada por 3 naves, entrando a luz por três pequenas frestas do lado esquerdo. As paredes e os oito pilares estão decorados com ossos e caveiras ligados por cimento pardo. Foi calculado à volta de 5000, provenientes dos cemitérios, situados em igrejas e conventos da cidade. IMGP9854

A capela era dedicada ao Senhor dos Passos, imagem conhecida na cidade como Senhor Jesus da Casa dos Ossos, que impressiona pela expressividade com que representa a caminhada com a cruz até ao calvário.

IMGP9885 Haveria de ser uma experiência um tanto macabra, recolher-se diariamente a meditar numa capela de ossos – que é isto que ela é, “capela de reflexão contemplativa penitente” . Este tipo de cenografia fúnebre, que preenche o espaço da Capela dos Ossos, afirma também o gosto do homem barroco pelo macabro e pela necrofilia. Ao mesmo tempo, traduz a necessidade de meditação sobre a transitoriedade do mundo material – simbolismo reforçado pela visualização das ossadas e das caveiras dos defuntos. Um mistiscismo funéreo que encontramos noutras capelas de ossos (nomeadamente em Campo Maior, Monforte e Faro).

Vanitas, vaidade… é curioso que o termo hebraico que traduz a palavra vaidade, Qohelet, significa etimológica e literalmente “vapor de água”. Uma mistura com água, sombra, fumo, aragem, brisa, nuvem – do repertório dos vocábulos que nomeiam imagens de substância efémera, que ilustram eficazmente a ideia de “fragilidade humana”. A origem iconográfica mais remota das vanitas na pintura encontra-se, seguramente, no retrato de S. Jerónimo eremita, os livros e folhas volantes, símbolos da especulação intelectual de Doutor da Igreja, o crânio humano e a ampulheta, lembrando ao homem de carne e osso que ele não é nada face ao poder aniquilador do tempo. Na arquitectura, esta Capela dos Ossos é um belíssimo exemplo… com o seu letreiro de ameaça cruel: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” ou, noutra versão, “Tu és o que nós já fomos e serás o que nós somos”.

À saída, o confronto com a luz do sol e a beleza deste verão lusitano. IMGP9893