lugar à poesia… sempre

NOCTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

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desvio blogoesférico

Hoje, gostei imenso de um post.
Talvez pelas interrogações persistentes dos curiosos… que querem construir.
Talvez pela afinidade de, às vezes, sentir-a-estranheza, em redor.
Talvez pelo desafio, que cada um coloca a si, antes de o colocar aos outros.
ou por tudo…

Trago-o para aqui.

desconstrução

“Não sou dos mais inteligentes, também não quero ser dos mais parvos.
Sou curioso, naturalmente curioso e um curioso orientado, isto é, em função de questões mais ou menos específicas, de questões que me permitam perceber contextos ou situações mais amplas, mais gerais.
Nada de mais para além do normal de cada um de nós, penso eu, digo eu.
Neste contexto uma das coisas que gosto de fazer, quando pergunto o porquê, é o de desconstruir ideias, conceitos, palavras, sentimentos e algumas emoções que estão por detrás das palavras.
Colocado como responsável de uma organização onde trabalham 14 pessoas, é importante perceber alguns porquês de modo a poder perceber o para quê.

Mas reparo na surpresa de uns ou de outros quando procuro, dentro das minhas limitações, a desconstrução dos sentidos e procuro ir para além do óbvio, do aparente, do mais directo.
Numa qualquer organização as coisas são sempre mais do que aquilo que aparentam, o resultado final do número de pessoas não é, muito longe disso, a sua soma aritmética.

Fruto de pequenos ou de grandes arranjos, há situações que vão fundo na explicação de alguns porquês, na construção das evidências.
Seja na escola como nas organizações [não educativas, no caso] é a vida que serve de exemplo e como nela precisamos de construir sentidos.
Na falta de um mais geral, com o qual nos possamos identificar, criamos um pessoal, individual.
Por vezes choca com o geral, outras concorre com ele, outras ainda é dele complementar.
Agora querer sintonizar ideias particulares na e para a construção de um sentido colectivo do trabalho que se desenvolve é, claramente, um desafio.
é este desafio que me move, na escola ou aqui, onde agora estou.

Manuel Cabeça

em torno da leitura do dia


(Webshots: Newton, William Blake)

Na realidade, a sociedade do conhecimento deverá ser encarada como um espaço aberto, em que se podem afirmar actores diversos do ambiente científico-cultural e do tecido socioeconómico, todos eles movidos pela intenção estratégica de gerar dinâmicas globais de desenvolvimento, centrados, num conhecimento prático sustentado.
Essas dinâmicas de desenvolvimento, podendo embora ter referências territoriais distintas, partem sempre de plataformas de excelência e competitividade instaladas ou devidamente programadas, constituindo clusters de conhecimento susceptíveis de fixar inteligência e estimular a inovação. É que, qualquer que seja o território de referência, os ganhos de competitividade estão essencialmente associados à racionalidade das estratégias de desenvolvimento, à massa crítica que impulsiona o conhecimento e a inovação, e aos níveis de eficiência na gestão desse conhecimento, quase sempre dependente da articulação consistente dos diferentes actores intervenientes. ”

José Veiga Simão, Sérgio Machado dos Santos, António de Almeida Costa
Ambição para a excelência. A oportunidade de Bolonha.
p. 30/31
Este parágrafo está no capítulo «O futuro do ensino superior e os desafios da sociedade do conhecimento», no subcapítulo «Mudança de mentalidades e de atitudes».

Parece tão simples…
Sobretudo, os vectores ligados aos ganhos da competitividade – racionalidade das estratégias, massa crítica, niveis de eficiência na gestão do conhecimento…

Se a massa crítica é a massa mínima de material requerida para ser fundida e gerar uma reação nuclear espontânea em cadeia, tem de ser «crítica» para desencadear reacção.
Daí que se associe a vivacidade intelectual, diálogo constante e rápido, de argumentação crítica.
Mas também tem de ser «crítica» na quantidade. Também decorre da estimulação de grupos e é condição de e para grandes projectos. Também servirá para garantir a existência de uma opinião pública forte e bem informada.

Assim, trata de níveis qualitativos de recursos humanos altamente qualificados, ou,
como me parece, pessoas e equipas de alto desempenho,
força de trabalho que se empenha na descoberta ou na refinação de novas ideias, em termos de estruturas e processos, de eficiência e de eficácia.

Passámos para a área das «ferramentas» de gestão.
Mudanças organizacionais são difíceis. E quem assume a responsabilidade da mudança sabe que é essencial a criação de uma massa crítica aliada da mudança.
(How to build a critical mass of support to accelerate your change – Linda Ackerman Anderson and Dean Anderson, Results from Change, n13, Dec 2002 )

Se a massa crítica se forma nas instituições de ensino superior,
cabe aos professores serem eles mesmos massa crítica, de alto desempenho, de mobilização, de… Melhor parar aqui e ficar a pensar.

livros e leituras

“Não há histórias sem sentido. E eu sou um dos homens que sabem descobri-lo mesmo onde os outros não vêem. Depois disso, a história torna-se o livro dos vivos, como uma ressonante trombeta que faz ressurgir do sepulcro os que eram pó há séculos… Só que demora muito tempo, é preciso considerar os acontecimentos. Ligá-los, descobrir os nexos, mesmo os menos visíveis.”

Umberto Eco
Baudolino, p. 19

(fonte da foto: aqui)

A leitura de Baudolino atordoa e diverte – pelos planos narrativos, pela trama de fábulas e histórias inventadas que se tornam verdade(s). Um perito em fabulação que é conselheiro de rei e arquitecto de história medieva. Um circuito que atordoa, da Itália ao Oriente, de Frederico ao Prestes João, das lendas e da busca do Graal a reflexões filosóficas, a apreciações sobre as diferenças entre os povos… e a um empenho especial em seguir os fios, ligar os eventos e em já não discernir ficção, romance, fábula…

Nas histórias e percursos biográficos, quantas procuras de sentido e quanto esforço de destrinça…

Apontamentos de um expert

Irresistível, trazer aqui JVC….

Transição para o processo de Bolonha

O processo de Bolonha é uma discussão interminável. Todavia, há aspectos importantes ainda pouco debatidos. Um é o da transição entre os dois modelos, o tradicional e o de Bolonha, incluindo, obviamente, o paradigma de Bolonha. É assunto que só tenho discutido com um ou outro amigo, mas que nunca li em debate público.
Adaptado o nosso ensino, espero que coerente e radicalmente, ao paradigma de Bolonha, que fazer com milhares de estudantes, apanhados a meio dos seus cursos? Creio que só há uma alternativa, que ponho à discussão. Os que me conhecem, sabem que procuro ser afirmativo, mas, neste assunto, tenho grandes dúvidas. A alternativa, para mim, é: manter os cursos actuais, a par dos novos cursos, até se licenciarem todos os estudantes; inserir os actuais alunos nos novos cursos reformulados (mas será que o vão ser ?!)
.”

Face à questão da introdução dos novos planos curriculares parece-me dificil realizar uma proposta de transição – como ligar o que é tão fundamentalmente diverso? e os riscos que daí adviriam, como o de só mudar o nome?
Por isso, a melhor possibilidade é a de ir «empurrando» o velho com o novo… Ou seja, quem chega, começa. Quem já vai em andamento, conclui a viagem do modo iniciado.
Também julgo que respeita o “não se mudam totalmente as regras a meio do jogo”.

Como estou a ler atentamente a “Ambição para a excelência. A oportunidade de Bolonha” ainda voltarei ao assunto.