Juvenal, a sátira X ou o uso refutável de um aforismo

O aforismo “mente sã em corpo são” não é sobre saúde mental.

A citação encontra-se no final da Sátira X de Decimus Iunius Iuvenalis, conhecido por Juvenal, satírico romano, e é parte da resposta  à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida e pedir em oração. O que deviam rezar para ter. A sátira X (como a VIII, XII e XIV) é crítica e mordaz perante o que os romanos pediam aos deuses (riqueza, poder, honras, filhos, longevidade) e recomenda tópicos para as orações, claramente com inspiração estóica.

One of his grandest poems is the 10th, which examines the ambitions of mankind—wealth, power, glory, long life, and personal beauty—and shows that they all lead to disappointment or danger: what mankind should pray for is “a sound mind in a sound body, and a brave heart.”  (Juvenal bio)

Sátira X em latim  – Sátira X em inglês

Não admira que o poema The Vanity of Human Wishes, de Samuel Johnson, imite a Décima Sátira de Juvenal.

No contexto original:

orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium uitae extremum inter munera ponat
naturae, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores               360
Herculis aerumnas credat saeuosque labores
et uenere et cenis et pluma Sardanapalli.
monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe
tranquillae per uirtutem patet unica uitae.
nullum numen habes, si sit prudentia: nos te,               365
nos facimus, Fortuna, deam caeloque locamus.

(Satirae, X 356-64)

Sat X:346-366 So Much For Prayer

So is there nothing worth people praying for? If you’ll take

My advice, you’ll allow the gods to determine what’s right

For us, and what’s likely to benefit our situation; for

The gods grant us gifts that are more fitting than nice.

They show more care for us than we do for ourselves. We

Seek marriage and offspring driven by blind emotion, by

Vain desire, while the gods know all about the children

We’ll have, and what kind of wife ours will turn out to be.

Still, if you want a reason for prayer, for offering a pretty

White piglet’s innards, the sacred sausages, at the shrines,

Then you might pray for a sound mind in a healthy body.

Ask for a heart filled with courage, without fear of death,

That regards long life as among the least of nature’s gifts,

That can endure any hardship, to which anger is unknown,

That desires nothing, and gives more credit to all the labours

And cruel sufferings of Hercules, than to all the love-making

All the feasting, and all the downy pillows of Sardanapalus.

The prayer I offer you can grant yourself; without doubt,

The one true path that leads to a tranquil life is that of virtue.

If we were prudent, you’d possess no power, Fortune: it’s we

Who make you a goddess, and grant you a place in the sky.”

….

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.  Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, desconheça a ira, nada cobice e creia mais nos labores selvagens de Hércules do que nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de Sardanapalo. Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude. Juvenal, 2005, p. 12

Não admira que o poema The Vanity of Human Wishes, de Samuel Johnson, imite a Décima Sátira de Juvenal.

Como outras figuras de estilo, citadas frequentemente, “mens sana in corpore sano” tem sido utilizada repetidamente, associando-se particularmente à educação física e ao desporto (corpo são) ou ao equilíbrio da mente e do corpo mas importa não perder de vista o contexto em que foi escrita.

tese mestrado Juvenal, Satvrae

tese doutoramento O burlesco e o satírico na obra de Marcial e Juvenal

…….

Post a propósito de: “A saúde mental é a base do bem-estar geral. É este o sentido da expressão “mente sã em corpo são” ou, noutra formulação, que “não há saúde sem saúde mental”. (site)”

Lugar e lugaridades

A palavra «lugaridade» alude, na raíz, ao conceito de Edward Relph (Place and placeness, 1976), na leitura antropológica de Marc Augé (Não lugares, 1995) de lugares e não-lugares.

Lugar é o espaço vivido, do quotidiano, que carrega consigo a afetividade e a memória, espaço antropológico, que apresenta características identitárias, relacionais e históricas.

Se pensarmos bem, todos temos os nossos «lugares», em certos espaços, do doméstico ao profissional, desenvolvemos hábitos de ocupação e materialização do nosso lugar. Uma visível aproximação da geografia humana, fenomenologia, antropologia.

“O conceito de lugar, considerado por muito tempo como um dos mais problemáticos da Geografia, tem se destacado, recentemente, como uma das chaves para a compreensão das tensões do mundo contemporâneo. Articulando, entre outras, as questões relativas a globalização versus individualismo, às visões de tendência marxista versus fenomenológica ou à homogeneização do ambiente versus sua capacidade de singularização, o lugar tem se apresentado como um conceito capaz de ampliar as possibilidades de entendimento de um mundo que se fragmenta e se unifica em velocidades cada vez maiores”.
Luiz Felipe Ferreira

«Ocorre que “espaço” é um termo genérico e abstrato, ligado à geometria euclidiana e à física newtoniana. Isso não impede que seja considerado por muitos, inclusive geógrafos, como o objeto central da Geografia. (…) Se o espaço geográfico nasce de uma relação existencial do homem com a Terra, afirmo, com base em um aporte fenomenológico, que ele tem como essência a “geograficidade”, que expressa a razão de ser do homem no planeta Terra, ou seja, delimita e determina a sua possibilidade de existir como ser-no-mundo.(…) A geograficidade, que expressa a materialidade do espaço geográfico, é compartilhada em nossas vivências cotidianas com a lugaridade que, por sua vez,

expressa exatamente essa relação dialógica dos seres em movimento com lugares e
caminhos que, como pausa, como convivência íntima, arrumam e delimitam os
espaços.»

Ler O lugar geneticamente modificado, Lineu Castello

“O lugar não é mais o mesmo que sempre foi. Ou mais, os lugares não são mais os mesmos que foram outrora. Um mesmo espaço pode mudar ao longo da história. Os espaços ocupados podem ser os mesmos, mas é certo que todas as mudanças nele promovidas são acompanhadas por uma resignificação dos sentidos que lhe são atribuídos. São os mesmos espaços, mas diferentes lugares. Podemos dizer preliminarmente que um espaço pode conter diferentes lugares. Para além de um mero
espaço geográfico, o que um lugar representa depende dos significados que lhe são
atribuídos.”
Alan Mocellim, Lugares, Não-Lugares, Lugares Virtuais

“perda de chance”

Perda de chance como a perda da possibilidade de obter um resultado ou de evitar um prejuízo – frustração da chance de obter uma vantagem futura ou evitar um dano que aconteceu
“A noção da perda de chance apareceu, como uma criação pretoriana, para dar resposta a um dos problemas que resultam da (omni)presença da álea na realidade que o direito é chamado a conformar. Na verdade, esta noção surgiu, no âmbito da responsabilidade civil, por causa da dificuldade (impossibilidade) verificada na afirmação do nexo de causalidade entre um determinado ato que se equaciona ser fundante da responsabilidade do seu autor e a frustração da concretização, em detrimento da pessoa que se apresenta como lesado, de um determinado resultado futuro. Por o resultado ser de consecução incerta, não se consegue afirmar que, sem aquele ato, este resultado se teria efetivamente produzido. Não é possível, pois, dar por assente
que o ato é condição necessária da produção do dano (da perda do resultado final) e, aceitando a vigência, entre nós, da exigência da condicionalidade, o direito à reparação do dano é afastado.”
[nota de rodapé] Apesar de ser também utilizada a expressão “perda de oportunidade”, a expressão “perda de chance” continua a ser predominante entre nós para designar a noção, encontrando inspiração na fórmula francesa: “perte de chance”. A chance, ainda que pressuponha a existência de uma oportunidade no sentido de significar que existe uma possibilidade de se alcançar algo, acentua mais, desde logo no plano terminológico, a ideia de imprevisibilidade associada ao decurso dos acontecimentos e, portanto, à concretização ou não da oportunidade.
“1. A figura da “perda de chance” visa superar a tradicional dicotomia: responsabilidade contratual versus responsabilidade extracontratual ou delitual, summa divisio posta em causa num tempo em que cada vez mais se acentua que a responsabilidade civil deve ter uma função sancionatória e tuteladora das expectativas e esperanças dos cidadãos na sua vida de relação, que se deve pautar por padrões de moralidade e eticidade, como advogam os defensores da denominada terceira via da responsabilidade civil.

2. A perda de chance relaciona-se com a circunstância de alguém ser afectado num seu direito de conseguir uma vantagem futura, ou de impedir um dano por facto de terceiro. A dificuldade em considerar a autonomia da figura da perda de chance no direito português, resulta do facto de ser ligada aos requisitos da responsabilidade civil extracontratual – art. 483º, nº1, do Código Civil – mormente ao nexo de causalidade.  Com efeito, um dos requisitos da obrigação de indemnizar, no contexto da responsabilidade civil ex contractu, ou ex delictu, é que exista nexo de causalidade entre a conduta do responsável e os danos sofridos pelo lesado por essa actuação culposa.

3. Para que se considere autónoma a figura de “perda de chance” como um valor que não pode ser negado ao titular e que está contido no seu património, importa apreciar a conduta do lesante não a ligando ferreamente ao nexo de causalidade – sem que tal afirmação valha como desconsideração absoluta desse requisito da responsabilidade civil – mas, antes, introduzir, como requisito caracterizador dessa autonomia, que se possa afirmar que o lesado tinha uma chance [uma probabilidade, séria, real, de não fora a actuação que lesou essa chance], de obter uma vantagem que probabilisticamente era razoável supor que almejasse e/ou que a actuação omitida, se o não tivesse sido, poderia ter minorado a chance de ter tido um resultado não tão danoso como o que ocorreu. Há perda de chance quando se perde um proveito futuro, ou se não se evita uma desvantagem por causa imputável a terceiro.

4. Não devem assimilar-se os planos do dano e da causalidade, com implicação na perspectiva de excluir como dano autónomo a perda de chance, nem esta figura deve ser aplicada, subsidiariamente, quando se não provou a existência de nexo de causalidade adequada entre a conduta lesiva por acção ou omissão e o dano sofrido, já que existe sempre uma álea, seja quando se divisa uma vantagem que se quer alcançar, ou um risco de não conseguir o resultado desejado.

5. No caso de perda de chance não se visa indemnizar a perda do resultado querido, mas antes a da oportunidade perdida, como um direito em si mesmo violado por uma conduta que pode ser omissiva ou comissiva; não se trata de indemnizar lucros cessantes ao abrigo da teoria da diferença, não se atendendo à vantagem final esperada.”

picuinhices… ou da diferença entre pedido e indicação

Há alguma falta de senso linguístico que me “faz espécie”. Por exemplo, quando se toma uma indicação por um pedido.  Alguém indica um forma de fazer alguma coisa e no email seguinte lê-se «a pedido de», quando se devia poder ler «por indicação de». Eu sei que pode parecer uma picuinhice mas, em boa verdade, parece(-me) incapacidade de diferenciar, de estabelecer aquelas distinções simples como entre pedir e indicar.

Um pedido significa que se pediu, um rogo ou súplica, que se apresentou uma necessidade, uma prece. Ah, e prece, do latim prex, significa “pedido, requerimento”.

Uma indicação é apontar ou assinalar, fazer uma recomendação ou prescrição, dar esclarecimento sobre. Portanto, uma indicação ou uma informação, com a mesma raíz latina, já que indicar” vem de in-, “em”, mais dicare, “proclamar, asseverar”, parente próximo de dicere [“dizer, falar, contar”], cujo antepassado é o mesmo, o indo-Europeu deik-, “indicar”.

Assim, não faço um pedido quando trato de esclarecer sobre um circuito ou um procedimento – dou indicação. Não faço um pedido para se cumprirem etapas regulamentadas – dou indicações. Não faço um pedido quando informo qual é a forma de avaliação – dou informação. Et voilá!

Oxford Dictionaries – Word of the Year 2017: youthquake

Em 2017, youthquake

As 2017 draws to a close, we turn to language to help us mark where we have been, how far we have come, and where we are heading. One word has been judged as not only reflective of the ethos, mood, or preoccupations of this past year, but as having lasting potential as a word of cultural significance. The Oxford Dictionaries Word of the Year 2017 is… youthquake.

The noun, youthquake, is defined as ‘a significant cultural, political, or social change arising from the actions or influence of young people’ – ‘uma mudança cultural, política ou social significativa decorrente das ações ou influência dos jovens “.

Curiosamente, além de ter sido título do 2º album dos Dead or Alive, o termo cunhou-se em 1965, como movimento jovem.

Portanto, a palavra do ano 2017, para o léxico Oxford, youthquake, terramoto da juventude,não é uma palavra nova (como aconteceu em 2016, com “post-truth”)mas uma retomada dos anos 60, na altura relacionada com o cenário da moda e da música.

palavras – integridade

do latim integritate,  significa a qualidade de alguém ou algo de ser íntegro, de conduta reta, pessoa de honra, brioso, pundonoroso.

De forma simples, a integridade é um conceito de consistência nas ações, nos valores, nos métodos, nas medidas, nos princípios.

Em ética, é entendida como honestidade, veracidade e rigor das ações. Uma virtude do sentido interior de «todo», de ser inteiro. Podemos referir a integridade moral, numa vida íntegra, assim como a integridade física ou dos bens sociais e individuais, integridade da honra e da fama, a integridade da intimidade pessoal, do nome, da imagem e dos sentimentos.

Na investigação científica a integridade reporta a valores fundamentais tais como a honestidade (quanto aos dados, resultados e processo de investigação), o rigor e transparência (explicitando as escolhas metodológicas, os processos), a confiança (nas garantias dos investigadores, como a confidencialidade), respeito(reconhecendo os contributos e colaborações, as autorias) e responsabilidade (assunção das obrigações dos investigadores e resposta pelos atos e consequências).  A comunidade científica estabeleceu mecanismos de controle da integridade do conhecimento gerado e das práticas de pesquisa – são  exemplos a avaliação por pares, a divulgação do conhecimento a publicação de artigos e livros, a apresentação de temas livres e de palestras em reuniões científicas.

E a integridade clínica – “Clinical integrity has two aspects. With respect to clinical practice, it requires health professionals to recognise when the expertise of other professionals should be sought. In the case of people with advanced chronic or terminal conditions, specialist palliative care will often be needed to keep people as free of pain and other suffering as is possible so that they can live well until they die. Secondly, with respect to personal integrity, it concerns both integrity in one’s personal character and consistency in one’s actions. In caring for people making the transition to end of life care, health professionals need to develop the skills required to facilitate the person’s journey through the maze of clinical and healthcare supports. Above all, clear communication with both the person and their other health professionals regarding the disease process, its likely trajectory and anticipated future needs is vital, as is the need for some health professionals to lead the collaboration about a person’s care.”  ethical framework

%d bloggers like this: