Publicado em Psiquiatria, Saúde mental

On being sane in insane places. A experiência de Rosenhan

David Rosenhan realizou uma experiência que resultou num artigo publicado pela Science em 1973 ( David L. Rosenhan, “On Being Sane in Insane Places,” Science, Vol. 179 (Jan. 1973), 250-258).

Nesse artigo relata que 8 pessoas (David Rosenhan e sete colaboradores) se apresentaram como doentes e tentaram ser internados em 12 hospitais de 5 estados dos EUA. O grupo era constituído por três psicólogos, um pediatra, um psiquiatra, um pintor e uma dona de casa. Cinco homens e três mulheres. A queixa era que ouviam vozes e alguns alegavam sentimentos de “vazio”, “oco”, “abatimento”. Todos foram internados – onze tiveram diagnóstico de esquizofrenia e um de psicose maníaco-depressiva.

Na entrevista de admissão todos os voluntários asseguraram ouvir ruídos e vozes o que determinou sua admissão com diagnóstico de esquizofrenia e transtorno bipolar. Uma vez dentro da instituição os participantes da investigação começaram a afirmar que não tinham sintomas e começaram comportar-se normalmente. Mesmo assim foram receitados psicofármacos. Ficaram internados entre sete e cinquenta e dois dias, com uma média de 19 dias. Muitos doentes internados declararam suspeitas que os novos entrados não eram doentes; já os profissionais encararam atitudes normais (como escrever ou tomar notas) como sintomas da doença.

Quando foi publicado o artigo, a direcção de um hospital, irritada com os resultados do estudo, desafiou a equipa de Rosenhan a enviar doentes incógnitos para a sua própria instituição, de modo a poder confirmar a eficácia dos diagnósticos da sua equipa na distinção entre falsos e verdadeiros doentes. Com efeito, o pessoal médico foi capaz de identificar mais de quarenta fraudes entre os quase duzentos pacientes da instituição. Mas Rosenhan não tinha enviado qualquer voluntário incógnito.

Rosenhan e a equipa deixaram claro no projeto que o objetivo não era ridicularizar as instituições, era questionar a capacidade da psiquiatria para distinguir a psicose de traços comuns das pessoas. Em bom rigor, Ronsehaun estava contra a classificação DSMIII (1968) – aliás, a classificação DSM foi revista várias vezes desde que o estudo foi publicado e os critérios diagnósticos foram melhorados consideravelmente.

Robert Spitzer chamou a atenção para o problema ético de realizar uma investigação sem consentimento do pessoal do hospital embora o facto tivesse sido minimizado pela ausência de identificação das pessoas no estudo de Rosenham. Outro problema ético do estudo foi provocar uma crise de confiança no sistema de saúde mental que poderia ter inibido a procura por parte do público.

A experiência é referida muitas vezes como exemplo dos limites fluidos entre os estados de sanidade e de insanidade.

Mas mais do que os dados empíricos, gosto do título que foi dado ao estudo, On being sane in insane places, frase que às vezes me ocorre em contextos de trabalho.

foto de Rosehan e artigo sobre o assunto aqui – Can we tell the difference between sane and insane?

 

Publicado em Psiquiatria

Luís Cebola, um psiquiatra esquecido

José Luiz Rodrigues Cebola nasceu em Alcochete, a 5 de setembro de 1876 e faleceu a 11 de março de 1967. Ter-se-á mudado com a família para Lisboa para ingressar na Escola Politécnica, em 1895, com dezanove anos. Foi aluno da Escola Politécnica, de 1895 a 1900 – realizou a preparação para os estudos médico-cirúrgicos; estudou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa de 1899 a 1906, ano em que defendeu a sua tese inaugural, A Mentalidade dos Epiléticos, desenvolvida sob a orientação de Miguel Bombarda no Hospital de Rilhafoles; nesta tese, reuniu e analisou documentos de expressão artística dos doentes epiléticos.

Trabalhou e investigou em Rilhafoles até ter sido nomeado director clínico da Casa de Saúde do Telhal a 2 de Janeiro de 1911, pelo Governo Provisório da República Portuguesa. Inicialmente teria declinado o convite, vindo a aceitar como serviço prestado à República – o próprio Afonso Costa lhe agradeceu “o sacrifício, em favor do regime” (Pereira, 2015).  Foi diretor clínico até 28 de Fevereiro de 1949, data da sua aposentação.

Republicano, preocupado com a divulgação científica da Psiquiatria, convicto nos benefícios da ergoterapia, promotor do Museu da Loucura (Museu ergoterápico do Telhal).

Autor do primeiro manual, em Portugal, destinado aos enfermeiros – identificado como “Livro de estudo destinado ao Curso da Escola de Enfermagem no Manicómio do Telhal“.

No texto da apresentação, lemos:

Desde que a assistência aos alienados começou a fazer-se no sentido rigorosamente científico, tormou-se necessário instruir os enfermeiros – masculinos e femininos – por serem os melhores colaboradores do médico dentro do campo da clínica psiquiátrica. Procedi, assim, elaborando um livro de estudo, baseado na minha longa prática de muitos anos, livro que destinei ao Curso da Escola de Enfermagem que eu dirijo no Manicómio do Telhal. Não tendo aparecido até hoje obra do mesmo assunto, resolvi agora publicá-lo, dando à exposição uma forma tanto que possível, clara e concisa. A primeira parte encerra noções elementares de anatomia, fisiologia, pequena cirurgia higiene e farmácia; e a segunda parte, conhecimentos técnicos indispensáveis a quem presta serviço de enfermagem a doentes de mentalidade mórbida quer no hospital, quer no domicílio. Lisboa, março de 1932. Luís Cebola”

Fontes das fotos:  1ª  foto da esquerda aqui –  foto do meio aqui –  foto da direita aqui

Recomenda-se:

Pereira, Denise Maria Borrega (2015) Visões da Psiquiatria, Doença Mental e República no Trabalho do Psiquiatra Luís Cebola (1876-1967): uma Abordagem Histórica nas Encruzilhadas da Psiquiatria, Ideologia Política e Ficção, em Portugal, na Primeira Metadedo Século XX. Dissertação para obtenção do Grau de Doutor em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia. UNL, FCT. https://run.unl.pt/bitstream/10362/16309/1/Pereira_2015.pdf

Gameiro,  Aires – Evocação de um médico esquecido, O Dr. Luís Cebola – pioneiro da ocupação ergoterápica na Casa de Saúde do Telhal, da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. Memória das XX Jornadas de Estudo. Medicina na Beira Interior. Da Pré-História ao Século XX. Cadernos de Cultura, nº 23, 2009, p. 126-133. Disponível em http://www.historiadamedicina.ubi.pt/cadernos_medicina/vol23.pdf