Uma curiosa lista… “A lista da nossa mãe”

1. Diz o que tens a dizer «Ensina-os a dizerem sempre o que pensam.»

2. «Beija-os sempre duas vezes»

3. Hectares e hectares. de amor, de sorte

….

A LISTA DA NOSSA MÃE

“Começou a escrevê-la quando lhe perguntei: «E se tu me deixas?»
A Kate era uma mulher devotada e uma mãe extremosa e queria dar-me uma ajuda para ter a certeza de que eu criaria os filhos sem ela da melhor maneira possível.
Quando li a lista final, depois de ela partir, senti-me menos só. O espírito da Kate continuava vivo e eu estava-lhe imensamente grato pelo enorme esforço que fez para a terminar no leito de morte. Ainda tinha um laço que me ligava
à minha fantástica mulher, e tirei grande conforto daí.
Acho que algumas pessoas se preocupam com o impacto que a lista pode ter na minha vida. E se ela tornar a presença da Kate tão poderosa que o meu luto nunca vá terminar? E se ela me agarra ao passado de forma tão firme que eu
não possa continuar em frente? Para mim, nunca houve dúvidas. A lista da Kate era, sem sombra de dúvidas, uma incrível prenda que a minha mulher me dava. Estava certo de que me guiaria e me ajudaria a construir um futuro
fantástico para os nossos rapazes.
Não tenho ainda ideia de quanto tempo demorarei a cumprir todos os desejos da Kate, ou mesmo se alguma vez conseguirei realizá-los todos. Alguns podem demorar toda a vida a concluir. Só uma coisa é certa: vou dando cada passo o melhor que posso, em memória da minha querida mulher.”

Para pensar

“just live in the now” is by far the most destructive piece of advice I’ve ever heard from anyone in terms of the times and conditions we live in now, it assumes now will be the same as later, so don’t worry about the later when you can live now because eventually a better later will come without you preparing for it. No. That doesn’t make sense. We don’t have that “live in the moment” privilege past generations were talking about and promoting, we’re that generation that is living out the results of what a “just live in the now” culture conformed to.

cwl

Poema, António Ramos Rosa

Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.

António Ramos Rosa

Poesia, Brecht

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)