pensamento do dia


Um bom líder é a pessoa que fica com um pouco mais na divisão da culpa e com um pouco menos na divisão dos créditos.

John C. Maxwell

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Actos de linguagem

(Mont Sainte Victoire, Cezanne)

Se tem a ideia de que a linguagem serve apenas para expressar pensamentos, ideias ou sentimentos, ou para relatar factos ou descrever acontecimentos, pense nisto:
a linguagem não é um mero instrumento de informação, não tem apenas função instrumental ou informativa.

A linguagem também se presta à realização de determinados actos e, portanto, à produção de factos – a que se dá o nome de actos de linguagem (speech acts).
«Prometo dar-te um presente nos anos» diz alguém – e ao dirigir este enunciado, não está a informar que promete dar-lhe um presente no dia dos anos – está a fazer uma promessa, a realizar o acto de prometer. Em consequência, criou-se uma nova relação entre ambos, uma espécie de relação contratual, ficando quem diz obrigado a cumprir a promessa, isto é, a realizar no futuro aquilo que o enunciado afirmou.

A teoria dos actos de linguagem começou por ser expressa por John Austin, na década de 50, numa série de 12 palestras, proferidas na Universidade de Harvard, no quadro das Conferências William James. O texto destas palestras, juntamente com as notas de Austin, só viria a ser publicado, em 1962, a título póstumo, com o título How to Do Things with Words.

Austin fez notar que muitos dos enunciados que proferimos não podem ser submetidos à prova da veracidade, uma vez que não tem sentido submetê-los a essa prova. Apesar disso, este tipo de enunciados não deixa de ter sentido.
Quanto a alguns, podemos perguntar se são verdadeiros ou não – como «Está a chover» ou «a parede é de madeira», enunciados que relatam objectos ou factos, que existem independentemente do facto de os relatarmos). Mas já não terá qualquer sentido perguntar se são verdadeiros ou falsos enunciados do tipo «Bom dia!», «Aposto que vais gostar do filme», «Prometo dar-te um presente no dia dos teus anos», «Nomeio o Senhor X. para Presidente da Associação» ou «Está aberta a sessão». Aquilo a que estes enunciados se referem (a saudação, a aposta, a promessa, a nomeação, a abertura da sessão) é precisamente algo que realizamos quando os pronunciamos, que fazemos existir precisamente na sequência da sua enunciação. Para os distinguir dos outros enunciados, Austin deu-lhes o nome de performativos.

Os enunciados declarativos podem ser submetidos à prova da sua veracidade, por se referirem a algo que existe independentemente da ocorrência da sua enunciação, e enunciados performativos, que não podem ser submetidos à prova da veracidade, acerca dos quais não faz sentido dizer se são verdadeiros ou falsos, uma vez que aquilo a que se referem depende justamente do facto de serem enunciados.

último domingo de Maio

“Foi a partir de 1899 que se começou a alicerçar o que, mais tarde, viria a ser a Queima das Fitas, com a realização do “Centenário da Sebenta” que pretendeu ser uma réplica aos centenários comemorados entre 1880 e 1898, no intuito de homenagearem diversas figuras e factos. O ponto comum destes centenários era a sua apresentação pública na forma de um cortejo, com fogo de artifício, sarau e touradas. Porém, estas formas de homenagem não eram as mais próprias, uma vez que deturpavam o verdadeiro significado das efemérides. Surge assim, a ideia da realização de um centenário humorístico, ridicularizando os até então feitos, tomando por base a sebenta, compilação dos apontamentos do professor.
O Centenário da Sebenta passa a ter, assim, um âmbito critico de carácter geral e, ao mesmo tempo, particular, já que se protestava contra a exploração dos sebenteiros. A estrutura de tal manifestação confinou‑se a cortejos alegóricos e a um sarau. Tratava‑se agora de desenvolver esta ideia.

Nos anos seguintes, o 4º ano jurídico organiza festas da mesma espécie e introduz um aspecto inovador: o queimar das fitas que se usavam nas pastas e que eram indicadoras da sua condição de pré‑finalistas.
A fita é uma consequência das pastas dos meados do século passado que tinham para prender as duas partes que a compõem, três laços de fita estreita da cor da Faculdade do utente, um de cada lado, ao meio das bordas da pasta.
O queimar das fitas acabou por se transformar num acto simbólico cujo significado assenta no atingir um objectivo próximo: o término do curso.”
Sofia P.N.Rosário in Queima das Fitas/Centenário A.A.C.

No último domingo de Maio, no findar da Semana Académica, a Queima das Fitas em Setúbal.
Hoje, o 3º Curso de Licenciatura em Enfermagem da ESS, foi a queimar. Gente que é finalista de um curso que modifica as pessoas, gente que será recurso para os outros, que tem por missão cuidar. Se os professores são semeadores, como dizia o poeta, ver os estudantes formarem-se é um momento extraordinário, ainda que apenas intermédio…

Para eles, os protagonistas do dia, muitos votos de sucesso pessoal e profissional.

desvio de sábado




















being a human being
for Mordechai Vanunu

not to be complicit
not to accept everyone else is silent it must be alright

not to keep one’s mouth shut to hold onto one’s job
not to accept public language as cover and decoy

not to put friends and family before the rest of the world
not to say I am wrong when you know the government is wrong

not to be just a bought behaviour pattern
to accept the moment and fact of choiceI am a human being
and I exist

a human being
and a citizen of the world

responsible to that world
– and responsible for that world

Tom Leonard

Gratissima a stirring stilmess, fonte do desvio!

Leituras ou Ler Foucault













“Existem três grandes tipos de exame de si: primeiro, o exame pelo qual se avalia a correspondência entre os pensamentos e a realidade (Descartes); segundo, o exame pelo qual se estima a correspondência entre os pensamentos e as regras (Séneca); terceiro, o exame pelo qual se aprecia a relação entre um pensamento escondido e uma impureza da alma. É com o terceiro tipo de exame que começa a hermenêutica de si cristã e sua descodificação dos pensamentos íntimos. A hermenêutica de si fundamenta-se na ideia de que existe em nós qualquer coisa de escondido, e que nós vivemos sempre na ilusão de nós mesmos, uma ilusão que mascara o segredo.

Cassiano afirma que, a fim de praticar esse exame, devemos ocupar-nos de nós mesmos e testemunhar os nossos pensamentos diretamente. Ele utiliza três analogias.
A primeira é a analogia do moinho – os pensamentos são os grãos e a consciência é uma mó. Assim como o moleiro, devemos escolher os grãos – separar os que são ruins daqueles que, triturados pela mó, darão a boa farinha e o bom pão para nossa salvação.
A segunda analogia é militar. Cassiano estabelece uma analogia com o oficial que ordena a seus soldados que desfilem em duas filas: os bons à direita e os maus à esquerda. Devemos adotar a atitude do oficial que divide sua tropa em duas filas, a dos bons e a dos maus.
A terceira analogia é a do cambista. A consciência é o fiscal (argyronome) de si. Ela deve examinar as peças, considerar a sua efígie, perguntar-se de que metal são feitas, interrogar a sua proveniência. A consciência deve pesar as peças a fim de ver se não foram falsificadas.”

Les Techniques de soi
FOUCAULT, Michel – Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV

Foucault partia da questão: o que se deve conhecer de si a fim de aceitar a renúncia?
E afirma, no final, que, a partir do século XVIII e até a época actual, as “ciências humanas” reinseriram as técnicas de verbalização num contexto diferente, fazendo delas não o instrumento de renúncia do sujeito a si mesmo, mas o instrumento positivo da constituição de um novo sujeito. Que a utilização dessas técnicas deixou de implicar na renúncia do sujeito a si mesmo constitui uma ruptura decisiva.

Ou seja, o que antes surgia num horizonte de proibição e de renúncia, hoje configura-se numa linha de constituição do Si. Interessante…