“Significados atribuídos à competência emocional do enfermeiro – estudo empírico e impacto na educação”

SIGNIFICADOS ATRIBUÍDOS À COMPETÊNCIA EMOCIONAL DO ENFERMEIRO – ESTUDO EMPÍRICO E IMPACTO NA EDUCAÇÃO

Resumo

Objetivo: em vários estudos recentemente realizados, o lugar das emoções na prática de enfermagem surgiu principalmente focado no nível de experiência emocional, aumentando
a necessidade de significar a competência emocional do enfermeiro, a fim de encontrar contributos que permitam conhecer e compreender as diferentes dimensões e identificar
a sua finalidade no proporcionar conforto à pessoa hospitalizada numa unidade de cuidados paliativos.

Métodos: dado que se procuram os signifcados, a abordagem metodológica assumiu uma natureza qualitativa, descritiva e exploratória, utilizando a análise crítica do discurso de Fairclough para configurar o fenómeno. Os sujeitos do estudo foram enfermeiros e doentes que experienciavam a última etapa da vida, ambos presentes em unidades de cuidados paliativos. Foram entrevistadas trinta e quatro enfermeiras e doze pessoas vivendo o fim da vida.

Resultados: a análise e a compreensão da prática social em estudo permitiram construir o construto “competência emocional de enfermeiros”, juntamente com declarações descritivas de cinco capacidades e vinte e uma unidades de competência que o compõem. Conclusões: através da redução e da abstração teórica, o corpus discursivo revelou que a construção da “competência emocional dos enfermeiros” é concetualizada como um conjunto de capacidades que nos permitem conhecer, regular, alcançar e gerir fenómenos emocionais para construir e sustentar relações interpessoais em ambiente afetivo; e podemos explorar a influência na educação ou na gestão.
Palavras-chave: Competência clínica; emoções; métodos; assistência terminal; enfermagem.

Goal: In several studies, that have happened recently, the place of emotions in nursing practice has arisen primarily focused at the level of emotional experience, enhancing the need to signify the emotional competence of nurses. That need has the main intention of find contributions that allow knowing and understanding their different dimensions and identifying their purpose in providing comfort care to the hospitalized person in a palliative care unit.

Methods: Searching for meanings, the methodological approach has taken a qualitative, descriptive and exploratory nature, using critical discourse analysis of Fairclough to find the phenomenon configuration. Research subjects were nurses and patients who experience the last stage of life, both present in palliative care units. We have interviewed thirty-four nurses and twelve people living the end-of- life.

Findings: The analysis and understanding of the social practice under study allowed to build the construct‘emotional competence of nurses’ along with descriptive statements of five capabilities and twenty-one units of competency that compose it. Conclusions: The discursive corpus revealed that the construct of ‘emotional competence of nurses’ is conceptualized as a set of capabilities that allow us to know, regulate, achieve and manage emotional phenomena in order to build and sustain interpersonal relationships in affective environment; and we can explore the influence in education or management.
Keywords: Clinical competence; emotions; methods; terminal care; nursing.

Português

English

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“bodily map of emotions”

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Os mapas mostram que cada uma das 13 emoções tem um mapa corporal diferente, que se repete em cada cultura. “Como as diferentes emoções parecem ter uma base corporal diferente (que é consistente nas várias culturas), isto sugere que as emoções básicas [raiva, medo, nojo, felicidade, tristeza e surpresa, as outras sete já são ‘emoções complexas’] testadas neste estudo podem ter uma raiz biológica e uma base evolutiva.”
We often experience emotions directly in the body. When strolling through the park to meet with our sweetheart we walk lightly with our hearts pounding with excitement, whereas anxiety might tighten our muscles and make our hands sweat and tremble before an important job interview. Numerous studies have established that emotion systems prepare us to meet challenges encountered in the environment by adjusting the activation of the cardiovascular, skeletomuscular, neuroendocrine, and autonomic nervous system (ANS) (1). This link between emotions and bodily states is also reflected in the way we speak of emotions (2): a young bride getting married next week may suddenly have “cold feet,” severely disappointed lovers may be “heartbroken,” and our favorite song may send “a shiver down our spine.” Both classic (3) and more recent (4, 5) models of emotional
processing assume that subjective emotional feelings are triggered by the perception of emotion-related bodily states that reflect changes in the skeletomuscular, neuroendocrine, and autonomic nervous systems (1). These conscious feelings help the individuals to voluntarily fine-tune their behavior to better match the challenges of the environment (6). Although emotions are associated with a broad range of physiological changes (1, 7), it is
still hotly debated whether the bodily changes associated with different emotions are specific enough to serve as the basis for discrete emotional feelings, such as anger, fear, or happiness (8, 9), and the topographical distribution of the emotion-related bodily sensations has remained unknown. Here we reveal maps of bodily sensations associated with different emotions using a unique computer-based, topographical self-report method…
Conclusions
We conclude that emotional feelings are associated with discrete, yet partially overlapping maps of bodily sensations, which could be at the core of the emotional experience. These results thus support models assuming that somatosensation (25, 27) and embodiment (13, 14) play critical roles in emotional processing. Unraveling the subjective bodily sensations associated with human emotions may help us to better understand mood disorders such as depression and anxiety, which are accompanied by altered emotional processing (30), ANS activity (31, 32), and somatosensation (33). Topographical changes in emotion-triggered sensations in the body could thus provide a novel biomarker for emotional disorders.

Lugar(es) da emoção

De vez em quando, lá se volta a falar de António Damásio. Sim, o autor do «Erro de Descartes» e das conversas com Espinosa. Via Ciência Hoje,

Os pacientes cujo córtex frontal ventromediano – zona do cérebro situada acima dos olhos – está lesado têm geralmente menores reacções emocionais de dimensão social (compaixão, vergonha, culpabilidade) sem que a sua inteligência e a sua lógica sejam afectadas, segundo Damásio, da Universidade de Los Angeles, Califórnia.
Com Ralph Adolphs, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e outros especialistas em neurociência, colocou 30 pessoas, seis das quais com estas lesões cerebrais, face a escolhas moralmente difíceis, implicando sacrificar uma pessoa para salvar outras.
Exemplo de cenário proposto: no teu laboratório foram preparadas duas subtâncias – um líquido tóxico e uma vacina contra um perigoso vírus mortal que se propaga. A única forma de identificar a vacina é testar estas substâncias em dois pacientes. Estarias pronto a matar um deles para salvar muitas outras vidas? Confrontados com este tipo de dilema, os participantes com o córtex frontal ventromediano lesado responderam muito mais frequentemente “sim”, sem hesitações, do que os outros voluntários (12 com outros tipos de lesões cerebrais e 12 sem lesões neurológicas).
As suas opções lógicas em favor de um bem maior são consideradas “utilitaristas” pelos investigadores.
O que não significa forçosamente que agissem realmente como afirmam, nota uma outra especialista.
“Em tais circunstâncias, a maioria das pessoas sem lesões cerebrais específicas ver-se-ia confrontada com um conflito interior. Mas estes pacientes particulares não parecem experimentá-lo”, explica António Damásio na revista científica britânica Nature, que apresenta os seus trabalhos. Normalmente, um sentimento de aversão mistura a recusa do acto, emoções de dimensão social, compaixão pela pessoa envolvida, impede um homem de fazer mal a outro, acrescenta.
Face a outras escolhas menos difíceis (como guardar ou não um porta-moedas encontrado na rua), poucas diferenças de reacções foram observadas entre os três grupos participantes. Preocupado em distinguir o que resulta de uma aprendizagem social do que provém da própria estrutura do cérebro, Marc Hauser, da Universidade de Harvard, considera que este trabalho prova directamente o papel das emoções nos julgamentos morais.

(bold no corpo do artigo)

Apologia da compaixão



Olhar Posted by Hello

O trabalho de Richard Lazarus na área das emoções é, no mínimo, notável.

Gosto de cruzar algumas das suas “congruent (positive) and problematic emotions” com as virtudes éticas.

Hoje, escolho a compassion – muito embora a compaixão seja uma palavra que anda «pelas ruas da amargura», no sentido de lhe termos conferido um sentido judaico-cristão de caridade, de a carregarmos com afinidades que a menorizam. Mas é a nossa palavra para «compassion»…

Prefiro a compaixão à empatia, à simpatia e à piedade (com raíz na comiseratio, na comiseração). Entendo que Comte-Sponville a considere virtude e sentimento e que Lazarus a trate como habilidade, disposição e processo.

Distingamo-las, primeiro.

A simpatia promove encontro entre as pessoas mas não afirma sobre o valor das suas qualidades (há patifes muito simpáticos…). Mesmo vista como «sentir com», resta saber com quem se simpatiza.

A empatia reporta a tentar colocarmo-nos no lugar (nas circunstâncias) do Outro. Faz parte do leque de habilidades da inteligência emocional. A sua ligação à acção é, todavia, mais escassa que a da compaixão.

A piedade (e junto-me a outros detractores) é uma tristeza que sentimos diante da tristeza do outro – não acrescenta nada, a não ser mais tristeza.

“Há uma bondade que anuvia a vida”, escreveu Alain “uma bondade que é tristeza, que chamamos comumente piedade e que é um dos flagelos do humano”.

Por isso, a piedade vai a reboque do infortúnio e, concordo com Comte-Sponville, é comiseratio, sentida e vivida de cima para baixo.

Hannah Arendt distingue a piedade da compaixão afirmando que esta, ao contrário da piedade, “só pode compreender o particular, mas fica sem conhecimento do geral”; assim, ela não pode “ir além do que sofre uma pessoa única”.

Esta relação ao pessoal, singular, concreto, seduz-me. Não supõe, quanto ao seu objeto, nenhum juízo de valor determinado: pode-se ter compaixão pelo que se admira, como também pelo que se condena.

A compaixão é participar do sentimento do outro em situação de sofrimento, na dor e na tristeza. Não se trata de aprovar (ou desaprovar), nem de compartilhar as suas razões. Evite-se confundir compaixão com condescendência e com caridade-de-esmola.

A compaixão muda a orientação para um amor pelos outros, e não é por acaso que Schopenhauer vê nela o móbil por excelência da moralidade. Simpatiza universalmente com tudo o que sofre: se temos deveres para com os animais, por exemplo, é antes de tudo por ela, ou nela, e é por isso que a compaixão talvez seja a mais universal das nossas virtudes.

À luz da compaixão, poderíamos advogar um aumento nos impostos e/ou a sua mais criteriosa e melhor utilização – lembro-me de alguém afirmar, numa mesa-redonda sobre ética, que decerto queríamos pagar menos impostos. E da minha discordância clara porque existe diferença entre querer ganhar mais e pagar menos impostos. Também me parece que, além de ilegal e injusta, a fuga aos impostos falha redondamente na compaixão e na responsabilidade social.

Voltando a Lazarus, em «ponte» para os profissionais de saúde, com destaque para os enfermeiros:

“In compassion, the action tendency is the impulse to reach out to mitigate the other’s plight, to help the other person, to express sympathy, and yet to maintain sufficient detachment to avoid being overwhelmed with distress ourselves. If we should experience survivor guilt along with compassion, as long as it does not chill the wish to help the victim, it may support compassion, because we wish to pay or atone for our own good fortune at not being a victim” (Emotion & Adaptation, p. 290)

O cerne da questão é que, pela compaixão, “is being moved by another’s suffering and wanting to help.” E é também esta a diferença – compaixão é participar no sofrimento do outro e agir para ajudar.

“Ama e faz o que queres”, diz Agostinho

ou “compadece-te e faz o que deves”, afirma Comte-Sponville.

Deixemos de nos embaraçar de dizer «compaixão».

Redimamos a palavra e pode ser que isso ajude a valorizar a ideia. Ah, e a acção indissociável.

citando… sobre "as nossas duas mentes"

«Estas duas mentes, a racional e a emocional, funcionam a maior parte das vezes em harmonia perfeita, combinando os seus dois modos diferentes de saber para guiar-nos através do mundo. Normalmente, há um equilíbrio entre as mentes racional e emocional, em que a emoção se alimenta e ao mesmo tempo informa as operações da mente racional, e esta refina e por vezes veta as contribuições da emoção. No entanto, as mentes emocional e racional são faculdades semi-independentes, reflectindo cada uma delas o funcionamento de circuitos distintos, mas interligados, no interior do cérebro.”



Daniel Goldeman, Inteligência emocional, p.31