Publicado em Efemérides, História, História de Enfermagem

A 1 de novembro [de 1755]

a 1 de novembro de 1755 ocorreu o Terramoto de Lisboa, às 9h30 ou 9h40 da manhã.

Relatos da época afirmam que os abalos foram sentidos, consoante o local, durante entre seis minutos a duas horas e meia…
“O terramoto durou cinco anos (1755-1760); e subverteu as ruas e as casas, os templos, os monumentos, as instituições, os homens, e até as suas ideias. E sobre as ruínas e destroços da cidade maldita, levantou-se a Jerusalém do utilitarismo burguês; sobre as migalhas de Síbare, a efémera Salento do marquês de Pombal.
Na manhã do 1º de Novembro a cidade estremeceu, abalada profundamente, e começou a desabar. Eram nove horas da manhã, dia de Todos-os-Santos.
(…)
Dessa hecatombe nasceu o poder do marquês de Pombal; e o acaso, aterrando os ânimos com o pavoroso acontecimento, preparou-os para aceitarem submissamente o jugo do tirano, que ia consumar o terramoto político, depois da natureza ter consumado a ruína da cidade perdida de D. João V.”

Oliveira Martins, História de Portugal (1879). Lisboa: INCM, 1988. p. 172

E sobre o assunto, uma tese de doutoramento de Enfermagem focou-se no socorro às vítimas – assunto que se recomenda, naturalmente, pelas aprendizagens que o passado pode aportar ao presente. É para ler:  Maria Amélia Dias Ferreira, O socorro às vítimas do Terramoto de Lisboa (1755)

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3 de outubro de 1910 – Atentado a Miguel Bombarda : “Chamem o José Bernardo!”

Conversamos?!...

 
No dia de hoje, 3 de outubro, vale a pena ler um artigo em que se assinala a efeméride do atentado a Miguel Bombarda, se percebe que a revolução teria sido dia 4 (e estaríamos amanhã de feriado, em vez de sexta-feira) pelo texto de Ana Pires,
“Os dias que antecederam a implantação da República em Portugal foram vividos com agitação. No dia 3 de Outubro de 1910 o médico Miguel Bombarda foi alvo de um atentado em consequência do qual acabaria por falecer. A notícia, no jornal de 4 de Outubro, de contornos dramáticos, ocupa toda a primeira página do jornal e estende-se pelas páginas seguintes. Nesse relato, muito pormenorizado de como tudo aconteceu, é referido um apelo feito pelo médico à entrada do Banco, do ainda, Hospital Real de S. José: “Chamem o José Bernardo!…

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RIP Isaura Borges Coelho

Isaura Borges Coelho morreu ontem. Soube hoje. E pensei de imediato que tinha de colocar um post, de memória e homenagem. …. Ouvi falar dela há uns vinte e seis/sete anos, quando comecei investigação sobre a História da Enfermagem.

Em 1952, foram despedidas 12 enfermeiras do Hospital Júlio de Matos por serem casadas – isto porque havia uma proibição de casamento das enfermeiras (que vigorou no Hospitais Civis entre 1947 e 1963). Em 1953, Isaura Borges Coelho recolheu assinaturas para um abaixo-assinado, que encabeçava, e que foi endereçado a Salazar, ao Cardeal Cerejeira e ao Enfermeiro Mor  (diretor dos Hospitais Civis de Lisboa) , com exigência de liberdade de casamento para as enfermeiras.

Ficou presa 4 anos, com internamentos pelo meio, pois estava muito magra (a narrativa é de ter 30 quilos quando foi internada no Hospital de Santa Marta, em Setembro de 1955, e, depois, em Santa Maria). Em 1957 foi libertada (graças a uma amnistia aquando da visita da rainha Isabel II de Inglaterra) ficando com residência fixa em Portimão (de onde era natural), em casa dos pais.

Já nesses idos da década de 90 me impressionou a coragem (diria melhor, a audácia e a determinação) de encabeçar um abaixo-assinado em tão adversas circunstâncias. É que não deve ter sido mesmo nada simples, aos 27 anos, no clima lisboeta da época, insurgir-se tão veementemente contra o sistema. Numa conversa, anos mais tarde, juntei o rosto, o tom de voz e a serenidade à história.

Combina perfeitamente a ideia de «mulher que desafiou o guião» (escreveu Clara Sarmento) e de “mulheres em tempos sombrios” (Vanda Gorjão) que se opõem, se manifestam, de recusam à subalternização.

Isaura Assunção da Silva Borges Coelho nasceu em Portimão em 20 de Junho de 1926- curiosamente, o ano do golpe militar que conduziu ao processo de instauração do regime do Estado Novo. Em 1949, com 23 anos, matriculou-se na Escola de Enfermagem Artur Ravara e em 1952 iniciou funções nos Hospitais Civis de Lisboa, no Hospital dos Capuchos.

Em 2002, a Presidência da República – Chancelaria das Ordens Honoríficas Portuguesas atribuiu-lhe, por alvarás de 8 de Março, a Ordem da Liberdade, grau de comendador (“a Ordem da Liberdade destina-se a distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade”.).

Podem ler alguns detalhes mais longos em alguns artigos:

Jornal Tornado, Isaura Borges Coelho

Jornal Público, Morreu Isaura Borges Coelho antifascista que lutou pelo direito de as enfermeiras se poderem casar

ou alguns excertos de vida em “Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo”, de Vanda Gorjão.

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“Bibliografia dos estudos de História da Enfermagem em Portugal” [2019]

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Este e-book foi elaborado com o objetivo de reunir num só documento a informação bibliográfica sobre os estudos da História da Enfermagem em Portugal, e, desta forma, facilitar o acesso ao acervo constituído por teses, dissertações, livros, artigos, livros de atas e outros documentos. Assim, trata-se de um catálogo ou levantamento bibliográfico organizado e anotado, com a particularidade de incluir texto com resumo sobre a referência bibliográfica, procurando visibilizar e, ao mesmo tempo, mapear os estudos existentes até ao final de 2018.

(…)

Este e-book tem duas partes que correspondem, respetivamente, ao levantamento bibliográfico e à sua caracterização e análise. Na parte I, cumprimos o objetivo geral de produzir uma bibliografia descritiva anotada dos estudos da História da Enfermagem em Portugal e estabelecemos os objetivos específicos de identificar recursos disponíveis – proceder a levantamento bibliográfico, apresentar as fontes, com parte do resumo dos autores e eventual anotação e organizar as referências por grupos e cronologia. Na parte II, analisamos as fontes da bibliografia recolhida, quer em termos materiais quer de compreensão dos recursos disponíveis. O resultado esperado é a sistematização dos estudos de investigação da História da Enfermagem em Portugal, o estado da arte nesta matéria, que possa servir de suporte ao estudo, por exemplo, em unidades curriculares que sejam dedicadas ou incluam a temática da História da Enfermagem.”

eBook aqui

 

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3 de outubro de 1910 – Atentado a Miguel Bombarda : “Chamem o José Bernardo!”

 
No dia de hoje, 3 de outubro, vale a pena ler um artigo em que se assinala a efeméride do atentado a Miguel Bombarda, se percebe que a revolução teria sido dia 4 (e estaríamos amanhã de feriado, em vez de sexta-feira) pelo texto de Ana Pires,

“Os dias que antecederam a implantação da República em Portugal foram vividos com agitação. No dia 3 de Outubro de 1910 o médico Miguel Bombarda foi alvo de um atentado em consequência do qual acabaria por falecer. A notícia, no jornal de 4 de Outubro, de contornos dramáticos, ocupa toda a primeira página do jornal e estende-se pelas páginas seguintes. Nesse relato, muito pormenorizado de como tudo aconteceu, é referido um apelo feito pelo médico à entrada do Banco, do ainda, Hospital Real de S. José: “Chamem o José Bernardo! Preciso ser operado”. Duas simples frases que suscitam a interrogação: O que é que levaria alguém, gravemente ferido, a chamar, em primeiro lugar, por aquele enfermeiro? Quais seriam as suas qualidades e competências? Especialmente quando esse «alguém» era Miguel Augusto Bombarda.
Vale a pena fazer uma breve referência à figura de Miguel Bombarda e às circunstâncias que rodearam o atentado, porque do enaltecimento da sua figura emerge o enaltecimento da figura do enfermeiro José Bernardo. Conceituado médico psiquiatra, Miguel Bombarda integra-se nas correntes filosóficas e cientificas dos finais do século XIX, que defendem a Ciência como critério último da verdade e garante do progresso e evolução da sociedade. Foi um dos principais defensores da Ciência Psiquiátrica e da ideia de que o louco tem direito a ser considerado como um doente e um desvalido e como tal protegido, amparado e medicado e isolado apenas quando representa um perigo para a sociedade. Opôs-se firmemente às ideias populares e supersticiosas sobre a loucura e foi um crítico feroz das ordens religiosas que, afirmava, se opõem às directrizes médicas (Pereira, 2010, p. 132). Foi um dos grandes defensores da enfermagem laica em Portugal e da necessidade de se criar um corpo de profissionais devidamente educado e instruído capaz de acompanhar os progressos científicos que a medicina teve na transição do século XIX para o século XX. No campo político foi membro do Partido Republicano Português e era o chefe civil do movimento revolucionário de 5 de Outubro de 1910.
Voltando ao jornal, a forma como a notícia está redigida revela o choque que causou o seu atentado, pelo menos em Lisboa. Evidencia as qualidades do cidadão republicano, a sua nobreza de carácter, as suas qualidades como homem de ciência e o seu reconhecimento internacional. A descrição de como tudo se passou é ela própria um elogio à sua figura.
A 3 de Outubro, Miguel Bombarda, a trabalhar no seu gabinete no hospital de Rilhafoles (posteriormente Manicómio Miguel Bombarda), foi alvejado com três tiros por um antigo doente seu. Consciente das repercussões que esse acto poderia ter nas vésperas da revolução republicana (que iria ser adiada para 5 de Outubro precisamente pelo sucedido), pediu que não lhe fizessem mal porque era um louco, e por isso sem consciência da dimensão dos seus actos. Saiu do hospital pelo seu pé, tomou o mesmo carro que o doente usara e dirigiu-se ao hospital de S. José. Ainda pelo seu pé, saiu do carro e entrando no Banco do hospital chamou pelo enfermeiro José Bernardo e disse-lhe: “Estou ferido, preciso de ser operado.”
Miguel Bombarda morreria ao final do dia. O seu funeral realizou-se a 16 de Outubro, juntamente com o de outro herói da República, o Almirante Cândido dos Reis. Estas duas cerimónias constituíram, em Lisboa, a primeira grande manifestação popular de apoio ao novo regime.”
Curiosamente, Miguel Bombarda (1851-1910) e Carlos Cândido dos Reis (1852-1910) morreram com algumas horas de diferença, na alvorada da revolução que implantaria a República. Revolução em que estavam totalmente empenhados. Bombarda a 3 de Outubro, baleado por um louco que tratara, Cândido dos Reis na madrugada de 4 de Outubro vítima de desesperada exaltação, ou assassinado… sabe-se lá. Falecidos quase ao mesmo tempo… Um, lente da Escola Médica de Lisboa e director do hospital de alienados em Rilhafoles, outro, vice-almirante na reforma. Ambos com lugares marcados no governo provisório do regime a proclamar. Bombarda tomaria a pasta dos Negócios Estrangeiros, Cândido dos Reis a da Marinha. Para além de não-comprovadas competência e habilidade ministerial, ambos faziam falta a um mal arrumado grupo de inexperientes ministros. Da sua autoridade moral precisavam as instituições que se estreavam. Fora “a grande fatalidade”, escreveu Brito Camacho.
[…]
Os dois chefes desapareciam. E foi mesmo a marinha que se revelou essencial para a luta armada pouco agressiva que se desenrolou em Lisboa em 4 e 5 de Outubro. Com o principal grupo revoltado na Rotunda da Avenida da Liberdade com comando de Machado Santos (comissário naval), e sem Cândido dos Reis para comandar as operações, acabou por ser o primeiro-tenente Ladislau Parreira a chefiar. E todos os navios – Adamastor, São Rafael e D. Carlos – ficaram com comandantes republicanos, Cabeçadas, Tito de Morais, Carlos da Maia. A ameaça de actuação da armada sobre o Quartel General (no Palácio Almada) fez apressar a rendição. Já não havia forças leais dispostas ao combate por uma monarquia de mais de setecentos anos cujo rei saíra para Mafra a caminho de Inglaterra. A revolução de 4/5 de Outubro de 1910 fez vítimas: entre 50 e 60 mortos e uns 700 feridos, muitos deles ligeiros. Como disse Afonso Costa a um jornalista espanhol, “foi uma revolução belíssima, quase incruenta. Portugal esperava-a e recebeu-a com os braços abertos, com a doce e tranquila emoção do filho que vê chegar a sua mãe”.